Quando a gratidão se mistura com a dor... - * Blog Elaine Gaspareto *

Quando a gratidão se mistura com a dor...

em 11/11/2017



Eu acompanho algumas páginas no Facebook, a maioria delas são páginas de bichinhos ou de comida, ou de blogs. Afinal, estou ali pra me distrair e não pra arrumar treta política/religiosa ou ver imagens chocantes... ou ser bombardeada por notícias de desgraças.
Mas tem uma página específica que eu acompanho chamada SP Invisível, cujos relatos, invariavelmente, me fazem chorar, e pensar muito...

A página (bem como o site do projeto) publica relatos reais de pessoas em situação de rua em São Paulo.
Claro que poderia ser qualquer cidade, especialmente grande, mas é muito representativo que seja SP- parece que é a esquina do mundo, com tantos migrantes, tantas pessoas vindas de tantos lugares diferentes...
Os depoimentos são tão reais e tão profundo, e tão doloridos de ler... mostram a humanidade do morador de rua, e me confronta com minha própria humanidade.
Há tantas histórias ali, tantas vidas, tantos sonhos, tantos medos, e sobretudo muita dor.

Meu Deus, como há dor nesse mundo... e parece que ali, naquela cidade imensa, todas as dores se "amostram".
Eu penso muito nisso, em todas as necessidades que pessoas em situação assim passam.


Eu sou aquela pessoa que jamais poderia ser rica, jamais conseguiria ser rica/manter a riqueza e ver ao meu lado, pela janela (seja do carro ou do Facebook) tanta dor e tanta miséria.
Não consigo entender como pessoas realmente ricas, dessas que possuem milhões, conseguem dormir em paz sabendo que lá fora há quem durma com frio e fome...
Não consigo entender um prefeito, um governador, um vereador que consiga desviar, roubar, fraudar e tirar para si o que pode significar a diferença entre viver ou morrer para tanta gente.
Tem na cidade grande, tem aqui na minha cidadezinha. E eu não consigo entender quem rouba de quem nada tem. Quem enriquece desviando  dinheiro e se recusando a criar políticas sérias de inclusão.
E não, não consigo perdoar.

Sempre que faz frio ou chove e eu estou deitada em minha cama quentinha eu penso em quem está na rua. Seja gente, seja animal abandonado. E, muitas vezes, são os dois juntos, leais um ao outro na miséria e na dor do abandono.
E sinto uma grande culpa.

Sinto culpa toda vez que me deparo com alguém em situação tão mais sofrida que a minha; sinto culpa por, muitas vezes, ter a geladeira cheia como nesse momento, por ter uma vida tão boa, tão confortável. Sinto que há tanta gente mais merecedora do que eu....
Eu sei que não deveria sentir e pensar assim, mas estou abrindo o coração e compartilhando um sentimento. E sentimento, por si só, não é bom nem ruim. Ele existe, e eu tenho esse sentimento.
E não, não sou boa pessoa por sentir/pensar isso, ao contrário. Tenho tantos defeitos que se fosse te contar talvez você fugisse correndo.
Mas sinto isso, essa inconformidade em ver essas coisas, em saber que nesse momento há tanta gente que não terá uma janta, nem uma cama, nem segurança, nem um teto...


Por mais que as pessoas ajudem, sempre parece tão pouco, sempre parece uma gota no mar.
Mas também sei que o mar é feito de pequenas gotas e que sem uma gota ele seria menor.
Então, na medida do meu possível eu sigo ajudando como posso, muitas vezes  entre lágrimas de tanta impotência. Mesmo sentindo que deveria fazer mais...
E há tanta gente que faz isso, e faz muito mais, eu sei. Gente que faz milagre, gente-anjo que faz a diferença na vida de tantos...
Sou grata também por quem sai de si pra ajudar, seja uma pessoa, seja um animalzinho abandonado. Somos todos irmãos nessa vida, como dizia São Francisco, né?
Sinto culpa, sinto revolta...
Mas, ao mesmo tempo, sinto uma imensa gratidão por esta vida boa e confortável.
Justamente pela consciência que tenho de não merece-la.
Sei que não é merecimento, por isso sou grata.
Assim como sei que ninguém está na rua, dormindo com um pedaço sujo de coberta e passando todo medo, dor, frio e fome porque mereça.
Não há merecimento. Nem pra mim, nem pra ti e nem para o outro.
Por isso tenho esse misto de gratidão e dor.

Venha participar com a gente da Blogagem Coletiva #52semanasdegratidão!
Clique aqui e saiba como é simples participar!







5 comentários via Blogger
comentários via Facebook

5 comentários:

  1. Oi Elaine que sejamos sempre o melhor para os esquecidos do mundo, mesmo que seja através dum bom pensamento, de uma oração.

    ResponderExcluir
  2. Oi Elaine, em certo grau penso assim como você...Ninguém nesse mundo pede para nascer e os caminhos nem sempre são de flores..há espinhos, lama, frio, calor, ódio, descaso...Ser invisível é a pior coisa do mundo, ainda mais numa situação de carência total como as pessoas em situação de rua...seja lá qual foi o caminho até chegar a essa situação. Tenho muita gratidão por ter um lar.
    Beijos

    ResponderExcluir
  3. Muita miséria e sofrimento no mundo, Elaine. E muita gente sem problemas se queixando da vida! Que possamos sempre, de alguma forma, direta ou indiretamente, contribuir para que estes flagelos deixem de existir. Beijo, boa semana.

    ResponderExcluir
  4. Oi Elaine,
    Eu trabalhava no Centro Regional de Relações do Trabalho e fazia parte do jurídico, mas o governo resolveu fazer um projeto para resgatar este pessoal de rua e colocá-los em empregos, dar uma nova vida para eles. A divulgação era feita nos albergues, debaixo dos pontilhões , em qualquer lugar onde eles se encontrassem. O governo dava benefício de redução de impostos para os empresários que os recebessem.
    Eles receberam roupas, um lugar para dormir, corte de cabelo, tratamento de dentes e tudo que precisavam para se integrar novamente à sociedade.
    Foi um fiasco. As pessoas que estão na rua geralmente tê problemas mentais e a família abriu mão delas por não conseguir aguentar. a maioria é bêbada e/ou drogada. a rua é difícil, mas também tem um lado que eles se adaptam e não conseguem mais viver sem. Na rua eles t~em uma liberdade que nós não conhecemos e nem temos ideia de como é. Na rua não tem horários e eles não obedecem a ninguém. São muito mais donos de si mesmos do que nós somos.
    Em Bauru foram mais de 300 encaminhados para empregos e somente um ficou mais de uma semana! O fracasso foi no estado todo.
    é uma pena que existam pessoas em situação de rua, mas elas existem no Brasil, na Itália, nos EUA, no mundo todo, e no mundo todo elas têm este tipo de característica de não se adaptarem à sociedade, da maneira que nos adaptamos.
    Outra coisa, descobriram que os sem teto têm uma alimentação melhor do que aquela pessoa que trabalha por um salário mínimo e leva a marmitinha de casa. Uma pessoa que mora na rua sempre ganha o suficiente para se alimentar e existem restaurantes que liberam a comida para eles depois das 3 da tarde. Quem ganha salário mínimo, muitas vezes como ovo com arroz e olha lá.
    Eu prefiro ajudar quem trabalha e ganha pouco, ou aos animais, do que pessoas que dificilmente querem ser ajudadas.
    Bjs

    ResponderExcluir
  5. Olá, querida Elaine!
    Fiquei feliz por ter feito os 3 post que me faltavam para completar o ano até aqui. Gosto demais de fazer o resumo de cada semana...
    Seu post tem triteza mas tem um alerta junto e vale a pena ser levado em conta.
    Seja muito feliz e abençoada!
    Bjm de paz e bem

    ResponderExcluir

Olá! Muito obrigada por ler meu blog e obrigada também por se dispor a comentar meus posts. Seja muito bem-vindo(a)!

Importante!
Devido à falta de tempo hábil eu não me comprometo a responder perguntas referentes aos tutoriais postados neste blog.
Pedidos de ajuda individual serão respondidos conforme o meu tempo e disponibilidade permitirem.
Por favor, entenda: comentários sem relação alguma com o post não serão liberados e nem respondidos.

Para saber mais sobre a melhor forma de utilizar este blog leia Termos de uso do blog.



Muito obrigada, fique à vontade para interagir.
Mas lembre-se:
Gentileza, educação e boas maneiras servem também para a vida nos blogs…



Visualizações

Contando...

Dias online
Postagens
comentários