A menina e o pudim de caramelo - * Blog Elaine Gaspareto *

A menina e o pudim de caramelo

Publicado em 20/10/2018

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Tudo começou com um tuíte que apareceu em minha TL outro dia:
Eu comentei no post, relembrando uma estória antiga que vivi e desde então fiquei pensando que nunca contei aqui no blog. Na verdade nunca contei pra ninguém, embora jamais tenha esquecido.
E olha que lá se vão mais de 30 anos.
Senta que vou te contar mais um pouco de mim...

Quando eu tinha uns 12 anos a irmã que havia sido minha catequista de primeira comunhão conseguiu um trabalho de empregada doméstica para mim na casa de um juiz aqui da minha cidade.
Era uma família importante, com filhos na faculdade, a casa linda e grande.
Eu já havia trabalhado antes como doméstica mas a velhinha onde eu trabalhava morrera e aí precisei de outro trabalho. Pois bem.

Naquele tempo as coisas eram muito diferentes de hoje. Não havia registro em carteira para empregada doméstica e meninas bem novinhas eram as preferidas porque não tinham ainda a consciência de que poderiam negociar salário e condições de trabalho, por exemplo. Eu não era exceção, era a regra.
A gente ganhava mais ou menos 1/3 do salário mínimo, entrava bem cedo e só podia ir embora quando a patroa dissesse pra ir.
Eu, como todas as outras, fazíamos o que nos era mandado: limpar, lavar, ajudar na cozinha, cuidar de crianças, o que fosse. Sem direitos trabalhistas, só o salário no fim do mês, que no meu caso eu nem via, ia direto para as mãos do meu pai.
Então, eu fui trabalhar nessa casa.

Um dia, com muita fome pois a dona da casa havia saído e não deixara nada pra almoçar, eu abri a geladeira e lá tinha 3 desses pudins de caixinha que a gente faz, sabe? Comi um.
A moça que passava roupa chegou, eu fui pra casa.
De noite recebemos a visita da freira que havia arrumado o trabalho pra mim.

Ela foi mandada até minha casa pra explicar pra minha mãe que eu havia comido o pudinzinho (era de caramelo, lembro até hoje) e que a patroa mandou dizer que não, eu não podia comer lá na casa dela a menos que ela desse na minha mão, que eu deveria comer na minha casa casa. Que era um absurdo eu comer algo lá sem permissão.
Minha mãe baixou a cabeça e disse que ia falar comigo.
Nem precisava, eu estava ali do lado delas, ouvi tudo.

No dia seguinte cheguei cedo ao trabalho, não podia sair se não tivesse outro para onde ir.
A patroa não me disse nada, nem nas semanas seguintes.
Fiquei tão triste, com tanta raiva e com tanta vergonha que nunca mais bebi nem água lá.
Até que um dia, lavando o corredor atrás da casa eu a ouvi, a patroa, ao telefone.
Ele explicava para uma amiga que não podia sair, que tinha que esperar eu terminar e ir embora, porque "estou com uma menina pra me ajudar aqui em casa, e ela mexe nas coisas".
Comecei a chorar. Eu não mexia nas coisas... fiquei pensando em quem seria a amiga, e se ela viesse ver a menina que mexe nas coisas? Muita vergonha, muita tristeza, ainda sinto ao escrever isso...
Fui de mansinho, desliguei a torneira, peguei meu chinelinho e saí de mansinho pelo portão menor da casa.
Nunca mais voltei.

Andei o resto do dia, em toda casa que eu via uma empregada lavando quintal ou pondo lixo pra fora eu parava e perguntava se ela sabia de alguma casa que precisasse de empregada.
Voltei pra casa no fim do dia, já com um emprego arrumado.
Meus pais nem questionaram, não perguntaram, nunca foram ver o emprego novo, nem sabiam onde era pra ser franca. Importava era que eu fosse, seja onde fosse.

Nunca mais falei com a irmã; ela apareceu em casa, claro, minha mãe disse que ela criticou muito, mas eu nunca mais falei com ela.
Tinha raiva pela humilhação, pela falta de proteção da minha mãe, mas sobretudo tinha vergonha, e essa vergonha me afastou da igreja por longos 6 anos. Não tinha raiva da igreja, mas tinha vergonha porque achava que todo mundo saberia que eu comi um potinho de pudim instantâneo de caramelo.

Escrever esse relato é uma catarse, não tinha ideia do quanto ainda me afetava.
E eu, ingenuamente, achei que essas coisas absurdas tinham ficado pra trás, nos anos 1980.
Não ficaram.

Ainda há patroas que proíbem as empregadas de comer, de usar os mesmos pratos e talheres da família, separam o que a doméstica ou diarista vai comer, compram alimentos mais baratos para ela, ou dão as sobras, inclusive o que resta no prato das crianças.
Sei de casos em que a diarista come comida vencida, que ficou morrendo na geladeira, que são proibidas de beber água gelada ou do bebedouro.
2018, gente, e os pobres ainda são tratados como inferiores. Tenho para mim que nunca vai mudar de fato.

Hoje em dia passo de carro em frente a casa onde isso me aconteceu. Não sei da família, se ainda mora alguém lá, mas não há um único dia que eu passe e não me lembre.
Não sinto mais raiva, mas ainda sinto tristeza.
Eu era tão criança, hoje entendo isso.
Não sabia direito me comportar na casa dos outros, e pasme, até hoje sinto vergonha. Há marcas que nunca saem.

Eu era criança, e mesmo que não fosse, foi triste.
Não sei se eram pessoas boas ou más, ou simplesmente pessoas, mas repreender e difamar uma menina por causa de comida é bem cruel, eu acho.
Na época não achei; como eu disse, tive muita vergonha e dei razão totalmente à patroa e à irmã. Na minha cabecinha de 12 anos eu roubara um potinho de pudim de caramelo e isso era um crime horrível.

Hoje, reolhando esse episódio eu penso muito diferente. Claro que pegar o que é dos outros é errado, mas hoje entendo claramente que há erros e há erros, não dá pra colocar tudo na mesma balança, jamais!
E se alguém ler esse texto e se reconhecer na patroa que regula comida pra quem trabalha em sua casa, repense. Estou falando sério, não seja essa pessoa.

Pobres, ricos, classe média, a patroa e a empregada... somos gente.
E gente, querido leitor, merece ser tratada com respeito, misericórdia e com empatia.
Não é?


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2 comentários:

  1. Ela, eu já te disse isso, mas vou deixar registrado sempre que eu puder, você é uma pessoa incrível!
    Você é uma pessoa que admiro pra cacete e que merece muitas alegrias e sucesso!

    Não dá pra acreditar que um ser humano possa negar ou reclamar que alguém coma alguma coisa, seja por vontade ou por fome.

    É inacreditável que em 2018 ainda existam pessoas medíocres a tal ponto.
    São pessoas desprezíveis e que não conseguem enxergar o quanto podem ferir uma pessoa.

    Parabéns por conseguir dividir isso com seus leitores (no meu caso, sua fã), imagino que não tenha sido um post fácil de escrever e mais ainda, de publicar.
    Espero que todas as pessoas que tenham empregados, possam ler este post e que reflitam para que assim, possam melhorar como seres humanos e que não esqueçam que o mundo dá voltas.

    Grande beijo e um abraço bem apertado.
    Vivianne

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  2. Bom dia. Posso dizer com ao consciência tranquila que, neste caso, você foi de fato uma vítima da situação, e preciso lhe dizer isso para que esse acontecimento do passado deixe de assombrar as suas memórias. Você sentiu vergonha e humilhação, e eu teria sentido a mesma coisa. Porém, repito, você naquele momento, foi a vítima de uma situação criada pelos adultos. Você era uma criança deixada naquela casa para trabalhar, e naquele dia em especial, lhe deixaram SEM ALIMENTAÇÃO. Obviamente que pegar algo para comer não se configura num delito. Ainda que sua consciência lhe dissesse que é errado, pois como criança, você não pôde observar que você também merece ser tratada com toda a dignidade como qualquer outra pessoa.
    Aquela patroa não teve a sensibilidade e a competência emocional de avaliar a situação em si. Mais do que isso, a alma dela foi de suprema frieza. Buscando ver a vida pelo lado positivo sempre, esse episódio deve sim, ter lhe trazido algum tipo de crescimento emocional e espiritual, então peço que você foque nesse aspecto e esqueça a parte ruim que veio junto. Se eu puder lhe sugerir algo, digo que uma boa terapia é a de fazer uma série de orações, ao longo dos dias, para a patroa em questão. Esse processo curativo vai ajudar a metamorfosear esse acontecimento em sua psique. Deixará de lhe afetar emocionalmente. É uma terapia renovadora e lhe trago a sugestão com amor. De forma alguma desejo ser invasiva, apenas me senti tocada pelo seu post. Grande abraço!

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