Apaixonado

Ele a conheceu em uma linda manhã de setembro.

Ela já havia estado no ateliê, chegada através de um anuncio gratis nos classificados do pequeno jornal semanal da cidadezinha interiorana. Mas ele então era apenas um lindo pedaço de tafetá branco.

Na segunda vez que se viram algo nele já sugeria o que ele seria, a forma que teria. Quando a costureira deslizou-o pelo corpo dela ele sentiu o calor que emanava da pele sedosa. Ela, sentindo talvez o quanto este primeiro contato era importante para ele, deslizou as mãos suavemente pelo tecido macio. “Vai ficar bom, não vai?'” Claro que vou, ele quis responder. “Claro, minha querida” repondeu a costureira. Quando ela se foi ele sentiu-se sozinho e abandonado. Deixaram-no na caixa, apagaram as luzes, era noite. E ele sonhou com ela, com o toque de sua pele quente e macia, o contato dos seus dedos longos.

Quando se viram pela terceira vez ele estava ainda mais ansioso: agora ele já tinha forma, tinha lindos bordados, trabalharam nele por muitos dias, furaram-no e alisaram-no tanto que chegara a doer. Mas valia cada sensação ruim, afinal ele era dela, e por ela faria tudo. Ao vesti-lo ela ficou feliz, radiante de tão feliz! “Ah, que lindo!” Ele sentiu-se realizado. “Aperta mais um pouquinho aqui?” ela pedia…

E os dias foram se sucedendo… até que uma tarde vieram buscá-lo com um cuidado maior. Última prova, ele ouviu. Seu coração disparou: como assim? última? Nunca mais? Quis gritar, pedir a ela que não o deixasse, que viesse mais vezes, que  não o abandonasse…quis gritar que morreria sem o toque da pele dela. Ela o vestiu, ou melhor, vestiram-na com ele. Ela estava nervosa, será que sentia a última vez? “Tem certeza que não precisa apertar?” parecia pedir por mais um encontro. Ela sentia o mesmo que ele!!! Será que não viam? “Não, está certinho. Apenas não emagreça ainda mais”. E ele teve certeza que ela sofria por ser a última prova, a derradeira vez dos dois.

Então o pegaram e o puseram em uma linda caixa. Fecharam. Ele foi levado. Sentiu-se chacoalhar, depois sentiu-se acomodar. Abriram a caixa: era ela! Ela o levara consigo! Ah, como ele estava feliz! Feliz! Então, dois dias depois ela reapareceu. Ainda mais linda do nunca, a pele macia com cores e brilhos novos, os lábios pintados e os cabelos arrumados. Uma mulher mais velha, parecida com ela, o pegou e o vestiu nela. Ah, ela nunca estivera tão linda… Entraram juntos em um carro. Depois desceram. Um homem a ajudou a sair, o mesmo que a ajudara a entrar. Cuidadoso: “Olha o vestido, filha!” Sim, todo o cuidado com ele, gostavam dele… que felicidade!

Então o homem a segurou pelo braço e caminhou com ela por um enorme corredor ladeado  por muitas pessoas que ele nunca vira. E que nunca o viram: “Que lindo!”, “Que vestido maravilhoso!”. Ele estava feliz. Então pararam, um outro homem sorriu para ela, alguém disse muitas palavras, nenhuma sobre ele. E o homem que sorriu para ela caminhou com ela de volta pelo mesmo corredor imenso. Entraram no carro, ele a beijou. Quem era ele?

Então houve uma festa. Todos diziam que ele, o vestido, era lindo. Algumas pessoas até o alisaram, tocaram. Ele se encolhia, com receio de ficar sujo e desgostar à ela. Depois foram embora, a noite já ia alta. Chegaram a um quarto estranho. E o moço sorridente a segurou nos braços. Que bom, o vestido pensou… ela está cansada, eu acho… E o moço sorridente a levou até a cama no meio do quarto. Começou a desabotoar o vestido, entre beijos. Ele, o vestido, estremeceu ao sentir-se afastado da pele dela. Foi tirado e colocado em uma poltrona. As luzes apagaram.

Na manhã seguinte ela acordou tarde. Olhou para ele com amor, o mesmo amor de antes, talvez mais. Pegou-o, encostou nele o rosto. Uma lágrima rolou, uma lágrima de amor. Ele, o vestido, também chorou. Tivera tanto medo de perdê-la, mas ela estava de novo com a atenção nele. Caminhou com ele até um enorme armário e lá o pendurou. Fechou as portas, e ele ficou sozinho, no escuro. Roupas estranhas o olhavam do outro lado do armário.

Nunca mais ela o vestiu. Os anos passaram, e ele sempre esperou. De vez em quando ela o tirava de lá, de seu lugar de solidão. Olhava, com afeto até, mas jamais ele sentiu sua pele outra vez. Só os dedos frios e longos. De tanta solidão ele perdeu a cor tão bonita. Nunca mais ela o vestira… e ele sempre a esperar…

 

Este é um dos meus contos mais queridos…

Vermelhas unhas

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
-Ah, não, nem vem! Eu não vou servir de vela outra vez prá você.
 
A frase, dita 2 anos antes, ecoou na cabeça dele. O irmão sempre aprontava dessas: convidava uma menina para sair e ela sempre tinha uma amiga ou prima a tiracolo para sair com ela. E quem era o salvador das primas-vela? Ele.
 
-Tô falando sério. Eu vou pescar amanhã cedo e não vou gandaiar com você e suas amigas até de madrugada.
 
Esse era outro aspecto do problema: sempre que ele se deixava convencer e ia acudir o irmão apaixonado pela enésima vez, ele se ferrava. Música alta demais, bebida demais, cigarro demais e juízo de menos.
-Eu não vou sair com a garota sem graça enquanto você fica com a gatinha. Não, nem adianta.
 
Mas daquela vez fora diferente. Claro que no fim ele acabou arrastado pelo irmão. Lá foram. O barzinho era diferente dos outros: som baixinho, pouca gente. Na verdade era um café. Foi nessa noite que ele a conheceu . Olhos escuros, cabelo curtinho, pele branca. As unhas vermelhas. Nem viu a garota do irmão. Só viu a ela. Só veria a ela pelo resto da vida. Amava as unhas sempre vermelhas, a voz doce e as opiniões firmes. Amava o modo como ela o beijava. Aliás beijaram-se já naquela primeira noite...
 
Essas imagens passavam feito raio pela cabeça dele enquanto a música ia subindo, subindo, até chegar ao clímax. Então ela entrou. Linda. Radiante. Caminhou pela nave, sozinha, sorrindo para os amigos que vieram vê-los casar, tão feliz quanto ele. Quando se aproximou o suficiente estendeu-lhe as mãos e sorriu matreira. As unhas estavam pintadas. De vermelho. Paixão...

Este conto breve é uma homenagem minha às mulheres participantes da blogagem coletiva de esmaltes, centralizada no blog da Fernanda Reali. Mulheres maravilhosas, que souberam como poucas fazer de um limão azedo a mais deliciosa e refrescante limonada. Confira o motivo de minhas palavras neste sábado, no blog de cada uma delas, sendo que os links estarão centralizados no blog da Fernanda Reali.

Parabéns, meninas-mulheres lindas, sedutoras e de bem com a vida!

Falando em contos está terminando o prazo para os participantes do Concurso de contos Conto vidas enviarem a revisão de seus textos. Clique aqui e veja o texto completo sobre as mudanças do concurso.

Imagem do banco de imagens Google.

Sobre o concurso de contos Conto vidas

Já aconteceu de você ser surpreendido/a além do que imaginava ser possível com seu blog? Comigo já, um monte de vezes. E felizmente a maioria dos “surpreendimentos” foi muito positiva. E com o Concurso de contos Conto vidas aconteceu.
Eu, quando lancei a ideia, esperava uns 15 ou 20 trabalhos inscritos. Afinal, o tempo era curto, e a maioria das pessoas não gosta muito de competição e julgamento. Além do mais, eu optei por não enviar newsletter aos leitores do blog, não convidei expressamente ninguém e nem aos seguidores eu enviei email de convite. Até ia fazer tudo isso, mas daí tive pneumonia e a coisa ficou complicada. Então a divulgação foi apenas via post no blog mesmo. E aí reside parte da minha surpresa.
Muita gente ajudou na divulgação. E leitores nem tão habituais assim, o que muito me alegrou. E  foi um enorme sucesso. Tivemos muitos, mas muitos mais inscritos do que eu esperava a princípio. E o mais delicioso de tudo: conheci gente nova, que acho eu, nunca havia comentado em meu blog, nem era meu leitor. Delícia!
Agora vamos à parte prática do concurso? Quero então apresentar meu corpo. Epa, corpo de jurados, que sou moça tímida… Veja:
Alexandre Mauj: esse querido é meu parceiro desde muito tempo. Autor de um dos melhores blogs que há, o Alexandre se tornou referência recentemente por conta dos sucedidos no Japão, onde ele vive há mais de uma década. Inteligente e perspicaz, ele tem um olhar muito aprofundado sobre os temas e sobre as pessoas. O que??? Ainda não conhece? Então não sabe o que está perdendo! Clique Lost in Japan e veja que além de mestre no manejo das palavras ele também é talentoso com uma câmera na mão: suas fotos são o que há de mais belo e delicado!
Macá: quando eu convidei a Macá para compor o júri do concurso pensei  comigo mesma “Elaine, ela será uma ajuda perfeita”. Se acertei? Não. Ela é melhor que uma ajuda. Concisa e com uma forma clara e inteligente de se expressar, ela tem pontos de vista bem definidos, aliados a um modo doce de expor os pensamentos. Sem contar que a moça tem o dom das palavras…Visite Agenda Ilustrada e veja de perto o que digo…
Dama de Cinzas: sabe aquela pessoa que escreve tudo o que muitas vezes você quereria ter escrito mas não achou as palavras? Então, essa é ela pra mim. Ácida no ponto certo, direta e franca, ela tem um estilo que pode, à primeira vista, intimidar. Mas não se engane: essa Dama possui uma das sensibilidades mais apuradas que já vi. Ela percebe as pessoas. Sei lá comofaz, mas faz. E é o tempero perfeito para compor o meu júri para este concurso. Além de dominar a arte de transpor para o mundo das palavras aquilo que habita o mundo do pensamento… Quer conferir? Visite Confissões Ácidas.
Agora que já apresentei os jurados, deixe eu explicar como será o processo de seleção:
Cada um dos 3 seleciona, dentre todos os inscritos, seus 10 textos preferidos, seguindo cada qual critérios pessoais para realizar esta escolha. A seguir cruzamos as escolhas e vemos quantas coincidências existem entre os 3 jurados. A seguir vemos quais coincidências existem entre ao menos 2 dos jurados. As escolhas coincidentes são os finalistas que irão a júri popular, em votação a ser realizada aqui neste meu blog por meio de comentários. Não usarei enquete, nem formulário, apenas comentários com perfil aberto e disponível. Caso o número de coincidências ultrapasse 10 não tem problema, afinal 1 texto a mais não vai matar ninguém.


Agora os ajustes:
Alguns inscritos entraram em contato comigo solicitando a oportunidade de corrigir erros de digitação, pontuação e ortografia em seus trabalhos já enviados.  Para ser justa com todos eu tomei algumas decisões, amparada na opinião dos meus jurados. Vamos a elas:
1- Certifique-se que seu trabalho é mesmo um conto:
Sim, às vezes a gente acha que é conto, quando na verdade é uma crônica. Não se desespere, pois mesmo grandes autores encontram dificuldade em definir com clareza o que é conto. Mas para resumir:
CONTO – História completa e fechada como um ovo. É uma célula dramática, um só conflito, uma só ação. Poucas são as personagens em decorrência das unidades de ação, tempo e lugar. Ainda em consequência das unidades que governam a estrutura do conto, as personagens tendem a ser estáticas, porque as surpreende no instante climático de sua existência. O contista as imobiliza no tempo, no espaço e na personalidade (apenas uma faceta de seu caráter).
O conto se assemelha a uma tela em que se fixasse o ápice de uma situação humana.
Fonte de pesquisa: A.S.E.S
Leia também: Como escrever um conto em 10 dicas _ Recanto das letras. Este texto é muito esclarecedor e vai ajudar muito na melhor compreensão do que é um conto. Se tiver dúvidas se seu trabalho é ou não um conto, pergunte aos jurados.
2- Peça dicas aos jurados:
Sim, peça aos jurados que deem dicas a você sobre como melhorar a apresentação de seu conto. Eles estão dispostos a dar preciosas sugestões que com certeza vão facilitar e otimizar a apresentação de seu conto. Detalhes como  divisão de parágrafos, por exemplo, podem influenciar diretamente na hora do julgamento pelos leitores. Envie um email com suas perguntas para um-pouco-de-amor@hotmail.com e eu encaminho a eles. Certo? E caso você perceba que o trabalho que você enviou não é um conto eu autorizo o envio de outro, que cumpra o requisito básico de ser um conto, seja qual for o estilo.
3- Todos os inscritos listados na página podem realizar correções em seus textos enviados.
Todos os participantes inscritos podem e devem corrigir erros graves de pontuação, ortografia e concordância. Faremos a revisão definitiva, mas devido ao grande número de trabalhos esta primeira correção ficará a cargo de cada autor.
Lembre-se: é seu nome que estará vinculado à obra, portanto tenho certeza que todos desejarão realizar o melhor possível. Caso encontre dificuldade em realizar esta primeira correção digite seu texto no Word e faça a verificação. O Blogger também oferece esse recurso, e se você ua o Windows Writer tem à sua disposição um dos melhores corretores ortográficos que há. Ou peça ajuda a um amigo bom com as letras.  Não deixe de aproveitar a chance e corrigir eventuais deslizes.
Importante: Os trabalhos corrigidos devem ser enviados para mim até o dia 30 de abril de 2011.
Finalizando:
Assim que todos os inscritos realizarem a correção de seus textos começaremos a seleção dos 10 finalistas. A seguir divulgarei os contos selecionados aqui no blog e começaremos a votação. Depois de tudo revisado, corrigido e acertado daremos seguimento à publicação do nosso livro coletivo de contos. Ainda vamos escolher, por votação, a capa definitiva. Portanto, sem pressa, com calma para ficar digno e apresentável. Certo?
 
Para encerrar eu quero dizer da minha admiração por cada um dos que corajosamente enviaram seus trabalhos. Recebi emails de gente dizendo que foi seu primeiro conto, e imagino o tantão de coragem que é preciso para se expor ao escrutínio de desconhecidos… Sei, por experiência, que um texto é como um filho e que ficamos mesmo muito ansiosos em relação a ele… Desde já meu muito obrigada a todos pela participação e pela paciência com minhas demoras.
Qualquer dúvida diga aí nos comentários ou envie um email para um-pouco-de-amor@hotmail.com

Na chuva

Como sempre acontecia na época da chuvas Elena saiu de casa coberta dos pés à cabeça com a grossa capa azul. Claro que parecia exagero mas antes sobrar capa do que sobrar chuva, ela pensava.

Subiu penosamente a rua enquanto sentia o vento gelado entrar pelas frestas da capa. Tudo embaçado, tudo encharcado e ela tendo que caminhar 10 quarteirões para chegar à fábrica de sacolas. "Será possível que não pára mais de chover?" pensava ela. Os carros passavam lentamente mas mesmo assim os esguichos eram constantes. Quando ela ia atravessar a rua escorregou e o tombo foi inevitável. E humilhante. Ao contrário do que a maioria das pessoas faria ela não levantou de imediato. Ficou sentada no meio fio, deixando a chuva escorrer pelos cabelos que ficaram descobertos com o tombo. A água inundou a capa pelo lado de dentro e Elena sentia as roupas colando no corpo.

Do outro lado da rua Ernesto observava a moça sentada no meio fio. Seu primeiro e natural impulso foi correr até ela e oferecer ajuda. Sabe-se lá se a moça não fraturara uma perna, ou torcera o pé. Mas viu ela se ajeitar no meio fio e permanecer sentada. Viu a horrorosa capa azul cair, revelando cabelos ruivos. Ah, as ruivas! Nada é mais comovente para ele do que as ruivas... Permaneceu sentado dentro do cyber-café. Ela, do outro lado da rua, retirou a capa de vez. Uma espécie de uniforme cinza apareceu. Colado ao corpo. Ela se ergueu lentamente e deu de ombros. A capa azul foi deixada no chão.

Ele se levantou, finalmente. Caminhou para fora do café. A chuva fria e o vento açoitaram-no mas ele nem sentiu. Sempre esperara ser atingido pelo amor como por um raio. E seu raio finalmente chegara. Um raio ruivo, molhado dos pés à cabeça, linda e com a capa azul mais feia que Ernesto já vira. Caminhou em direção à moça.

Elena deixou a capa no chão. Merda, pensou. O dia estava mesmo perdido, então deixou a água escorrer. De repente sentiu um revigoramento, uma alegria. Sempre gostara da chuva: quando menina, no interior de São Paulo, sua maior alegria era correr atrás da enxurrada que levava folhas secas e gravetos em seu curso. A cidade grande faz as pessoas deixarem antigas alegrias para trás. Fechou os olhos enquanto a chuva corria pelo seu corpo. Quando abriu os olhos viu um homem alto, de terno escuro, caminhando pela chuva como se estivesse passeando ao sol de uma manhã de primavera. Ele caminhou decidido em sua direção. Olhou firmemente para ela, que retribuiu o olhar perscrutador. Então aconteceu a coisa mais louca, mais inesperada e mais absurda que alguém poderia imaginar: Ernesto se inclinou, ergueu o rosto de Elena e a beijou. Sem uma palavra, sem um outro gesto. Apenas o beijo.

Porém, muito mais inesperado e louco que o beijo foram as primeiras palavras dela:

-Por que demorou tanto? Te espero há anos...

Desde então, todas as vezes que chove naquele bairro é possível ver uma moça ruiva e um homem alto correndo pela rua como se fossem crianças atrás da enxurrada. Felizes. Rindo. E recentemente um garotinho ruivo acompanha os pais...

Você gosta de escrever? Gosta de contos? Então quero re-convidar você para participar do Concurso de Contos Conto Vidas. Clique no link para saber como funcionará.

E tenho uma mega novidade!

Ganhamos a diagramação do nosso livro coletivo! Sim, todos os contos participantes do concurso estarão em um livro de contos, a ser impresso sob demanda. Mas a diagramação será profissional, perfeita e linda para deixar nosso livro lindo!

Você não vai ficar de fora, vai?

Pode ser qualquer tema, qualquer tamanho, qualquer estilo (excetuando-se apenas os pornográficos). Clique aqui e leia tudo sobre o concurso.

Seu talento vai virar livro!

 

Em tempo: gostou da minha casinha lilás? Fui eu que fiz. E amanhã tem sorteio-surpresa aqui no blog para comemorar minha casinha lilás. Pela loteria federal de amanhã. Qual será o post que terá o comentário premiado?

Amanhã, neste mesmo blog e horário.

tisperando…

Trabalhos entregues e mais do concurso



Hoje, para compensar que não teve post ontem, teremos 2 em 1.

Para começar vou falar do Concurso de contos Conto vidas e tirar algumas dúvidas que surgiram. Siga as bolinhas:

  • Todos podem participar, seja escritor com livro publicado, seja quem nunca escreveu nada, tenha blog ou não. É aberto a todo mundo, sem exceção.
  • O prazo para enviar os textos vai até o dia 15 de abril de 2011.
  • O conto pode ter qualquer tamanho, sem restrições.
  • O tema é absolutamente livre. A única restrição é pornografia. Veja bem: não confunda erotismo e sensualidade com pornografia, certo?
  • Não se preocupe com possíveis erros de português pois antes de encaminhar o livro para impressão cada conto será revisado, gramaticalmente falando. É importante ressaltar que a revisão será apenas para corrigir eventuais deslizes gramaticais, mas jamais mexeríamos no trabalho de quem quer que seja. Sua essência será inteiramente preservada!

E aí? Respondi tudo? Caso surja mais alguma dúvida pode perguntar que eu respondo, tá? Para ler o post do concurso clique no selo do começo deste post.

Agora faça a Elaine feliz e diga que vai participar? Diz, vai… vai ser legal… só falta você… vem… é coisa simples… assim como eu…

tisperando! Clica aqui e vem!

 

Agora os trabalhos bloguísticos que tenho feito por aí!

Ispia:

image Este é o blog dos Três meninos, que por sua vez são os 3 filhos lindos e fofos da Fabiana. Sabe blog gostoso de fazer? Então, esse foi. Gente, cada foto linda, coisa mais fofa meu Deus! E a Fabiana? Que menina doce, meiga e simples ela é. Fácil de fazer e delicioso de olhar: este é o Três meninos. E se você topar o convite para conhecer aproveite e veja também os outros 2 blogs listados no menu horizontal: são os blogs dos irmãos, mas separados: Estevão, e Fabrício e Henrique. Fui eu que fiz… os blogs, claro, porque os meninos lindos foi a Fabiana e o marido dela…

 

Agora este:

image

Mais Equilíbrio - Saúde e Estética é o blog da Eliana Delatorre, uma leitora aqui do blog desde muito tempo.

Ela queria um blog feminino e chique, e acho que conseguimos. O blog ficou tão bonito! Também é um blog extremamente útil, com dicas as mais variadas sobre estética, saúde e equilíbrio e vida. Acesse clicando na imagem e diz oi pra Eliana. Ela vai gostar de conhecer você…

Gostou? Daqui a pouco eu volto. Enquanto isso clica aqui e vota no Lost in Japan? Disputa acirrada, bora lá ajudar o Alexandre?

Concurso de contos Conto vidas - Atualizado

Você gosta de escrever? Gosta de viajar nas palavras?

Eu quero te fazer um convite:

Estou lançando hoje uma novidade aqui no blog. Já havia falado há tempos atrás, e agora a ideia ganha finalmente o direito de vir à luz! O convite é para um concurso. Meu primeiro concurso literário!

Concurso de contos Conto vidas

Sim, um concurso de verdade! Claro que será uma coisa simples, despretensiosa e que servirá essencialmente para mostrar quantos bons escritores circulam por aqui, despretensiosos e talentosos. Vou explicar como funcionará:

1- Cada participante pode enviar 1 conto inédito e de sua autoria. É expressamente proibido plagiar algum outro escritor, seja ele quem for, tenha ele autorizado ou não. O trabalho tem que ser seu, certo? Não vale desonestidade, porque a gente sempre descobre.

2- Os contos inscritos serão  submetidos a um juri composto por blogueiros convidados. Este juri será divulgado assim que encerrarmos as inscrições.

3- As inscrições serã abertas hoje, dia 25 de março de 2011 e encerradas em 15 de abril de 2011.

4- A lista com os 10 trabalhos selecionados será divulgada no dia 18 de abril de 2011, Dia Nacional do Livro. A seguir será aberta uma votação popular para a escolha dos 3 vencedores.

5- Em 01/05/2011 será encerrada a votação popular e conheceremos os 3 mais votados.

Teremos premiação para os 3 mais votados. Em breve eu conto. Mas prêmio mesmo é este que vem a seguir:

 

Todos os contos enviados para participar do concurso farão parte de um livro de contos. Sério, é isso mesmo.

Vamos publicar nosso livro de contos! E você pode fazer parte desta aventura!

Claro que será uma publicação por demanda, mas já pensou? Ver suas palavras impressas em um livro? Bom, né?

Para que isso seja possível todos os inscritos deverão concordar em ceder seus trabalhos para esta publicação. Como se trata de uma impressão por demanda não visamos lucro. Mas quer lucro maior do que ter um conto seu fazendo parte de 1 livro de verdade?

Já pensou?

Para se inscrever basta enviar seu conto para mim. Como? Através deste email: um-pouco-de-amor@hotmail.com você envia seu trabalho, acompanhado de seu nome completo e endereço de seu blog, caso tenha.

 

Importante:

Todos os inscritos participarão do livro coletivo de contos. Sim, todos! E os 3 vencedores pela votação popular terão cada um o direito a mais 1 trabalho publicado no livro coletivo!

Update:

  1. O tema é absolutamente livre, bem como o tamanho/número de caracteres. Tudo livre, leve e solto.
  2. A participação é gratuita, claro.
  3. Ao enviar seu trabalho você concorda de antemão com a posterior publicação do mesmo no livro coletivo com todos os demais contos participantes do concurso e abre mão de quaisquer direitos individuais sobre a obra publicada em mídia impressa.

 

 

E aí? Topa a aventura comigo? Um livro nosso, com contos escritos por nós, blogueiros?

Envie seu trabalho para o email acima citado e se prepare:

Seu talento vai virar livro!

Na estação Mogiana…

Na plataforma deserta não havia sequer um banco limpo o suficiente para colocar o bebê. A estação estava sofrendo há anos o abandono típico das plataformas ferroviárias sendo desativadas e agora Marta pensava se realmente era uma boa ideia deixar o bebê ali. O vento gelado zunia perigosamente no silêncio da noite e o bebê se mexeu no sono. Ela olhou de soslaio para o rostinho adormecido. "Não olhe para ele." ela pensou pela milésima vez. Se olhasse não conseguiria.

Caminhou mais alguns passos e escolheu o banco mais protegido, quase dentro da estação. Quase 5 horas da madrugada e em menos de 30 minutos o trem chegaria, um dos últimos trens a fazer parada na velha estação. Ela ajeitou o menininho no banco frio de pedra. Ele continuava a dormir, confiante como apenas os bebês conseguem ser. Marta pensava em si, em como viera parar na situação em que estava agora.

Fizera planos completos durante os 9 meses de espera mas agora parecia que seu corpo não obedecia... Forçou-se a soltar o embrulho com o bebê e deu uns cinco passos para sair da estação. Ele seria encontrado por algum passageiro desembarcando, ou talvez por alguém que viesse esperar para receber alguém. Claro que ninguém deixaria de acudir um bebezinho na madrugada fria. Deu mais alguns passos. Todo o corpo doía, a cabeça latejava e ela sentia o maior frio de sua vida. O parto solitário estava cobrando seu preço... Caminhou mais um pouco e finalmente saiu da estação deserta. Ouviu ao longe o apito do trem chegando. Acelerou o passo. Voltar para a pensão era impossível, mas haviam outras pensões...

Então aconteceu. Acima do apito do trem ela ouviu. No começo era um chorinho leve, depois tão alto que parecia irromper de dentro dela mesma. Caminhava mais depressa agora do que jamais caminhara em toda a vida. Estava mesmo correndo sem se dar conta. As pessoas passavam por ela, ligeiramente curiosas pela mulher correndo na madrugada que findava. A estação estava agora cheia de pessoas que iam e vinham. Ela se atirou no meio da pequena multidão aglomerada em torno do banco de pedra:

"É meu! Fui comprar leite e de repente o trem chegou. Mas o bebê é meu."

Abraçou o pequenino com tanta força que ele gemeu. Antes que alguém esboçasse um gesto ela desapareceu no meio das pessoas na estação.

Acreditara realmente que conseguiria. Fizera planos: deixaria a criança na estação e sumiria no mundo. Uma mulher jovem sozinha teria muitas chances mais do que uma jovem com um filho. Trabalharia. Mas se enganara.Como poderia? Não, jamais poderia abandonar aquele menino. Jamais faria com ele o que fizeram com ela 15 anos atrás, quando ela própria havia sido um bebê abandonado na estação de trem...

Um conto apenas. Quando estou triste eu escrevo…

A filha pródiga

"Realmente reuniões de família não são o meu forte", pensava Estela enquanto subia os degraus de pedra da casa de sua infância.

O jardim estava ainda mais bonito do que ela se lembrava, e os degraus um pouco mais gastos do que seria de se esperar. Quantos anos fazia que subira por eles pela última vez? Uns 15, ela calculou, Não, 18. Isso mesmo, 18 anos, desde...afastou o pensamento. Não serviria para nada, apenas deixariam seus nervos mais abalados. Era passado, então que ficasse no passado.


Mas o passado é uma porta de vaivém, nem abre nem fecha de vez. Sentou no penúltimo degrau. Quase 20 anos, e ela ainda sentia o gosto das lágrimas. Ainda sentia a dor dos tapas. Ainda ouvia as últimas palavras que o pai dirigira a ela: " Sua puta! É isso que você é, uma puta. Saia da minha vida!" Duro e cruel como ele bem sabia ser.

Veja bem, ele não dissera "saia da minha casa" mas sim "saia da minha vida"! Uma menina. Eu era uma menina! Sentiu a mágoa antiga e tão sua conhecida queimar dentro do coração. Jamais passaria, ela agora tinha certeza. Quase 20 anos e ela ainda sentia.


Não, não posso entrar aí. Tem rastros dele em cada palmo dessa casa... Não quero mais passar pela dor que esta casa me trás...
Quase 6 meses que ele morrera. Durante esses meses a mãe e os irmãos fazendo uma acirrada marcação: você está no testamento do seu pai, sem você estar presente o testamento não pode ser executado... Por isso cedera e viera.

Acreditou que fosse mesmo capaz de entrar de novo naquela casa sem ouvir o eco das palavras ditas há tanto tempo...Mas não podia. Levantou-se de um salto, decidida a ir embora e jamais tentar outra vez. Percebeu as lágrimas queimando seu rosto, tão abundantes que a sufocavam. Quase correu para alcançar o portão maciço de ferro, tão pesado quanto antigo.


-Estela!
Sua mãe estava ainda mais velha do que ela imaginara. Ela meneou a cabeça:
-Sinto muito. Não dá, não posso entrar aí.
-Ele deixou metade da casa para você. E o Cheba.


Cheba...o velho Chevrolet restaurado que havia sido talvez o maior amor do pai.
-Não! Não quero nada dele. Nunca quis. Arrume os papéis e eu assino. Deixe tudo para os meninos. Dele eu não quero nada.


Sentiu as lágrimas secarem subitamente. Aprumou o corpo, ergueu a cabeça. Respirou.
-Não quero nada dele. Nada. Quando tudo estiver resolvido, vem me visitar, mãe. A Clarinha vai gostar de ver a senhora.
A mulher mais velha sorriu tristemente:
-Eu vou, Estela. Não vai mesmo entrar?
-Sabe que não.
-Ele está morto, minha filha. É tempo de deixá-lo ir.


Avançou uns poucos passos e estendeu os braços. Estela a apertou bem forte.
-Fique bem, mãe.
Mas a mãe não a soltou de imediato:
-Ele está morto, Estela. É tempo de esquecer. Ele teve muitos anos de arrependimento.
-E nunca deu um passo em minha direção. Mudou de calçada quando me viu pela última vez, e jamais quis falar comigo. Para mim acabou faz 18 anos...
-Estela...
-Enterrei meu pai há 18 anos, mãe. Acredite: não estou de luto. E não quero nada dele. Jamais.


Caminhou decidida para fora. Sentou no carro. Tremia tanto que sequer conseguiu girar a chave.Ele estava morto para ela há 18 anos. E ela para ele...
Não estava de luto...
Estava?

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Fogo!

sexo_29_MVG_mul_sexo1 Ao mesmo tempo que colocava a água para ferver ela falava ao telefone:

- Agora? Sei não, acabei de chegar em casa…

Do outro lado ele responde:

- Diz que posso! Quero tanto ver você!

- Tá, meia hora e daí você vem. Só para conversar, viu?

-Meia hora, entendi.

Com a chaleira a meio caminho do fogão ela pensa: “ Fiquei maluca?”

Do outro lado da cidade ele pensa: “ Vou fazer com que ela fique maluca por mim!”

Meia hora depois, exatamente, ele chega:

Ela abre a porta da frente e nem sequer tem tempo de falar. O beijo dele é arrebatador, urgente, definitivo.

Ela bem que esboça uma resistência mas o beijo fica mais profundo, mais íntimo, deixando-a com as pernas bambas, o coração disparado, a pele arrepiada.

Meio desajeitadamente eles cambaleiam juntos, até que as costas dela batem na parede fria do corredor. Aquilo a desperta. Um pouco.

- Não! Eu quero conversar com …

Ele não responde. Olha fixamente, profundamente, bem dentro dos olhos claros dela. Os dele são um poço escuro, e na firmeza do olhar escuro dele ela sente que está perdida. Definitivamente perdida.

A mão direita dele afasta um punhado de cabelo do rosto dela. Como é possível que apenas um toque leve faça meu coração disparar desse jeito? –ela pensa.

Os olhos escuros dele têm um brilho tão quente e tão sensual que a fazem tremer de novo. Louca! Claro que não seria apenas conversa…nunca foi. Duas forças, duas labaredas é o que eles sempre foram!

Ele sente o pulso acelerar quando afasta os fios de cabelo dos olhos dela. Nunca uma mulher o afetara dessa forma, tão intensamente.

O que eu vou fazer com você? – ele pensa. Estava dominado, enfeitiçado. E tanta conversa só havia dificultado as coisas entre eles. Chega de conversar, não é isso que vai resolver.

Ele inclina levemente o corpo e a beija outra vez, com a mesma intensidade mas também com uma urgência que a incendeia! As mãos dela estão no peito dele. Descem lentamente, sobem outra vez. Ela sente o coração dele disparar debaixo dos seus dedos. Os beijos dele queimam sua pele, espalham calor e uma fome louca, desesperada.

Quero este homem! Meu Deus, eu quero tanto!

- Vem! – ela toda é uma chama.

- Diga. Diga o que quer. Diga que sim!

Há um brilho intenso nos olhos claros. Ele pode ver a fome, a urgência dela se igualando à sua. Já vira essa fome antes. Sabe que assim que for satisfeita ela o porá para fora. Do quarto. De casa. Da vida dela. É agora ou jamais:

- Diga o que sabe que tem que dizer!

O beijo dele é ainda mais íntimo. As mãos dele agora avançam pelo corpo dela. Fogo!

- Diga!

- Que droga! Pàra de falar e vem! – ela o puxa com força, enfia as maõs pela abertura da camisa.

Ele não a afasta, ao contrário, intensifica a intimidade. Toca o corpo dela da mesma forma com que ela o toca. Afasta a blusa cor de rosa dela… desce os lábios pela pele arrepiada do pescoço, sempre descendo…

- Diga! Ela sente a pele úmida, toda ela é uma coisa só, os olhos vidrados de desejo.Quando a boca dele roça de leve o seio esquerdo ela inclina ainda mais o corpo, num convite claro.

Não, não é só desejo. Se fosse seria simples. Não tem mais jeito, estou perdida.

- Sim! Eu volto a viver com você!

Ele não responde. Nem precisa. A mão roçando a pele nua das costas e a boca que se fecha sobre os seios dela são tudo o que ela precisa ouvir…

 

Um conto pra inspirar seu sábado…

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Azul e vermelho

Àquela hora a prefeitura estava quase vazia. A moça vestida com sobretudo azul-escuro sobe calmamente as escadas gastas da entrada e segue decidida pelo enorme corredor de acesso.

Ninguém a intercepta, ninguém a questiona. Não precisa; todos sabem quem é ela e o que está fazendo ali àquela hora. Na porta envernizada de mogno antigo ela nem bate.

-Boa tarde, prefeito.

O homem alto e bem apessoado está de costas para a porta. Ansioso, agoniado pela demora dela.

-Venha cá.

Ela não se move. Alguns segundos, é tudo o que ele consegue esperar no jogo de gato-e-rato que ela sempre faz com ele. Quando finalmente ele se vira o sobretudo azul está aos pés da moça.

-AH!

Lá fora a tarde avança. Uma mulher vestida de vermelho segue decidida pela escada de pedras gastas que leva ao hall de entrada da prefeitura.

Àquela hora ela não deveria estar ali. O porteiro tenta:

-Vou avisar o prefeito que...

-Não precisa. E não adiantará mais.

Ela segue, rápida e decididamente.

“Lascou”, pensa o porteiro, enquanto interfona para a sala da secretária do prefeito. Mas é claro que ninguém atende. Ele então arrisca o número do gabinete do prefeito. Nada. “Lascou”, pensa outra vez, enquanto sobe correndo os degraus dos fundos.

No gabinete do prefeito o telefone interno toca. Uma mão masculina é estendida para tentar alcançar o aparelho mas a delicada mão feminina, de unhas longas e bem feitas, o impede:

-Não. O expediente acabou. Seu trabalho agora é comigo.

E inclina o corpo flexível sobre a mesa de mogno brilhante. Ele se inclina sobre ela:

-AH!!!

No corredor longo a mulher de vermelho pára diante da pesada porta de mogno envernizado. Respira fundo. Seus dedos tocam a maçaneta fria que gira com facilidade, em silêncio. Bem azeitada, a mulher pensa com um laivo de sarcasmo. Empurra a porta mansamente.

O sobretudo azul jogado no chão. Sobre a mesa antiga de mogno a moça é a primeira a vê-la. Olha a mulher nos olhos por uma fração de segundo antes de enrigecer o corpo flexível sob o toque do prefeito. A súbita mudança na moça custa a alcançá-lo. Ele segue a direção do olhar dela.

-Não se incomode. Podem continuar, eu espero.

O que ele pode dizer? Ocorre-lhe que qualquer coisa será um desastre, mas o silêncio é pior.

-Não posso explicar.

-Nem precisa. Mas pelo amor de Deus, se quer conversar, desça daí.

A moça recolhe as peças de roupa, e pensa: “Vou ter de vestir o sobretudo com esse calor!”

-Vá- diz o prefeito que até minutos atrás só queria que ela ficasse.

-Fique. Não me demoro- diz a primeira-dama.

A moça senta-se na cadeira de canto. Uma vez, nesse canto, nós...ela pensa.

-Sônia, eu sei que sou um ordinário...

-Pois saber disso faz de você um homem mais sábio do que a maioria dos homens desta cidade. Eles não sabem que você é um ordinário.

-Sônia, as eleições serão em três semanas...

-E você está com uma vantagem apertada nas pesquisas...

-Sônia...

-Vantagem esta que pode ruir se um fato novo aparecer.

-Sônia...

-E sua campanha toda baseada no homem impoluto, pai de família, bom católico.

-O que você quer? Sei que quer alguma coisa, senão não viria aqui. Flagrante nunca foi seu interesse. Diga logo.

Ele já estava de novo vestido e isso o tornava um pouco mais senhor de si. Conhecia a esposa. E temia o que viria.

-Simples. Você vai me nomear chefe de gabinete. E vai colocar meu nome no bairro de casas populares que vai inaugurar.

-O nome do bairro já está decidido, é uma homenagem ao meu pai.

-Seria, mas você, tocado pelo profundo amor que sente pela sua primeira-dama decidiu dar o nome dela ao bairro. Na verdade, aos dois. Vila Sônia I e Vila Sônia II.

-Não posso nomear parente.

-Pode sim. E vai.

E para a moça:

-Sabe datilografia, meu bem?

-Um pouco. Por que?

-Porque você acaba de ser contratada como a nova secretária do prefeito.

Ele olha desolado para a primeira-dama.

-Espero você para o jantar, querido.

Três meses depois a cidade assistiu entusiasmada a entrega das 1000 casas populares pelo prefeito recém-reeleito.

Ao seu lado a primeira-dama sorria, tão plácida em seu vestido azul discreto. Descerrou a placa onde se lia:

"Vila Sônia I"
Na ponta oposta do palanque a moça de vermelho sorriu discretamente. “Quem diria: secretária do prefeito!”
 
Nunca mais o sobretudo azul-marinho. E os finais de expediente aconteciam cada vez mais animados.
 
Embaixo, entre a multidão, o porteiro pensa:
-Vai um pobre como eu entender essa gente...
 

Mais um doa meus contos importados do Conto vidas

Parece real, né? Mas imagina… isso é coisa que non ecxistebarrinhas23_thumb1

O troco

 

Depois de quase 30 anos de casamento ela resolveu falar. Juntou a família: filhos, as suas respectivas namoradas, o irmão solteirão que morava na edícula, os pais já velhinhos. Sentaram-se todos em silêncio na comprida mesa da enorme varanda. Em absoluto silêncio. Era a primeira vez que ela pedia uma reunião de família.

Imaginaram algo grave, uma doença talvez. O pai, sempre serelepe e dado a galanteador talvez tivesse aprontado uma molecagem mais séria… conjecturas não faltavam.

À hora marcada ela entrou. “Como ela está luminosa!”-pensou o irmão solteirão. “Ai meu Deus! Lascou!” –pensou o marido serelepe e galanteador.

Diante de tanto olhares ela sentou-se, colocou as mão finas e elegantes sobre a superfície envernizada da mesa e contemplou sua família. Os pais que estavam juntos há 63 anos; os filhos já adultos e suas (eternas) namoradas; o irmão solteirão; o marido serelepe. No breve espaço do olhar ela viu passar diante dos olhos uma vida. Mas especialmente uma vida. A sua vida.Que merda.

Ela olhava a todos e todos a olhavam de volta, em suspenso, temerosos, imaginando porque o lhar luminoso, a roupa bem cortada e colorida, as unhas feitas, o perfume delicioso e o cabelo mais bem arrumado do que em qualquer outra ocasião. Cadê a mãe de avental? Cadê o cheiro de comida cozinhando no fogão? Cadê os olhos cansados? Cadê a mamãe???

_Muito obrigada por virem.

A voz serena, segura. Onde estaria a mãe de voz queixosa?

_Não quero protelar mais.

Protelar? Desde quando nossa filha bem casada e “do lar” usa palavras como protelar?

_Estou feliz que este momento tenha enfim chegado.

Feliz? Há quantos anos não a ouço dizer que está feliz? Será que, desde que nos casamos, alguma vez ela disse que estava feliz?

_Hoje, às 17 horas o navio Princess of sea deixa o porto. Ele vai cumprir uma rota extensa em alto mar, dando a volta pelos 5 continentes. Não retorna em menos de 18 meses.

Aí a sogrinha, cheia dos conhecimentos. UHHu! Mas e eu com isso?

_O navio é uma cidade flutuante e comporta milhares de pessoas, entre tripulantes e passageiros.

Minha irmã… também eu esperei anos para ouvir isso.

_E dentre o milhares de passageiros, todos desconhecidos, estarei eu. Saio hoje desta casa e depois que cruzar a soleira daquela porta jamais tornarei a fazê-lo outra vez. Estou deixando um advogado encarregado de cuidar da venda de tudo o que me couber na partilha de bens e claro, do divórcio que pedi há 3 meses, desde o caso do Ernani com a moça do petshop. Escreverei uma vez por semana para meus pais e uma vez por mês aos meus filhos. Não quero saber dos seus problemas com as namoradas e nem quero saber que meus pais continuam sem se falar quando estão sozinhos. Tomo hoje essa decisão porque não quero mais ser uma continuação da sua infelicidade, minha mãe: 63 anos juntos e há mais de 25 sem se falar quando a sós. Quanto a você, Ernani, quero dizer algo que esperei anos para dizer:

Aprenda a cozinhar a sua própria comida ou morra de fome, pouco me importa. Aprenda a cuidar das suas roupas ou ande nu, e dane-se. E finalmente: foda-se.

Ergueu-se. Calma, sem um fio de cabelo fora de lugar, apanhou a pequena valise de couro bege e lançou um último olhar a todos. Demorou-se um tantinho mais nos pais, sentados lado a lado sem se tocar. Dirigiu-se ao irmão:

_Cuide deles. Sei que cuidará.

Ele assentiu.

Ela olhou os filhos, já beirando os 30 anos.

_Cuidem-se.

Eles finalmente fecharam a boca. As noras não.

_Espere!

Ernani, rubro e trêmulo:

_Quem está pagando essa idiotice toda?

_Você. Há anos. Todo mês um pouquinho, todo dinheiro que eu conseguia desviar. A cada nova “amiguinha”, a cada nova humilhação, a cada grosseria, a cada desfeita eu aumentava a porcentagem do desvio. Juntei uma pequena fortuna. Que cresceu com as aplicações que fiz ao longo dos anos. E para arrematar hoje de manhã vendi os dois carros que você colocou em meu nome para burlar o fisco, e também vendi há duas semanas sua lancha. Também retirei todos os fundos da poupança e resgatei todas as aplicações que tínhamos em conjunto. Eu aprendi a lidar com bancos, sabe? E você sempre disse que eu era lesada demais até para ter um cartão de crédito.

_Sua, sua, sua…

_Ex mulher. Está com raiva? Me processe. Adeus.

E saiu. Em seu rastro um inebriante e delicioso perfume.

Nunca antes tantos queixos cairam ao mesmo tempo naquela varanda sombreada…

Conto importado do meu blog de contos, que anda mais abandonado que Brasília em época de 2º turno…5686

O amor e uma cabana

Um conto meu, importado do meu Conto vidas.

image Mesmo com todos dizendo que ela iria se arrepender Lisa decidiu arriscar.

Aos 20 anos a gente é mesmo dada a correr riscos, especialmente se está tão apaixonada como ela estava. Engravidou logo na primeira vez, mas pensou: "Tudo bem, ele é o homem com quem vou ficar a vida toda."

Foram morar juntos, literalmente vivendo a frase: "Seu amor e uma cabana." A cabana em questão era uma minúscula casinha de dois cômodos cercada de mato por todos os lados.

Dois dias depois que se mudaram ele foi despedido. Mas tudo bem, o amor sustenta nossa casinha. O amor, porém, precisava de comida. Então ela, que nunca trabalhara na vida, foi ser lavadeira. Grávida, foi a única coisa que achou para fazer. Logo as freguesas aumentaram, e ela passou a chegar em casa depois de escurecer. Ele estava sempre à sua espera, de banho tomado e com o jantar já pronto.

De início foram felizes... mas ela precisou parar de lavar roupa quando o bebê nasceu. Ele era um pai muito amoroso, mas totalmente inepto. Não havia com quem deixar o menininho de pouco mais de dois meses. As dificuldades financeiras provocaram brigas intermináveis. Ela voltou a lavar. Ele voltou a fazer o jantar.

E Lisa achou que era hora dele arrumar um emprego. Ao invés disso ele voltou para a casa da mãe. Já ela não pôde voltar pois o pai fora muito claro quando disse que se saísse, sairia para sempre. Foram anos de luta para criar sozinha o filho de tanto amor.

 

Em tudo isso Lisa pensava ao contemplar a mocinha de olhos meigos sentada à sua frente: a namorada do seu filho era ainda mais jovem do que ela fora naqueles anos de luta e privação. Voltou a prestar atenção:

-A gente se ama mesmo, mãe. Eu quero viver com ela. Mas o pai dela diz que a gente é muito jovem. Ele não entende...

-Meu pai, dona Lisa, diz que eu vou me arrepender e que se eu vier morar aqui prá casa eu não volto que ele não criou filha prá ser perdida por aí.

-A gente pode dividir a casa e ela vem, meu quarto é pequeno mas eu dou um jeito e ...

Lisa pensou. Enquanto eles desfiavam os motivos do seu amor ela pensou. Como é curioso que os jovens não vejam a tragédia no horizonte! A mocinha estava estudando, assim como seu filho. Ambos jamais pagaram uma conta de luz, nem conta nenhuma, aliás. E achavam sinceramente que seu amor era capaz de sobreviver a tudo...o amor e uma cabana. Lisa se ergueu:

-Vocês se amam mas não têm como se manterem sem ajuda. Não vou resolver a vida de nenhum dos dois. Seu pai está certo em ser firme. E você, meu filho, deveria saber que não tem como sustentar uma família agora. Eu certamente não vou sustentar esse amor enorme que sentem. Se quiserem arriscar nada vai impedir, nem eu, muito menos seu pai, minha querida. Minha proposta é a seguinte: continuem o namoro, continuem a estudar e quando ambos estiverem trabalhando voltem aqui, sentem na minha frente e me convidem para um casamento lindo. Ou arrisquem. Vocês decidem.

 

Lisa saiu da pequena sala. Olhou as hortências na floreira rente à casa. Sempre gostara de flores, e as hortências estavam em plena florescência. Pensou em si mesma, em tudo o que vivera até ali.

Mais do que nunca sentia que escolhera certo. Não mudaria nada, se pudesse voltar no tempo. Toda a dor e todo o sofrimento valeram a pena. Ela aprendera a bancar sua própria escolha. E sobretudo, amara. Por breves meses fora mais feliz do que muitas pessoas conseguem ser em uma vida inteira de escolhas ajuizadas.

Mas a escolha era deles, ela não escolheria por eles. Mas já pensava em como transformar o quartinho do filho num quarto de casal que pudesse abrigar um amor que estava disposto a viver apenas de si mesmo. E de uma cabana.

 

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Feliz para sempre

image

Quando a bonita morena de olhos verdes começou a circular pelos corredores da empresa ele logo pensou em convidá-la para sair. Mas o tempo foi passando, ela nunca dava espaço para uma aproximação, e a chance de uma conversa mais animada e pessoal só foi surgir mesmo na festa de aniversário improvisada para a telefonista gente boa de quem todo mundo gostava. Aproximou-se vestido com seu melhor sorriso:

-Oi.
-Oi, Lúcio.

Ela sabia seu nome. Bom. Ou ruim?
-Não sou de enrolar então quero saber se você toparia um chopp comigo sexta depois do trabalho. Aceita?

-Não, não posso mesmo.
-Ah, sei. Desculpa então.
-É que tenho um casamento para ir na sexta.
-Casamento?
-Sim, do homem da minha vida.
-Você vai casar?!
-Meu filho vai. Ás oito.

Ele olhou bem para ela. Aparentava uns 34, 35 anos, talvez. Mas com tanta coisa hoje em dia, plástica, lipo, creme, laser e mais uma de coisa, vai saber, né? De repente estava diante de uma mulher beem mais velha. Infelizmente as palavras saíram boca afora tão logo ele pensou nelas:

-Filho? Casando? Peraí, quantos anos você tem?
Ela sorriu.
-Faço 34 em janeiro.
-E tem um filho casando?
-De 21 anos.
-Como pode?
-Eles se apaixonaram e decidiram casar...
-Não, pergunto como pode você ter um filho de 21 anos?
-Tinha quase 13 quando ele nasceu.
-Ah...
Ficaram em silêncio. Ela bebericou o refrigerante. Ele enfiou as mãos no bolso.
-Quer ir comigo?
-Quero.
-Então tá. Às 8, na Igreja do Carmo.
-Tá.
-Então tá.

Eles se afastaram. Puts, pensou ele, onde fui me meter? Festa de casamento com a família? Queria só um chopinho!

Que é que me deu? pensa ela. Convidar o cara para o casamento do Rafael! E agora? Que é que me deu?

Mas, como não tinha jeito, foram. Ela linda, parecendo tudo, menos a mãe do noivo. Ele, tenso como se fosse ele o noivo...Casamento lindo, noivos tão jovens, e nada de pai do noivo. Não resistiu:

-E seu ex-marido? Não vem?
-Que ex-marido?
-O pai...
-Nem pai, nem ex-marido. Definitivamente não.
Suavizou o tom:
-Nunca casei. Como poderia, com 13 anos?
-Mas tem um pai, né?
-Olha só, a festa está linda, meu único filho casando e eu estou feliz de você estar aqui comigo, mas esse papo de interrogatório realmente...
-Desculpe. Mas é que ...
-O pai não vem por que nunca veio. Nem eu quero que venha, Deus me livre.
-Desculpe.
-Tudo bem. Quer dançar?

Dançaram. Pensando depois ele teve a certeza que foi naquela dança que se apaixonaram.Não se separaram mais.
Ele jamais voltou a perguntar pelo pai do rapaz, de quem aliás ficou muito amigo.

Então, um dia, andando pela rua ela de repente estacou, os pés fincados no chão, olhos arregalados e lívida.

Um homem de meia idade caminhava na direção deles, sem sequer tê-los visto; ela girou nos calcanhares e desceu a rua praticamente correndo. Quando finalmente a alcançou, assustado e abismado pelo inesperado do gesto dela ele a fitou:
-Que foi, meu bem?
Os olhos inundados, as mãos tremendo, ela apenas o fitou de volta, meneando a cabeça.
Algum tempo depois conseguiu falar:
-O pai do Rafael...
Ele recordou o homem de meia idade, ligeiramente calvo e de chinelos sujos.
-Aquele? E você ainda fica abalada desse jeito? Que paixão foi essa, meu bem?

Então ele viu algo nos olhos dela que nunca havia visto antes, e nem veria de novo. Graças a Deus.
-Paixão? Você não tem ideia do que está dizendo.
-Mas então o...
Ela o interrompeu friamente:
-Eu tinha 12 anos. Vinha todos os dias sozinha da escola. Um dia ele me parou, perguntou onde eu morava e por que andava sempre sozinha. Eu fugi. Na segunda vez que ele me parou eu não pude fugir. Quando finalmente ele relaxou um pouco eu consegui correr. Estava muito machucada. As roupas rasgadas… Cheguei em casa e minha avó perguntou porque eu demorara tanto. Ela tinha 76 anos, perdera o marido e a única filha e me criava com grande dificuldade. Disse que havia ficado até tarde na escola. Como contar? Eu era uma criança.

Ela parou para respirar e enxugar a torrente de lágrimas que desciam.

-Quando descobri que estava grávida já estava com 6 meses de gestação. Minha avó nunca soube quem era o pai do Rafael. E ela jamais me negou ajuda, nem desprezou meu menino. Quando ela morreu, há 10 anos atrás, eu já era há muito tempo uma mulher independente.

-E o Rafael? Sabe?
-Prá quê? Ele sabe que o pai era um menino que eu amava, que me amava e que morreu num acidente de carro indo passar férias na Bahia. Ele sabe que foi fruto de um amor muito jovem e é um homem sem neura e sem trauma nenhum. É o que ele precisa saber.

Lúcio olhou para ela. Conseguiu vislumbrar toda a dor e toda a fragilidade da menina que ela fora. Imaginou o horror. E seu amor por ela explodiu. Abraçou-a com tanta força que seus ossos estalaram.


No verão seguinte ela era a noiva. E nunca esteve tão bonita quando olhou-o bem fundo nos olhos e disse sim...

E ele nunca antes foi tão feliz. Agora é. Para sempre…

Um pouco da minha porção escritora. De ficção. Mas não totalmente ficção, entende?

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