Como sobreviver ao apocalipse - * Blog Elaine Gaspareto *

Como sobreviver ao apocalipse

Publicado em 28/05/2018

Tempo de leitura:

Acordei bem cedo neste domingo.
Antes das 7 da manhã já estava na rua, que aliás estava quase deserta de carros... não há gasolina nos postos e as pessoas preferem as bicicletas ou a caminhada, como eu que não sei andar de bicicleta.
Cheguei no açougue e a fila já estava grande, e ele nem havia aberto ainda.
Quando começaram a atender foi rápido: 2 quilos de carne para cada cliente, e sem poder escolher a carne que queríamos, era a que estivesse disponível.
No meu caso 1 quilo de carne de panela e 1 quilo de carne moída, renderão a semana toda, até o próximo domingo. Carne de primeira, à escolha, só para os clientes mais importantes, os fixos, os ricos...
E longe estão os dias em que a gente pedia 1 quilo de carne e o açougueiro dizia: "passou 300 gramas, pode deixar?"
Hoje não passou nem 10 gramas, é tudo contadinho.


Vindo embora pra casa encontrei, num mercadinho pequeno, 2 latas de leite em pó.
Nem acreditei... coisa rara achar leite em pó nesses dias. Minha irmãzinha vai gostar de ter leite pra tomar depois de tanto tempo...
O leite "de saquinho" não vemos há muito tempo, sumiu da padaria, dos mercados.
Aliás sumiu quase tudo, e o pouco que achamos é de marcas desconhecidas que estão tentando aproveitar a brecha que as grandes marcas deixaram ao não entregar seus produtos. O governo endurece de um lado, as empresas do outro e a gente leva como pode...
O ano de 1986 está na metade e a gente não acha que vá melhorar...


Estranhou o ano?
Pois é exatamente assim que eu me lembro dos primeiros anos do governo Sarney e seu congelamento de preços, os fiscais do Sarney... prateleiras vazias, e esse episódio do açougue eu vivi por meses, era menina e levantava cedo pra "segurar lugar na fila" até meu pai chegar para comprar a carne e depois ia com ele ver o que havia no mercado: arroz, feijão, macarrão, etc...
Lembro de, pra nós, os pobres, nada de muito sacrificante pois no dia a dia a gente já não tinha muitas das coisas que agora faltavam nos mercados.
Mas lembro da histeria, de passar na televisão os mercados vazios, o caos... congelamento de preços...



Lembrei disso esses dias.
E nada como reolhar o passado para entender o presente...
Aquilo que a gente já viveu tem muito a nos ensinar sobre o que estamos vivendo agora...
Acredite, tudo passa e não, nunca melhora.... a gente é que se adapta. Até porque ou se adapta ou não vive muito...
E não, não estamos, em 2018, nem perto do apocalipse como a mídia, os mercados e os postos de combustível tentam fazer crer...
Relaxa aí, tátudobem... o título do post contém ironia.

E fiquei pensando nesses dias, em como nós, como sociedade, somos frágeis.
Uma semana de paralisação dos caminhoneiros e o desespero se instala, começamos a mostrar o nosso pior lado, a corrida para postos de combustíveis e aos mercados, estoque de arroz...
Farinha pouca? Meu pirão primeiro, lógico.

De repente ficamos desesperados por coisas que nem nos falta. Medo de passar necessidade... mas necessidade do que, afinal?
Percebo que nós, brasileiros, não somos o povo solidário que tanto gostamos de aparentar.
Não sobreviveríamos numa crise real, num estado de exceção, numa guerra.
Há exceções à regra, claro que há. Mas nossa primeira tendência é isso, cada um por si...


Aqui na minha rua sou vizinha de 4 caminhoneiros. E eles estão em casa esses dias, caminhões parados em frente de casa. São autônomos e ouvi o papo deles essa semana: na paralisação estão principalmente profissionais contratados, motoristas de distribuidoras e de frotas.
Há autônomos, claro, mas esses querem sobretudo o aumento do frete que não tem reajuste há 8 anos.
Quem quer redução de custo é patrão, o trabalhador sempre vai reivindicar aumento do salário...
Patrão apoiando greve? Deve ser a primeira vez que vemos...

Não tenho opinião formada sobre tudo isso, não sei se é greve, locaute, não sei de nada, não sou ninguém na fila do pão...
Acho que é tudo muito fragmentado, muitos interesses, não sabemos de tudo... provavelmente não sabemos de nada...
E só resta a certeza de que, no fim das contas, pagaremos a conta. Como sempre.
E não acho que algum herói esteja lutando para me defender.
Estamos, como sempre, cada um olhando o próprio umbigo.
Ou o próprio rabo, se preferir...


Painel Reolhar a Vida

Blogagem Coletiva Reolhar a Vida.
Clique aqui e saiba tudo sobre a proposta, e veja como fazer parte!
Seja muito bem-vindo para participar!









19 comentários via Blogger
comentários via Facebook

19 comentários:

  1. Amiga, lembro desse tempo da década de 80 quando a única coisa que conseguiamos comprar era carne moida ou bife, porém para a filha do major tinha filé mignon para dar ao cachorro pequinês que não comia carnes duras - nas palavras dela. Bem, sobrevivemos e aprendemos a nunca mais desejar um tempo como aquele. Precisamos muito mudar melhorar e aprender a votar, mais ainda estamos engatinhando nesse território chamado democracia, talvez daqui a uns 30 anos de eleições consecutivas a gente consiga.
    Agora, após alguns dias de paralização, com a resistência dos autônomos começo a ter esperanças, esperança de que a gente se mobilize e consiga uma pauta que faça a diferença na vida da coletividade.
    Muita Luz e Paz!
    Abraços

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Adelaide, não é interessante como a gente, na nossa faixa de idade, lembra basicamente das mesmas coisas? Tão longe uma da outra e com experiencias semelhantes...
      Essa da carne boa para os mais ricos me marcou muito, era menina e percebi ali que não, a gente não era tudo igual nessa vida rsrsrsr

      Excluir
  2. Um reolhar bem significativo desse contexto atual, nessa briga, na qual os poderosos ainda estão por cima e, pelo que vejo e penso, vão continuar por muito tempo. Como você bem diz, não há solidariedade, junção de forças, cada um por si e pronto.
    Abraços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A única certeza, Lúcia, é que mudam os poderosos na dança das cadeiras mas o povo jamais terá direito de ser ouvido...
      bjsssss

      Excluir
  3. Elaine, sempre bom Reolhar o passado, chego a achar cômico falarem em inflação altíssima com dois dígitos, não dava tempo nem de se acostumar com as figuras na células, as maquininhas de remarcar preço funcionavam diariamente e sim...a maioria das pessoas sempre gostaram e gostam de levar vantagem na maior parte das vezes, é só questão de oportunidade, vemos isso diariamente e nestas situações mais ainda.
    Acho que a pauta dos caminhoneiros eram justas, o governo cedeu bastante, nunca vi tanto e mesmo assim a coisa ainda está "estranha". Longe de mim defender esse temeroso golpista, mas acho que diante da situação do país tá bom até demais, até porque que vai pagar a conta, já foi dito, seremos nós. Tenho visto tantas baboseiras nas redes sociais botando fogo nesta fogueira que me dá medo de outra palhaçada a 4 meses de uma eleição que já não vai ser fácil.
    Ótima postagem, abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tava pensando nisso hoje, perto de eleições, esse tanto de gente pedindo intervenção militar (ce jura???) e o cenário tá redondinho pra uma desgraça, o golpe dentro do golpe, já pensou?
      #tenso....
      Eu li um tweet hoje:
      "A greve vai custar mais de 10 bilhões ao tesouro.
      Acho tão fofo quando chamam a gente de tesouro"
      rsrsrs
      Né?

      Excluir
    2. 'O golpe dentro do golpe'...é isso aí, usaram as redes sociais para dar um golpe parlamentar e agora outros grupos usam do mesmo método para incitar as pessoas a dessa vez darem o golpe na democracia...Aí ferra de vez o gado, que é o que somos. As pessoas compram muito facilmente as ideias lançadas por aí, dá medo desse gigante ingênuo.

      Excluir
  4. KKKKKK!!! Amei sua postagem,disse boas verdades.Vai saber o que está por trás dessa bagunça.
    O desejo de uma Intervenção Militar? A renúncia do Temer? Não acredito que eles larguem facilmente o osso.,vão roê-lo até o fim.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Maria, que tem coisa oculta tem, tá esquisito tanto o ceder do governo quanto a dobra de aposta da greve...

      Excluir
  5. Que texto bem feito e elaborado e quem viveu aquele tempo sabe te entender muiiiiiiito bem! Há de tuuuudo nessa greve. Resta esperar que passe, mas acho que as coisas vão demorar a se ajeitar! Uma loucura tudo isso. Já cansei! bjs, chica

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O pior é isso, Chica, vai demorar pra ajeitar, e o pior é que acho que quando normalizar o preço dos combustíveis vai subir muitooo...
      Ou seja... danou-se rsrsrs

      Excluir
  6. Elaine:
    Só digo uma coisa loucura, loucura.
    Beijocas

    ResponderExcluir
  7. Elaine, também lembrei do racionamento do leite e do pão. Ia na padaria logo cedo, eu e meus irmãos, para cada um poder comprar um litro de leite. O padeiro sabia que éramos da mesma família, como muitas pessoas faziam a mesma coisa, porque um litro de leite para 5 não tem como. Eu não senti muito essa greve, juro. Tinha comida em casa, os filhos não foram para a escola e também não perderam muita coisa e não precisamos comprar nada de tão urgente que não estivesse à venda. Marido não podia perder consulta e fomos à pé, mais de uma hora andando e quer saber? Foi bom. Acho que essas coisas mostram como a nossa economia é frágil, dependente em tudo desse sistema. E a mídia, a pretexto de informar, faz um deus-nos-acuda e incita o pânico. Mesmo assim eu ainda acredito que um dia teremos paz e seremos um bom país. Não perder a esperança e continuar trabalhando honestamente é o que dá para fazer. Encontrar formas criativas e possíveis de continuar vivendo, reduzir as necessidades, reciclar, pensar fora da caixa e esquecer governo. Quanto menos a gente depender dele, melhor. E sim, eu sou anarquista rsrs

    Boa semana =)

    beijosssssss

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Paula, tenho um amigo que diz que se não fosse o governo a gente seria o maior país do mundo rsrsrs
      E esse caso do leite a gente viveu aqui, mas era feijão, um filho em cada mercado pra comprar 1 quilo de feijão, duro e cascudo rsrsrsr

      Excluir
  8. Com certeza um dia, não sabemos quando teremos paz! Educaremos nossos ouvidos para não ouvir tantas mentiras. Creio eu, que pior que a situação que vivemos são as mentiras que ouvimos. Nos taxaram de bobos e assim tentam manipular as nossas mentes. Dá desespero ouvir tantas mentiras dessa mídia infeliz. Para nós não existe outro caminho senão o de cada um fazer a sua parte e se conscientizar de que não temos com quem contar. Em outras palavras "estamos num mato sem cachorro". E no auge do desespero pedem a intervenção militar. Não sabem o que estão dizendo.
    Precisamos aprender a conviver uns com os outros e desenvolver a nossa solidariedade coisa que nem de longe sabemos o que significa. Eu sei o quanto essa midia maldita é capaz de deixar o ser humano aos pedaços. Se temos a capacidade de ouvir esse inferno tambem teremos de entender que Deus está nos enviando constantemente os seus recados. Quem tiver ouvidos de ouvir que ouça!
    Um dia sairemos dessa! Não podemos jamais deixar a nossa esperança ir embora. TUDO PASSA. AS TEMPESTADES PASSAM. ISSO TUDO TAMBEM PASSARÁ!
    Abraços1

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Maria, eu bem quero crer que um dia a gente terá paz...
      beijosssss

      Excluir
  9. Aprendi uma coisa com o marido: não dar ouvido à mídia, principalmente a rede globo. Se desse, não sairia de casa nesses dias. Fui e voltei para SP de avião - isso porque diziam que os aeroportos estavam sem combustível. Andei de metrô, ônibus, trem e uber. Fiz supermercado, cozinhei, lavei e passei. Enfim, vivi!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Helena, aqui só senti o impacto da falta de combustível, foi um pouco complicado porque marido depende do carro pra medicação, mas de resto nem senti, tudo normal...

      Excluir
  10. Estamos de vez em quando vivenciando tempos difíceis, os anteriores a mim narravam as dificuldades de comprar até pão no período da Segunda Guerra Mundial, em 1963 os atravessadores escondiam os alimentos, mas o governo João Goulart colocou caminhões do Exército em praças públicas vendendo o básico por preço muito acessível; porém período bravo foi na década de 1970, lembro que em 1973 o leite tipo C sumiu e havia o tipo A 5 vezes mais caro tinha que acrescentar 2 litros de água para render e poder servir 5 crianças; muito triste foi numa maternidade onde serviam um café com leite aguado, ao olhar pela janela ver sair com funcionária bolsas imensas com sacos de leite, pelo volume e a dificuldade como ela carregava deveriam ser uns 40 litros. Amigos, precisamos muito de amor ao próximo e dar muita atenção ao que passamos aos nossos jovens para que sejam mais éticos do que nós.

    ResponderExcluir

Olá! Muito obrigada por ler meu blog e obrigada também por se dispor a comentar meus posts. Seja muito bem-vindo(a)!

Importante!
Devido à falta de tempo hábil eu não me comprometo a responder perguntas referentes aos tutoriais postados neste blog.
Pedidos de ajuda individual serão respondidos conforme o meu tempo e disponibilidade permitirem.
Por favor, entenda: comentários sem relação alguma com o post não serão liberados e nem respondidos.

Para saber mais sobre a melhor forma de utilizar este blog leia Termos de uso do blog.



Muito obrigada, fique à vontade para interagir.
Mas lembre-se:
Gentileza, educação e boas maneiras servem também para a vida nos blogs…