A História não se reescreve e nem pode ser editada como se fosse uma estória... - Elaine Gaspareto- Dicas para blogs e inspirações para a vida

A História não se reescreve e nem pode ser editada como se fosse uma estória...

Publicado em 31/03/2019

Há um ditado que diz que de dentro da floresta não enxergamos a copa das árvores.
Ele quer dizer que, muitas vezes, precisamos estar mais afastados para ver o todo com mais clareza, para ter uma perspectiva mais clara sobre um assunto, um fato, uma pessoa...

Lembrei desse ditado quando vi, no Twitter, essa seleção de charges que tem sido publicadas sobre o Brasil em jornais e revistas mundo afora.


A maneira como nosso país é visto por quem está longe diz muito, mas muito mesmo sobre como estamos e sobre como, muitas vezes, não nos vemos e nem nos percebemos.
O Brasil, a julgar pela forma como a arte da charge o retrata mundo afora, está em um momento muito, muito ruim...
E eu, daqui da minha cidadezinha do interior, só posso dizer que as charges e os cartuns ainda não conseguem exprimir completamente o horror que sinto ao ver como esse (des)governo age e trata temas delicados e/ou históricos.

Disclaimer:
O site de onde a maioria das charges vieram, com os créditos dos respectivos cartunistas:
https://www.cagle.com/tag/brazil


Eu nasci em 1972, auge da ditadura militar.
Cresci e estudei os primeiros anos ainda na ditadura, a primeira eleição direta que vi foi em 1989.
Muito antes disso eu lembro da eleição indireta para governo do estado, quando foi eleito Franco Montoro. Foi a primeira vez que falaram de política pra mim, eu ainda menina...

Tive aos 11 anos, na 5ª série, aulas de OSPB, o presidente era o Gn. Figueiredo.
Apesar de ser ainda ditadura era o começo da abertura, e eu gostava das aulas.
Aprendi a cantar os hinos todos, a amar a bandeira, a entender o que os símbolos nacionais significavam.
E como consequência eu passei a gostar de História. Sou fascinada, História é apaixonante demais!

E desde cedo, ainda na ditadura, eu entendi que foi golpe militar.
Nunca me foi dito, no começo da década de 1980, que o que houve tenha sido outra coisa que não golpe militar.
Os militares, veja bem, ainda no poder, não negavam o óbvio.
Tentavam justificar com o botãozinho da "ditadura comunista" mas nunca me ensinaram, nem os professores, nem os livros recém-impressos, nem o pouco que a imprensa noticiava... nada negava que fora golpe militar.

Os anos passaram, eu segui amando os hinos do meu país, sou pessoa que chora com a execução do Hino Nacional, e se emociona ao ver tremular a bandeira.
Mas segui sabendo que houve ditadura, que ela foi cruel, que matou, perseguiu e torturou. E sim, sei da guerrilha, sei que havia grupo armado (muito devido ao endurecimento do regime, evidente). Sei que havia resistência, mas sei que foi golpe, e que foi ditadura.

Li relatos, li livros. Conversei com pessoas que viveram o período, gente mais velha que eu. Tive professores que eram favoráveis à ditadura, e tive professores que foram perseguidos por ela. Vi e ouvi ambos os lados, e mesmo o professor defensor dos militares ensinava que fora golpe, e que fora ditadura. Era professor de geografia, o tipo que hoje a gente chamaria de reaça. Gostava das aulas dele, ouvia atenta, discutia. Ele justificava a ditadura, mas jamais a negou.

Tive uma amiga mais velha que eu, uma professora de Português, que estudava em São Paulo no começo dos anos 1970 e que precisou voltar pra São Joaquim escondida pois estava sendo vigiada e poderia ser presa porque era estudante e protestara contra a ditadura. A família, aterrorizada, despachou-a pra cá. Ela vigiada, alguns amigos chamados para depor, um primo foi preso e sofreu tortura.
Não eram bandidos, não eram guerrilheiros, eram pessoas que discordavam do regime e diziam isso.
Igual você talvez faça no Facebook ou no Twitter hoje em dia...

Houve golpe, e a ditadura militar foi instaurada.
Essa é a História real, e o Brasil nunca fez as pazes com esse passado histórico.
A Anistia trouxe coisas boas, mas ao "perdoar" ambos os lados tentou esconder no fundo do armário os crimes e abusos absurdos cometidos pelo governo militar.
E a gente bem sabe que há coisas que jamais ficam escondidas e insepultas para sempre.


Uma ferida só se cura quando é exposta, limpa, aberta e aí sim pode sarar.
Ao enterrar bem fundo as torturas, os desaparecimentos, os roubos de crianças filhas dos militantes, a perseguição aos militares contrários ao regime (sim, milhares de militares foram perseguidos) e tudo o mais que a gente conhece tão bem a Anistia "ampla, geral e irrestrita" apenas impediu que as feridas fossem expostas e limpas para, aí sim, terem a chance de cura.
Claro que, naquele momento, foi o melhor que conseguiram fazer para trazer de volta exilados e perseguidos políticos.
Mas o preço foi bem alto, uma tentativa de apagamento e de reescrever os fatos que assusta.

A História, essa com H maiúsculo, não se reescreve.
Vejo, assombrada, essa ideia louca, insana, de comemorar o golpe de 1º de abril de 1964. E a tentativa de reescrever fatos.
Note que os próprios militares querem deixar quieto.
Claro... a História estava lá, quietinha, sepultadinha, ninguém ficava falando dos crimes, das perseguições, das torturas.
Um ou outro texto, uma ou outra notícia...
Deixa quieto, o povo aos poucos vai esquecendo... tudo ia bem, os esqueletos no armário (e nas covas clandestinas) até que esse celerado que ocupa o Palácio do Planalto tem a ideia "brilhante" de comemorar o que causou décadas de terror, atraso, perseguição e  medo.
Agora, só se fala nisso nas redes sociais pelas quais ele governa.
Ou seja: desperte o monstro, vai lá, vai dar certo sim. #sqn
Vai descobrir que o presente não se constrói tentando reescrever o passado.
Coisas como a ditadura não se esquece para que nunca mais aconteça, mas jamais se comemora.
Créditos: Iotti

Para finalizar separei uns textos que li hoje e ontem sobre o golpe de 1964.
Clique nos links, eles abrem em nova aba.
Alguns são bem tristes, mas é isso aí, essa é a História.
Nem sempre gloriosa, na maioria das vezes é feia e cruel. Mas ainda assim a História é uma arma poderosa. Ela ensina. Ela pode prevenir.

➡️ Paulo Coelho e seu relato de tortura
➡️ 55 anos do golpe militar: a história dos 6,5 mil militares perseguidos pela ditadura
➡️ 18 filmes sobre o golpe de 1964 e a ditadura militar
➡️ 36 livros sobre o golpe de 1964 e a ditadura militar brasileira
➡️ 55 anos do golpe militar: os integrantes da equipe de Bolsonaro considerados ‘subversivos’ e ‘infiltrados comunistas’ pela ditadura
➡️ 7 crimes que derrubam a tese de que a ditadura só perseguiu “terroristas”
➡️ Entenda o golpe de 1964 e as consequências da ditadura militar no país
➡️ Ditadura no Brasil- conheça alguns fatos que deixaram cicatrizes no país
➡️ Os 10 maiores mitos sobre a ditadura no Brasil



Em tempo: quando falo de tortura, perseguição e tudo o mais também incluo no repúdio toda e qualquer ditadura, seja ela de direita, de esquerda, seja lá de onde for e de onde vier. Em qualquer tempo.
E sim, eu sei que militantes contrários a ditadura no Brasil também mataram.
Não sou bobinha, apesar de ser caipira...

Mas entendo que nada se compara ao que foi feito sob a égide do Estado.
As mortes, torturas, estupros, sequestros, perseguições, dissolução do Congresso, cassação de mandatos... a Constituição posta de lado... isso é a ditadura...

Sei que textos assim, mais opinativos e políticos, em geral causam reações variadas e podem render comentários agressivos.
Já vou adiantando que se aparecer por aqui algum saudoso da ditadura, algum entusiasta da tortura ou alguém relativizando as mortes e perseguições nem se dê ao trabalho de comentar.
Pessoas que justificam e passam pano (usando um termo bem internético)para agentes de morte, assassinato, tortura, perseguição, sequestro e estupro não me interessam.
Nem como leitores...


Bônus:
Criei uma playlist no Youtube com algumas músicas desse período, de artistas importantes que usaram sua arte para resistir.
Aperta o play!






7 comentários

  1. O texto é teu, por ti escrito mas diz tudo do que milhões diriam a respeito deste que foi o episódio da maior insanidade cometida contra a liberdade de ideias. Parabéns! Compartilhei!
    Abraço!
    Sonia

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  2. Lembro muito bem dessa época infeliz. Não entendia nada do que estava acontecendo lá da na minha cidadezinha do interior. Sabia apenas que era proibido dizer certas palavras, que era preciso andar na linha pra não ser chamado de subversivo. Naqueles tempos não tão distantes assim eu não entendia de absolutamente nada. Hoje eu entendo e fico perplexa diante da capacidade do ser humano de querer reviver o sofrimento do outro. Que a Luz Divina ilumine as nossas mentes para que nunca esqueçamos que mesmo andando por caminhos diferentes somos todos irmãos diante de Deus.
    Abraços

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  3. Olá.

    Assim como você, eu cursei o primário e ginásio durante o período dos governos militares. Era assim que chamavam da quinta ao oitavo não escolar. Das informações recebidas em casa, das conversas de adultos que pude ouvir, não consegui compreender bem o que se tratava, não tive a capacidade de fazer juízo de valor. E foi assim comigo, apesar de meu pai ter recebido em casa um tio, que veio de Recife para a São Paulo – capital – fugido dos militares porque era ativista sindical e membro de um partido comunista.

    Naquele Brasil do passado, quem viveu longe das atividades políticas viveu bem. Cresci em família de classe média simples. Não havia dinheiro sobrando e também nenhuma escassez. As crianças brincavam nas ruas e não se ouvia notícias de violência ou crime bárbaro. Maconha e cocaína? Nem essas palavras nós conhecíamos.

    Hoje eu leio sobre a Comissão da Verdade. Acho muitíssimo estranho o fato de apenas um lado da questão ter a voz, o lado dos comunistas. E das coisas que pesquisei, percebi que as Forças Armadas se levantaram contra a tentativa de impor ao Brasil um regime ditatorial comunista. Passamos por 20 anos e alguns meses debaixo da governança de militares e eles devolveram o Brasil aos civis.

    E concluo dizendo que se este regime comunista tivesse alcançado o Poder, estaria nos governando até hoje. Estaríamos sob uma ditadura! Seríamos como uma Cuba ou uma Venezuela? A China? Isso seria motivo para chorar ou comemorar?

    Abraço.

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    1. Você tá bêbado, cara? Tirando a Intentona Comunista, que aconteceu no meio MILITAR, o Brasil NUNCA viveu o comunismo, nunca teve ameaça comunista, nunca. O comunismo é um fantasma útil pra manipular pessoas, bem... como você.

      Além disso o comunismo quer tomar os meios de produção, ele não quer esse teu Galaxy de tela rachada não, amigo. Se você disse que estudou a questão, estudou no lugar errado.

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    2. Lady Sybylla e demais.

      Eu não disse que o Brasil viveu período de governança comunista. Houve a tentativa frustrada, as Forças Armadas impediu. E eu digo graças a Deus, pelo impedimento. É claro, sem concordar com qualquer espécie de exageros cometidos após isso.

      É bom observar que o marxismo está em pleno declínio, e ao que parece, sem chance de dar meia-volta e subir a ladeira. Basta olhar o que está acontecendo em outros países. A ideologia fracassa quando chega ao poder, porque o seu discurso não corresponde com a prática.

      Estou ansioso para ver o que acontecerá nas próximas eleições dos Estados Unidos. Sei, reconheço que o Partido Democrata está longe de ser comunista, porém, tem uma simpatia enorme pelas ideias de Marx. Ali está o indicador de, aproximadamente, duas ou três décadas do nosso planeta em se tratando de política.

      O passado mostra que os Estados Unidos faz revezamento ideológico no cargo presidencial: oito anos com um presidente democrata e outros oito com um republicano. Se, com todo o despautério de Donald Trump em seus primeiros quatro anos como presidente ele conseguir ganhar mais quatro, penso que isso é sinal de que o mundo se cansou mesmo das ideias esquerdistas. Quer um basta na apologia do aborto, quer um chega pra lá no ateísmo, não quer saber em liberação de drogas e nenhuma espécie de hostilização aos judeus.

      Abraços.

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  4. Sabe o que a gente precisa recuperar, urgentíssimo? A capacidade de dialogar, de escutar o que o outro tem a dizer. Mas eu digo escutar de verdade, analisar os argumentos do outro com honestidade intelectual, tentar compreendê-o e não chamar de "bêbado" se ele não pensar igual a mim. Eu mesmo discordo da maior parte do que este post diz, mas enquanto cidadão e enquanto ser pensante, por honestidade intelectual, eu tenho a OBRIGAÇÃO de reconhecer o direito de quem escreveu (por sinal alguém que eu respeito profundamente) de pensar diferente de mim – e mais ainda: reconhecer que, mesmo não concordando no geral, em alguns pontos admito que ela tem razão e nesses pontos eu também concordo.

    O que está acontecendo no Brasil de hoje, após décadas de imposição de uma visão marxista de mundo (pela Globo, pelos professores nas escolas, nas grandes mídias de massa, etc.) é uma divisão da sociedade em classes que não ajuda em nada. É um ódio mortal disseminado sob a alegação da tolerância, do respeito, da luta pela democracia... É só olhar a História para ver que o marxismo, para prosperar, precisa dividir a sociedade: é preciso um inimigo para combater, sejam os ricos, os empresários, os religiosos, os gays... Sim, hoje eles defendem o pessoal LGBT, mas no passado os condenavam à morte, por exemplo nos gulags da União Soviética ou nas prisões de Cuba.

    E aí, divididas umas contra as outras, as pessoas se armam de uma tal maneira que fica impossível o diálogo, e isso só pode ser muito ruim para qualquer nação. É um vício altamente destrutivo. Se alguém traz uma opinião diferente, mesmo que seja com todo respeito e tentando argumentar numa boa, será tratado como inimigo, como um monstro que precisa ser humilhado e exterminado imediatamente. Porque ele é visto como um monstro e como um inimigo. Onde chegaremos, assim?

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  5. Oi Elaine! Excelente texto, é realmente chocante a ideia de se comemorar esse fato, querer mudar a História, querer reviver...
    Os tempos mudaram e ainda continuam usando o bicho papão que nunca comeu ninguém, para fazer a cabeça dos incautos.
    Eu não tinha consciência política antes dos 25, mas desde muito menina achava estranho e questionava leis impostas e, o não poder falar o que se pensava de política, coisas assim, minha mente nunca foi de engolir qualquer coisa sem pensar (só comida rs), não ter o direito de opinar me dá agonia, é a pior escravidão.
    Abraço!

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