Você já sofreu abuso ou ataque sexual? - * Blog Elaine Gaspareto *

Você já sofreu abuso ou ataque sexual?

Publicado em 21/09/2018

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Faz uns bons minutos que sentei em frente ao computador para começar esse texto e ele simplesmente não sai. Olho a tela em branco e, embora as palavras tenham se formado todas em minha cabeça ao longo dos anos, ao torna-las texto elas não nascem, o relato que quero fazer não sai. Insisto, eu quero falar disso hoje. Quase 34 anos depois.

Quando eu era menina tinha uma amiga, minha melhor amiga desde sempre, crescemos juntas, morávamos em frente uma da outra, ela era um ano mais velha. Ela tinha um tio, vou chamar de tio Chico, pedreiro boa praça, descolado, vivia sozinho desde que a mulher o abandonara levando o filho único. Sempre visitava a casa da irmã, mãe dessa minha amiga, era dado com todos, sujeito com bala nos bolsos, dinheiro para as crianças da rua, vivia levando as sobrinhas e amiguinhas para a casa dele aos domingos. A casa tinha piscina, todo mundo queria ir passear na casa do tio Chico.

Meus pais, em especial meu pai, sujeito duro e muito vivido, nunca me deixava ir. Eu passei muito tempo, anos pedindo, ele nunca deixava, não gostava da minha amizade com as vizinhas de frente, e nunca me explicou o motivo. Só proibia, mas é claro que a criança dava um jeito de manter a amizade com as meninas sobrinhas do tio Chico. Mas nunca ia na casa "encantada" dele.

Um dia, eu tinha perto de 12 anos, já trabalhava como empregada fazia tempo, e minhas vizinhas passaram a semana falando do aniversário do tio Chico, que ia ser no domingo o dia inteiro, que ia ser muito divertido, etc.
Passei a semana implorando pra ir. Minha prima, cerca de 7 anos mais velha que eu, ia, e minha mãe pediu ao meu pai pra deixar, eu ia e voltava com ela.
Finalmente meu pai deixou, meio assim, mas confiando que eu ia com minha prima.
Pois bem, eu fui.

Era muito longe da minha casa, quem mora aqui na minha cidade sabe, era na Baixada, longe de verdade. Eu morava numa ponta da cidade, ele morava na outra, fomos de ônibus circular, até isso era novidade pra mim.
Vou encurtar a conversa.

Lá pelas tantas, casa cheia de meninas, as mais velhas deviam ter a idade da minha prima.
Eu entrei na cozinha pra pegar nem lembro o que, ele entrou atrás com minha amiga, ela encostou a porta e sumiu casa adentro.
Ele me encostou na parede da cozinha, entre a pia e uma mesinha, e me abraçou.
Ao mesmo tempo levantou minha saia de lã azul marinho, com renda branca na barra e passou a mão entre minhas pernas.Assim, de um jeito bem firme, delicado e não rápido. A mão dele parou no meio das minhas pernas, e fez pressão pra abri-las, enquanto me apertava ligeiramente. Não consigo escrever mais que isso...

Eu olhei abismada pra ele, tão chocada que nem me movi no primeiro momento.
Mas, louvado seja Deus, me afastei depressa, empurrando a mesinha desesperada, me afastei, só lembro disso...
Saí porta afora, passei por todo mundo, ganhei a rua.
Andei até chegar em casa, deve dar uns 3 ou 4 quilômetros, nada impossível de andar mas ainda assim muito chão.
Chorei o trajeto todo, demorei muito pra chegar em casa porque subia e descia ruas pra evitar andar em linha reta e ele me achar.

Cheguei no quarteirão de casa e minha prima desesperada me esperando na esquina, brigou comigo por ter saído sem ela, e eu não disse nada. Ela perguntou porque fui embora sem avisar, eu disse que estava com saudade de casa, ela ficou com raiva de mim e levou muito tempo pra sair comigo de novo. Eu nunca contei o que houve.
Não contei em casa, de jeito nenhum.

E não contei por um motivo muito simples.
Eu fiquei com muita vergonha. Assumi que a culpa era minha por ter pedido tanto pra ir lá, se fosse mais obediente não teria acontecido.
Não contei porque minha mãe diria que a culpa era minha, e na época eu acreditava que era mesmo.
Me culpei por anos, aquilo me matou um pouco, me fez sentir suja, culpada.
Eu devia mesmo ser muito má pra isso ter acontecido, devia ser uma vagabunda pra ele achar que podia fazer isso comigo, eu pensava.
Não contei pra ninguém, nunca.
Porque sempre tive vergonha, e depois tive raiva porque compreendi que era errado o que ele fez.
Mas jamais contei porque eu sentia culpa e vergonha acima da raiva. Somos condicionadas a isso, desde pequenas.

Quando arrumei um trabalho em uma fábrica de calçados no mesmo bairro que ele morava eu sentia aquele frio na espinha sempre que o via.
Nem o via muito, mas sentia toda a raiva e desamparo de novo.
Eu adulta, ainda sentia isso.
Por anos a fio eu o via na rua, ele passava de moto por mim, muitas vezes com uma menina na garupa da moto, e eu sabia o que acontecia.
E o que acontecia?
Simples: ele usava as sobrinhas pra atrair meninas bem novas pra casa dele.

Descobri que ele pagava pra elas, em especial pra minha amiga, pra ela apresentar ele para meninas, e pra convencer a menina a visitar a casa dele.
Ela mesma me disse, rindo, que ele falou pra ela que eu era "dura na queda", que ia ser difícil me convencer.
Ele dava presentes, coisas baratas, trocados, para as meninas que topavam. E muitas topavam, claro. Especialmente as mais pobres, famílias com muitas crianças, onde faltava de tudo...
A amizade com essa vizinha acabou. Nunca a confrontei, só deixei morrer. Era uma amizade de anos, desde a infância, mas deixei morrer, parei de sair com ela, de falar, era só oi, e depois, nem isso. Anos depois ela se casou, eu casei, nenhuma convidou a outra, e fim.

Muito tempo depois eu soube que ele fora expulso da casa da irmã porque abusou da sobrinha mais nova, uma criança.
Acredito que fizera isso com todas as sobrinhas, mas nunca saberei de fato, nem quero.
Alguns anos atrás soube pela minha tia que ele estava doente e morando em outra cidade com o filho, que o acolheu. Ele virou pastor (o filho) e o pai, dizem, se converteu. Se acredito? Não. Mas pouco importa porque não há perdão para o que ele fez.
Foram dezenas de meninas, orgias que a polícia sabia, ele uma vez foi flagrado com uma garota de 12 anos e outra de 15, ele já com quase 60 anos.
Outros tempos, nunca ficou preso, e aí se converte e tudo bem, né? Não!!!

Naquele tempo não havia a informação que há hoje, a gente não tinha acesso a nada, eu nunca entendi que era vítima de um crime.
Em casa não se falava disso, meu pai, imagino eu, tinha vergonha de falar sobre o que certamente ele desconfiava, era mais fácil proibir. E proibir sem explicar nunca deu certo.
Me culpei por anos, aquilo me matou um pouco, me fez sentir suja, culpada.
Pensei isso por anos, até entender que não era culpa minha, eu era uma menina, inocente de um jeito que só uma menina do interior, nos anos 1980 poderia ser.

E qual o motivo de estar contando isso tudo hoje, aqui no blog, onde já contei tanta coisa mas nunca isso?
Porque passei o dia lendo uma hashtag no Twitter que fala justamente disso, e fiquei tão arrasada com os relatos, tudo tão triste, tão horrível, que achei que poderia ser uma boa hora pra contar algo tão pessoal, tão meu. E quem sabe ajudar alguém...
Após Trump questionar as denúncias de abuso que uma mulher fez contra um juiz indicado para a Suprema Corte dos EUA, pessoas estão usando a hashtag #WhyIDidntReport para explicar porque não relataram ataques imediatamente.
Eu, naquela época, não contei nada por todos os motivos que citei antes.
E conhecendo o mundo em que vivo hoje não creio que contaria, nas mesmas circunstâncias, com tão pouca idade.
Porque o mundo é cruel com as meninas, com as mulheres, com as crianças.
E não deveria. Mas é.
Somos condicionadas a pensar que a culpa é nossa, que a responsabilidade é nossa.
Não é.
Homens são responsáveis por seus atos, e não as mulheres ou as crianças. Simples assim.

Sei que esse texto pode chegar em muitas pessoas, sei que há no blog leitores e leitoras de todas as idades, recebo comentários de meninas bem novinhas, de meninos também.
Então eu digo: se você passar por algo horrível assim, fale. Sei que é a coisa mais difícil do mundo relatar um abuso, mas fale.
Essas coisas, quando as calamos dentro de nós, nos matam, nos danificam.
Acredite em mim, não importa a circunstância, você é vítima.

E sei também que meu público aqui no blog é composto por mulheres que são mães ou que tem crianças na família.
Meu pedido desesperado é: seja disponível pra ouvir, passe para sua criança, seu adolescente, a certeza de que podem confiar em você. Acredite na sua criança, leve a serio o que ela falar, de segurança para ela contar o que quer que seja.
E fale claramente sobre abuso, diga que ninguém pode tocar o corpo de ninguém sem consentimento, e que não há consentimento quando um dos lados é adulto e o outro é criança.

Infelizmente eu passei 33 anos sem reviver essa coisa toda, e isso me afetou em diversos níveis. Levei anos para superar e parar de sentir mal estar só de lembrar...
Não deixe isso acontecer contigo, nem com seus filhos, sobrinhos, afilhados, irmãos. Ninguém merece, de jeito nenhum...

Não sei como terminar esse texto.
Sinto uma tristeza imensa, um desamparo imenso, não sei o que dizer pra encerrar...


 Veja os relatos tão tristes na hashtag #WhyIDidntReport

O mundo, meu benzinho, é um lugar muito, muito assustador...





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10 comentários:

  1. Nossa, Eliane, nem sei o que dizer. À medida que eu ia descendo as linhas do texto, o sangue ia esquentando!! Senti uma raiva com você andando sozinha, desesperada, fugindo dele... Que coisa horrível! Que esse relato possa ajudar e encorajar sim quem estiver lendo e, lamentavelmente, sofrendo dessa mesma aberração! Um absurdo isso acontecer de jeito e nada mudar!

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  2. Que coisa mais triste ler isso! Deu pra sentir toda tua emoção, todo teu coração ainda machucado.Isso ficará pra sempre. E que NOJO de criaturas assim. Aliás todos ali não prestavam...Nem a tua amiga...E agora pastor??? Só rindo!!! Imagino !!! Credo!!! beijos, tudo de bom,chica

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  3. Oi Elaine, antes de mais nada, parabéns pela coragem de expôr esse fato. Você era uma menina inocente, o verme ersa ele. Embora o trauma tenha ficado, por sorte nada mais grave aconteceu, mas só imagino com as outras meninas, que igualmente se sentiram culpadas e guardaram isso em silêncio, por toda a vida delas... quantas vidas estragadas por causa de um verme tarado e inescrupuloso.
    Beijos

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  4. Olá Elaine, acredito que tenha sentido um certo alivio ao contar isto agora. Mesmo que trinta e tal anos depois. Os abusos de crianças é das coisas mais repugnantes da terra.Há que denunciar e há que ouvir e acreditar nos menores. Beijo, fique bem.

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  5. Oi Elaine,
    Relato corajoso e que acredito poder ajudar muita gente. Acho incrível como gente errada se converte e acredita que está tudo bem! Este cara merecia ser exposto publicamente, pois acredito que deve ter muitas meninas, que como você, ficaram traumatizadas por causa dele.
    Beijos

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  6. Oi Elaine, aqui a fiscalização da minha mãe sempre foi rígida, tanto que nem pedíamos para sair, com certa idade já sabíamos da existência de tarados, portanto sempre estávamos de sobreaviso, depois dos 16 anos sofri alguns assédios na escola, depois no trabalho, mas nada de alguém me tocar desse jeito que tocou em você, imagino o quanto foi traumático.
    As crianças são mais indefesas que um adulto, por isso tem que ser protegidas, para não ficarem com sequelas por toda vida.
    Muitas vezes quando tentamos alertar as pessoas, passamos por pessoas que vemos maldade em tudo, minha mãe muitas vezes ouviu isso, mas graças a essa percepção dela, fomos poupadas desse trauma horrível.
    Quanto ao tio das meninas, o fato de alguém se converter e se arrepender dos seus pecados, não implica que ele fique impune dos seus crimes perante a sociedade, conversão é algo espiritual, para uma vida espiritual, que só Deus pode julgar, pois só ele conhece o coração, muita gente se diz arrependida, pensando que pode enganar a Deus.
    Agradeço seu carinho pelo meu aniversário.
    Boa semana,beijos,Vi

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  7. Elaine, isso existe desde sempre e penso que muitos querem ignorar para não mexer em suas feridas e frágeis castelos mal construídos...E ainda falam que educação sexual não deve ser dada na escola, pode? É da garantia do silêncio que malditos agem.
    Imagino a dor que carregou isso consigo, tão menina, tão desamparada...fez bem em dar seu depoimento.
    Abraço.

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  8. Bom dia! Imagino o que vc passou esses anos todos, remoendo isso, se culpando. O que mais me deixa indignada é ninguém nunca ter feito nada. Como vc disse ele foi fragado com menores e aí? Ficou solto, cadê a justiça? Ele tinha que ficar preso e sofrer muito, o que fez é nojento, repulsivo, covarde. Ai me da muita raiva desses relatos e da injustiça. E essa sua amiga, vou te falar...obrigada por compartilhar sua hostória, Só tenho uma filha com 19 anos e sempre me preocupei com isso e sempre conversei com ela. Fique com Deus!!

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  9. Oi Elaine, que triste tudo isso. Veio lágrimas em meus olhos.
    Infelizmente, isso acontece até hoje e muitas crianças passarão por isso.
    É repugnante. Mães e pais devem conversar com os filhos desde quando pequenos, para ficarem alertas.
    Você está ajudando tanta gente, que nem imagina, neste relato.
    A culpa? É do mundo que não dá muita importância a essa barbaridade.
    blogjoturquezzamundial
    Beijos.

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  10. Elaine, sinta-se abraçada neste momento! Imagino o quanto deve ter sido doloroso fazer esse post, não é fácil relembrar tal situação. Mas com certeza você está ajudando muitas pessoas que passaram por algo parecido e também que possam orientar filhos e conhecidos. Parabéns pela atitude! Que Deus esteja sempre contigo e continue fazendo brilhar esse ser incrível que você é! bjssss

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