Ana Beatriz Nogueira e a Esclerose Múltipla - * Blog Elaine Gaspareto *

Ana Beatriz Nogueira e a Esclerose Múltipla

Publicado em 04/02/2018


Nada nos torna tão solitários quanto nossos segredos.
A frase acima, que li faz anos e não faço ideia de quem seja, resume muito bem o que pensei ao ler a entrevista que a atriz Ana Beatriz Nogueira concedeu à jornalista Patrícia Kogut nesse domingo.

Caso você não tenha tido a oportunidade de ler a matéria reproduzo alguns trechos abaixo.
Nela a triz conta que é portadora de Esclerose Múltipla desde 2009, quando estava no ar em Caminho das Índias.
Veja os principais trechos:


A disposição de Ana Beatriz não vem apenas do amor intenso pela profissão que a consagrou: o amor pela arte se soma a uma disciplina férrea. Ela é imprescindível para manter sob controle a esclerose múltipla em sua forma surto-remissão, diagnosticada em 2009, quando Ana Beatriz fazia “Caminho das Índias”.

O primeiro surto aconteceu em janeiro de 2009. Ela estava em casa, vendo um filme na madrugada, quando sentiu a visão duplicar.

— Achei que a legenda da televisão estava ruim. Mas, no dia seguinte, não tinha melhorado e procurei o médico. Ele disse que isso se chama “diplopia” e poderia ter inúmeras causas. Concluiu que era o efeito colateral de um remédio para dormir que eu estava tomando. Me tranquilizou e garantiu que passaria com a suspensão do medicamento.

Dias depois, na festa do lançamento da novela de Gloria Perez no Parque Lage, Ana Beatriz precisou da ajuda de Tony Ramos e da mulher dele, Lidiane, para subir as escadas e chegar ao salão do palacete:

— Lá dentro, pedi à Silvinha (Buarque) para me levar até um canto. Acabei num grupinho em que estava Leda Nagle acompanhada de dois oftalmologistas, olha a ironia. Conversamos o tempo inteiro. Passados uns 15 dias, minha visão acabou voltando ao normal e atribuí o episódio às razões que o médico tinha apontado.

Só que, mais adiante, quando “Caminho das Índias” já estava no meio, veio o segundo surto. Ela se recorda de uma cena com Antonio Calloni, seu marido na novela. Ela teria que atravessar o estúdio e levar uma garrafa de champanhe até Vera Fischer, que aguardava parada do lado oposto.

— Eu estava vendo duplo e embaçado. Pedi ao Calloni para me dizer de que lado estava a Vera: eu via duas Veras. Ele sinalizou, tirei uma reta e fui.

De novo, procurou ajuda especializada. Fez uma ressonância magnética e um exame de líquor, um procedimento recomendado para o diagnóstico de doenças neurológicas. Passou três dias no hospital em pulsoterapia (recebendo altas doses de cortisona por via venosa). O exame deu positivo para esclerose múltipla, mas o médico insistiu que era “um falso positivo”. Depois, passou por “300 exames” de vista e nada foi concluído. Dias mais tarde, os sintomas sumiram. Só em novembro, quando veio o terceiro surto, atendida por outra neurologista, soube de fato a causa daquilo tudo.

— Todos os três (e únicos) surtos que tive foram visuais. O último se mostrou o mais angustiante: eu realmente não enxergava nada. Mas, àquela altura, ainda bem, tinha encontrado uma médica que fez o diagnóstico definitivo.

De início, veio o choque:

— Achei que era o fim. Como atriz, meu corpo é meu instrumento de trabalho, meu tudo, dependo da minha visão, da audição, das funções cognitivas. O trabalho é minha festa, minha fonte de renda, minha alegria, minha beleza. Partimos para o tratamento. Fiquei dois meses de cama, me senti debilitada. Sabe quando “somem os tapetes vermelhos”, que são aqueles sonhos bonitos que você tem quando está quase adormecendo? Foi assim que aconteceu.

O prognóstico, representou, por outro lado, um alívio:

— A médica também me disse: ‘Você tem esclerose múltipla, uma doença autoimune que não tem cura e pode ser incapacitante. Mas a sua é na forma branda, o prognóstico é muito bom e você pode controlar isso e morrer de tijolada!’.

Amigos próximos — entre os quais, Patricia Pillar, Denise Bandeira, Zélia Duncan, Malu Mader e Luiz Henrique Nogueira — aprenderam a aplicar a injeção de imunomodulador de que ela precisa (“A gente treinava dando agulhada em laranjas”, ri).

A decisão de tornar pública sua condição é fruto de um processo.
Durante anos, temeu o preconceito.
Só o círculo restrito de amigos, o irmão Gustavo, uma tia, Helô, e Carlos Henrique Schroder (diretor geral da Globo) e Monica Albuquerque (responsável pelo Departamento de Desenvolvimento Artístico na emissora) sabiam e a apoiavam.

Agora, com a doença sob controle, concluiu que poderia ajudar a “combater a ignorância, o maior perigo de todos”.
Pretende abrir um espaço na internet para tratar do assunto (“não para dar conselhos que só um médico tem autoridade para dar. Será uma troca de experiências”).
É algo que fez falta a ela enquanto manteve a doença em sigilo:

O segredo é pesado. A gente vai digerindo, entendendo e resolvendo os fantasminhas. Minha decisão de falar foi motivada por amigos, por terapia e pelo desejo de tornar essa estrada mais fácil para quem tiver que passar por ela. 



O QUE É ESCLEROSE MÚLTIPLA? 

Por Drauzio Varella

Esclerose múltipla é um distúrbio inflamatório crônico do sistema nervoso central, caracterizado por surtos recorrentes de atividade imunológica que agridem a camada de mielina que envolve os nervos (como a capa em volta da fiação elétrica de uma casa).
A causa é desconhecida.
Não é doença infecciosa nem contagiosa.
Como em outras doenças autoimunes, há predomínio entre as mulheres. A proporção é de três para cada homem.

Embora existam fatores genéticos envolvidos, a maioria dos pacientes não relata casos na família. Nada que o indivíduo possa ter feito ou deixado de fazer impede o aparecimento da doença. Os primeiros sintomas geralmente se instalam entre os 20 e os 40 anos.
Os principais são:

1) Sensitivos: perda de sensibilidade em áreas do corpo, sensações de formigamento, picadas de agulha, dor, tontura, visão dupla ou embaçada e dor ao movimentar os olhos.

2) Motores: fraqueza muscular, dificuldade para andar, tremores, dificuldade ou premência para urinar ou evacuar, falta de coordenação motora e rigidez muscular.

3) Outros: sensibilidade ao calor, fadiga, alterações emocionais e cognitivas, depressão e sintomas sexuais.

O curso natural é caracterizado por períodos de relativa estabilidade durante meses ou anos, interrompidos por surtos de piora com dias ou semanas de duração, fases chamadas de ataque, exacerbação ou recaída.

De acordo com elas, a evolução pode ser classificada como:

1) Remissão e recaída: os ataques provocam sintomas que regridem parcialmente ou desaparecem. No intervalo, o quadro permanece estável.

2) Progressão secundária: depois de alguns anos de remissões/recaídas, o padrão de evolução se modifica para um agravamento progressivo, porém com menos recaídas.

3) Progressiva primária: Instalação gradual desde o início, sem ataques identificáveis.

4) Recaída progressiva: forma rara caracterizada por um curso progressivo inicial, seguido por ataques em fases mais tardias da evolução.

5) Fulminante: forma rara e grave, de progressão rápida.

Não há exames laboratoriais para diagnosticar a doença. Os especialistas costumam se basear nos critérios de McDonald, que levam em conta o número de ataques e o tempo de aparecimento e a localização espacial das lesões cerebrais, identificadas por ressonância magnética.

O tratamento requer intervenções múltiplas. Tem como objetivo tratar as recaídas, prevenir novos ataques e aliviar os sintomas que interferem com a qualidade de vida.

Nos últimos anos, surgiram diversos medicamentos com atividade contra os fenômenos inflamatórios que agridem a camada de mielina, responsáveis pelas remissões e recaídas.

Essas drogas têm custo alto, e estão associadas a efeitos colaterais indesejáveis que precisam ser avaliados caso a caso.
Quis muito deixar registrada essa matéria aqui no blog.
As informações são importantes, mas muito mais importante é o fato de Ana Beatriz tornar pública sua condição.
Ela está coberta de razão, há muito preconceito e muita desinformação sobre a doença.
Há uma infinidade de gente que confunde esclerose com senilidade, com loucura, com doença mental, com psicose.
Sério, já me perguntaram se eu não tenho medo de sair de carro com marido, se não tenho medo dele me atacar.
Sério, já ouvi de tudo.

A ignorância é mesmo a mãe de todos os males...
Então, quanto mais a gente disseminar informações corretas, quanto mais pessoas públicas que tenham essa e outras doenças estigmatizantes se pronunciarem, só vai ajudar.

Não é fácil ser alvo de olhares, de comentários, de pena, de julgamento (o que você fez pra ter isso?) e certamente contar ou não publicamente é algo muito pessoal.
Mas sabe?
Nada nos torna tão solitários quanto nossos segredos.
E a EM não precisa ser um segredo...
Viverei para ver o dia em que não será mais motivo de preconceito...
Sim, tenho fé nisso!
2 comentários via Blogger
comentários via Facebook

2 comentários:

  1. oi, Elaine, realmente existe mesmo muito preconceito e é interessante a gente ter, pelo menos, um mínimo de conhecimento sobre o assunto para poder ajudar quem precisa ou quem não sabe nada a respeito. Hoje mesmo passei por uma situação semelhante aqui no serviço, uma amiga estava em choque porque a filha foi diagnosticada com vitiligo (o que não é o fim), conheço pessoas que ão portadoras da doenças, que fazem o tratamento certinho e vvem super bem, sem nenhuma "manchinha"...
    obrigada por compartilhar
    bjk

    ResponderExcluir

Olá! Muito obrigada por ler meu blog e obrigada também por se dispor a comentar meus posts. Seja muito bem-vindo(a)!

Importante!
Devido à falta de tempo hábil eu não me comprometo a responder perguntas referentes aos tutoriais postados neste blog.
Pedidos de ajuda individual serão respondidos conforme o meu tempo e disponibilidade permitirem.
Por favor, entenda: comentários sem relação alguma com o post não serão liberados e nem respondidos.

Para saber mais sobre a melhor forma de utilizar este blog leia Termos de uso do blog.



Muito obrigada, fique à vontade para interagir.
Mas lembre-se:
Gentileza, educação e boas maneiras servem também para a vida nos blogs…