O monstro grandão da frustração - * Blog Elaine Gaspareto *

O monstro grandão da frustração

em 23/10/2017


Quando eu era criança fui uma das melhores alunas da minha escola.
Não só da minha classe, veja bem, mas da escola.
Eu era boa aluna, só fui tirar um B em matemática no último bimestre da 4ª série porque tive catapora e faltei muito da escola e perdi prova.
Chorei muito aquele B feio e bobo manchando meu boletim perfeito, repleto de notas A.

Ganhava concursos de redação, de leitura, meu caderno era mostrado em outras salas como exemplo. Decorei a tabuada antes de todo mundo e era a mini-gente que mais lia na escola.
Na verdade, de tanto receber elogios, eu meio que me acostumei a eles. Achava normal, acreditava que merecia. Gostava. Fazia sempre um esforço a mais porque gostava dos elogios. E achava que teria sucesso em qualquer coisa que fizesse.
E, em geral, tinha mesmo.
Mas um dia eu, como a gente diz aqui no interior, caí do cavalo.

Toda escola, naquele tempo, fazia comemorações em feriados importantes.
Cada sala preparava uma apresentação, que podia ser uma música, um jogral (sabe o que é jogral? ainda existe?), uma mini apresentação de teatro, uma leitura dramatizada, etc...
Minha professora daquele ano escolheu uma poesia enorme e me escolheu para representar a classe nas apresentações daquele ano.

Eu memorizava tudo fácil, lia em frente a classe toda, e embora fosse muito tímida em outros momentos, quando se tratava da escola eu era muito segura e desinibida. Ela sugeriu que eu lesse a poesia; eu lia bem, sabia dar pausas, entonar a voz...
Mas isso não bastava para a menininha que gostava dos elogios. Eu queria fazer mais, queria fazer melhor, queria ser melhor. Decidi que ia memorizar a poesia e que a declamaria de cor no dia da comemoração de 7 de setembro.
Eu tinha uns 9 ou 10 anos e estava tão convicta que minha professora permitiu.

Todo dia, na semana que antecedia a comemoração, ela me fazia declamar pra ela a poesia. Eu fazia, incorporei uns gestinhos, fazia um movimento com as mãozinhas, ela ficava emocionada.
Pois bem.

No dia da comemoração todo mundo se apresentando, aquelas crianças que ficavam sem saber onde botar a mão, a voz baixa, lendo errado, fazendo pausa onde não havia e eu lembro claramente de pensar em como minha poesia seria melhor, em como eu seria melhor. Autoestima? Sim, temos rsrsrs
Quando chamaram minha classe lá fui eu, sozinha, diante da escola toda, no pátio da escola.
Pequena, miudinha (sim, eu era), uma das crianças mais pobres dali, de chinelinho de dedo velho e roupinha comprada em bazar da pechincha...  mas convicta que ia arrasar. Sempre me saía bem, só elogios.

Cheguei frente a frente com as classes todas reunidas, os professores todos, a diretora, todo mundo me olhando.
Abri a boca para soltar o primeiro verso e ...
Nada aconteceu.
A voz não saiu, as palavras decoradas com tanta facilidade fugiram todas correndo e eu fiquei sozinha ali, plantada no centro do pátio, muda.
Até hoje, passados mais de 35 anos, ainda não sei o que houve.
Simplesmente minha mente ficou em branco. Não estava nervosa, não estava com medo, não estava insegura.
Mas não disse uma palavra sequer.

Fiquei ali, parada, por algumas horas... mentira, devem ter sido segundos, até que a diretora me salvou, disse algo sobre ficar para outra vez e seguiu o baile rsrsrs
Lembro da minha professora me abraçar e dizer que estava tudo bem; eu não lembro se chorei, acho que não porque eu nunca choraria em frente aos outros. Devo ter erguido a cabeça e ignorado as risadinhas e todo o bullying que veio depois.
Ou chorei rios e sofri, realmente não lembro.
Sei que nunca mais falei sobre o assunto... Sei que nunca contei em casa, assim como nunca contei os triunfos, as notas altas e nem os elogios.

O tempo passou, eu cresci. E aí, você pensa, nunca mais me coloquei em uma situação assim, nunca mais me apresentei em público e nem falei diante de muita gente.
Engana-se, querido leitor.

Pra resumir: nos anos seguintes, em cada comemoração que havia, eu estava lá. Escrevi e "dirigi" pequenas peças de teatro, fui candidata ao grêmio estudantil, ganhei e perdi eleições e eu fui a organizadora da minha formatura de oitava série (outros tempos...) ou seja: o momento que poderia ter me feito encolher pra sempre na verdade me ensinou algo muito importante: perder faz parte. Errar, faz parte. Fracassar? Faz parte. Frustração? Sim, faz parte da vida.

Seria lindo eu dizer que nunca mais fracassei em nada, mas seria mentira.
Fracassei muitas outras vezes, como por exemplo ficar um último lugar quando tentei ser presidente do grêmio estudantil que havia ajudado a criar.
Tentei de novo no ano seguinte e perdi de novo. Desisti de ser presidente e me candidatei a oradora. Ganhei.

E depois, na vida, fracassei outras vezes mais. Muitas mais.
Mas a vida é isso aí, acertos e erros, ganhos e perdas, e ter fracassado daquele jeito memorável na infância, em frente todo mundo do meu mundo, foi marcante e, vejo hoje, muito educativo.
Aprendi, (ou comecei a aprender) ali a aceitar as falhas, os erros, a aceitar a frustração de não receber aquilo que desejava e achava que merecia. Entendi que era ruim ficar decepcionada comigo mesma, mas que fazia parte...
Sou grata por isso, por ter aprendido, sozinha, que por melhor que eu seja, sempre há a chance de fracassar, de errar e de ter que enfrentar o monstro grandão da frustração.
E que, afinal, eu não era tão boa assim. E não sou até hoje...


E sabe?
Tá tudo bem experimentar frustração.
Não "destruiu" a menininha que perdeu as palavras ensaiadas com tanta vontade (e que tinha gestinhos pra incrementar a apresentação rsrsrs) e certamente não vai arrasar, nem a mim e nem a ti, querido leitor.
Frustração é ruim, mas lidar com ela do jeito mais produtivo, é vida!
E segue o baile (que a gente tá em 2017, o ano dos memes da internet rsrsr)





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2 comentários:

  1. oi Elaine, eu também fui uma aluna assim, de notas "As" e com participação massiva em todas as comemorações da escola, todos esperavam TUDO de mim, e eu acreditava que realmente era boa, mas a frustração chegou quando eu não passei no vestibular da faculdade pública para o curso que eu tanto sonhava. Acabei prestando outro vestibular numa faculdade particular, no qual eu fiquei em primeiro lugar, mas não era o curso que eu queria, no entanto, eu só tinha condições financeiras de pagar este... É logico que várias frustrações ocorreram no decorrer desses anos, mas essa foi a que mais me marcou.
    PS. deixei um e-mail pra vc.
    bjk

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  2. Muito bonito seu texto, Elaine. Tirar ilações de situações contrárias e negativas às nossas expetativas é o primeiro passo para nossa aprendizagem e crescimento moral. Beijo grande.

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