Sob outro olhar...

em 10 de outubro de 2016


Dias atrás eu saí com meu sobrinho de 6 anos, o Luís Otávio.
Fomos ao supermercado comprar as coisas dele (da dieta especial que ele faz desde que ficou doente, lembra que eu contei aqui?).
Pois bem.
Estávamos papeando no mercado, a gente sempre faz isso. Falamos de tudo, mas o assunto preferido dele são os super heróis.
A criança ficou muito espantada quando soube que a madrinha conhece tudo dos Vingadores, sabe tudo do Batman e do Flash, conhece o Arqueiro Verde e sabe até porque a Viúva Negra tem tanta força e agilidade.
Fazer o quê, né? Sou fá de quadrinhos... #nerd e ele é um dos poucos que conhece esse meu lado.

Nesse dia, quando ele me viu (fazia dias que a gente não se falava) ele me abraçou e disse que estava com saudade.
Minha irmã diz que ele fala pra todo mundo que as pessoas que ele mais ama são a mamãe (em primeiro lugar) e depois a madrinha.
E quando perguntam quem é a família dele ele diz: a mamãe, o papai, a Lala, o Bebê (meu outro sobrinho), a madrinha, o tio Erdilan, o tio Delin e a vovó.
Acho curioso que ele relacione como família apenas o lado materno.
Claro, o contato é maior, ele vê muito pouco o lado paterno, e como é muita gente, 8 tios e uma infinidade de primos, acho que é mais simples relacionar menos gente.

Mas nem é disso que quero falar.
Nesse dia, enquanto a gente papeava minha irmã comentou que ele comeu doce de leite que minha mãe fez.
Ele, todo feliz, disse que amou o doce, que foi o doce mais gostoso que ele já comeu e que a vovó é a vovó mais maravilhosa do mundo. "Eu amo muito ela".
Fiquei pasma.

E minha irmã, vendo minha cara, contou que ele sempre fala isso. Que ela é a melhor vovó do mundo inteiro.
Que ela, a vovó, senta no chão com ele pra brincar.
Quando saem pra ela receber a aposentadoria ele sempre ganha presente.
Não há nada que ele peça que ela não dê, ou faça.
Que ele a abraça e diz que a ama. E ela diz que o ama, e o abraça, e beija. E paparica com presentes, com tudo que ele quiser.

Para minha mãe a maior demonstração de amor que alguém pode dar é gastar dinheiro com ela.
Não importa o tempo dedicado, não importa se minha irmã limpa, lava,passa e cozinha pra ela, se dá banho, se vai ao médico, se acorda de madrugada pra marcar consulta.
Se eu gasto 10 reais num pote de sorvete vale mais. Dinheiro gasto=amor mostrado.
E ela faz isso também, a maior demonstração de afeto dela é gastar algum dinheiro com a pessoa.
E pra ele ela compra os presentes mais caros, o que ele quiser, ela chegou a parcelar presente de Natal...
Acredite, é a maior  demonstração de amor que ela poderia dar.

De tudo que eu poderia esperar alguém dizer da minha mãe, "vovó mais maravilhosa" com certeza é o menos esperado.
Meus outros 2 sobrinhos, irmãos dele, com certeza discordam.
Ela não foi maravilhosa para eles, bem ao contrário.
Quando Ana Laura era pequena sofreu bastante por precisar ficar com ela enquanto minha irmã trabalhava.
Tinha dias que até eu chorava, de tanta dureza que a menina passou.
Não podia deitar na cama para dormir, tinha que deixar os pezinhos de fora.
Não podia comer o iogurte da geladeira, não podia ver televisão porque gastava força... não podia brincar porque fazia bagunça. Não podia ser criança.
Durou alguns meses, a gente deu outro jeito, que prejudicou muito Ana Laura mas ao menos a livrou de tantas coisas...

Luís Henrik foi pior, ela sempre se referiu à ele, quando pequeno, como "o moleque".
Até que um dia eu estressei, disse que moleque, dito naquele tom e daquele jeito, era o mesmo que filho da puta. Ela parou de falar, mas não lembro dela ter dado sequer um par de meia pra ele. Foi do time do "tira" quando minha irmã engravidou e o pai do bebê mandou ela escolher...
E ele, claro, não tem amor algum por ela.
Amor ele tem pela vó Preta, mãe do pai deles. Ela o amou desde o primeiro dia, criou por alguns meses, e ele sente isso. E a ama de volta, é a pessoa que ele mais é chegado.

Pois sabendo como minha mãe foi no passado, e não só com os outros netos, mas com os filhos, dá pra imaginar meu espanto ao vê-la pelos olhos do meu afilhado de 6 anos?
Ele a ama, de verdade. Só vê amor e bondade nela.
Claro, os presentes ajudam, mas o amor dela por ele é que manda.
Ela é gentil, é doce, fala manso com ele, jamais grita, jamais desmerece. Ao contrário, ela o elogia, ele é o sol da vida dela.
Ela faz sopa pra ele, ela faz doce, ela compra roupa, ela faz mingau. Ela inventou um bolo de mingau pra ele.
E ele diz isso, que ela é a vovó mais maravilhosa do mundo, a mais linda, que faz o melhor doce.

Fico pensando...
Tudo nessa vida depende do olhar com o qual olhamos?
Ou somos, na verdade, uma pessoa para cada pessoa?
O que você acha?

Assim como eu, Ana Laura, minha irmã... temos uma visão sobre minha mãe.... e Luís Otávio tem outra tão diferente... as pessoas provavelmente têm visões diferentes de mim.
Não é?
Não sou a mesma para todos, muito provavelmente...
Será verdade isso?
Podemos ser pessoas diferentes para pessoas diferentes?
Não sei, mas fiquei pensando nisso desde então...

Erramos todos nessa vida, eu erro tanto todos os dias, muitas vezes com as pessoas que eu mais deveria acertar... gostaria de ser mais capaz de esquecer o passado, as tristezas do passado...
Hoje já evoluí à ponto de não mai mencionar as mágoas todas, mas sei que elas estão aqui, infelizmente. "Daria tudo por um modo de esquecer", como diz a canção.
Passado... ele não passa de verdade, né?
É uma porta de vaivém, nem abre, nem fecha de vez...


Imagem: Javier Perez
Mas sabe?
A verdade é que fiquei feliz com esse papo com o Luís Otávio.
Acho muito bom que minha mãe, já tão velhinha, tenha a oportunidade de vivenciar isso, experienciar o que é ser amada pelo netinho lindo.
Ser amada, saber que ele gosta da companhia dela, que gosta da sopinha que ela faz pra ele.
Acho incrível que ela possa viver isso com um dos netos, recomeçar, fazer diferente, fazer melhor. Fico feliz de verdade e grata ao menininho de 6 anos que, do auge da sua imensa bondade e sabedoria, me ensina que sim, podemos fazer diferente.

Nem sei se ela se dá conta disso, se é esforço pessoal dela para ser amada por ele, ou se foi algo natural, encontro de almas.
Não sei dizer.
Mas é interessante vê-la pelos olhos dele.
Talvez ele a veja com mais clareza, sem o peso dos anos... ou talvez ela seja de fato outra pessoa pra ele, diferente do foi conosco.
Talvez ele seja mais generoso do que nós, os filhos e netos mais velhos, ao olhar pra ela...

Não importa, eu acho.
Importa que eles se amam, e ela sabe disso, ela se sente amada. Independente de qualquer coisa, ela merece.
Merecemos todos...
É isso que vai ficar na memória dele, a vovó mais maravilhosa do mundo...
E vai ficar na minha memória também.
Ninguém tem uma cor apenas... temos nuances. Todos nós.
Não é?



Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

11 comentários , comente também!

  1. Elaine que post maravilhoso,gostoso de ler.
    Gosto de posts assim,que me fazem pensar.
    Pois è,acho que todos nos veem de formas diferentes.Fiquei pensativa agora rsrs
    Beijo
    http://www.simplesedoce.com.br/

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    1. Letícia, também gosto de posts assim.
      Aliás foi isso, a vontade de escrever o que penso, que me motivou, anos atrás, a criar o blog.
      No começo, por uns anos, ele se chamava Um pouco de mim...

      beijosssss

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  2. Oi Elaine,
    todo mundo dizia que minha avó era uma fera, mas eu me lembro dela muito carinhosa comigo. Sou a neta caçula, será que o tempo não abranda algumas pessoas, especialmente as avós?
    Adorei a história, e nunca tinha pensado no assunto, mas acho que minha mãe também entendia que amar era gastar dinheiro com ela. Como eu nunca percebi isto?!?
    Bjs

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    1. rsrsr eu também custei e entender isso do dinheiro.
      Mas olhando a relação dela com o Luís me dei conta disso.
      Todo mês ela me manda ou um pano de prato, ou um potinho de guardar coisas na geladeira.
      É o jeito dela de demonstrar amor.
      E faz questão de dizer que comprou igual pra mim e pra minha irmã...
      Dá o que pensar, né? rsrsrsr

      bjssss

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  3. "Encontro de almas" com certeza. Sob meu ponto de vista, numa outra vida eles já se deram bem, foram mto próximos e queridos e isto veio pra vida atual. Senão como se explica ela ser amável somente com ele?
    Eu vivencio isto com meus dois filhos, confesso que me dou muiiiito melhor com meu mais velho, somos amigos, nos entendemos, há cumplicidade. Já com minha segunda filha é uma batalha diária, ela me provoca e eu a ela. Então só pensando numa vida pregressa pra encontrar respostas pra sentimentos que atualmente não há explicação.
    Bjs

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    1. Neli, que riqueza de comentário!
      Sempre defendi que amar e se dar bem são coisas diferentes.
      Sempre dizem que mãe ama igual todos os filhos.
      Até pode ser, mas é inegável que afinidade não vem com a maternidade.
      Minha irmã, por exemplo, é muito mais próxima da Ana Laura.
      Pode ser mesmo isso, encontro...
      bjsssss

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  4. Que linda história e com final feliz!
    Esqueça suas mágoas (não é fácil, mas não é bom guardar).
    Conheço pessoas assim, que sempre dão uma lembrancinha para ficarem felizes.
    E quem recebe também sente um amor.
    Que bom que podemos descobrir o lado bom da vida, neste mundo tão louco.
    É como dizia minha avó: os signos combinam rsrsr E daí vem a afinidade.
    joturquezzamundial
    Beijos para vocês.

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  5. Sentimento? Emoção. Quase destruímos nossas vidas por sentimentos por pai e mãe.Quero dizer, q os ressentimentos nos acompanham. Sofri também e pior, filha única. Nada nunca tava bom. Mas os netos e meu marido? Bah! So amor e eu, recriminação. Sempre tento entender nosso antagonismo mas... Acho que temos que interpretar a atitude deles, a época.. é difícil. Enfim, bola pra frente. A gente cresce com dificuldade de amar. Ela tb era através de presentes, coisas boas e eu segui um pouco esta atitude. Testemunhos como o teu, tenho ouvido muitos, só mudando o roteiro. Alguns, me fazem chorar. Cada historia de vida dá um bom filme dramático. Que amor teu afilhado e esta comunhão entre eles faz a gente acreditar um pouco mais e perder um pouco este sentimentofilha.Perdemos tanto tempo.

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  6. Como sou espirita acredito que temos algumas coisas a passar e com algumas pessoas,portanto na familia é que está nosso maior desafio, amar e nem sempre sermos amados , ou pelo meno não como esperamos e acalentamos , mas com o disse Jesus ami o proximo como a ti mesmo ......adorei o post e realmente nos faz pensar

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  7. Eu creio que cada pessoa tem um olhar diferente para o outro, ninguém é igual ao outro, muitas vezes há também o fator afinidade, temos mais afinidade com alguém do que com outros...me lembrei da minha cunhada, todos sempre diziam que ela era uma pessoa difícil, uma pessoa que era meio casca grossa, mas comigo ela sempre foi boa e amiga. Tanto que quando ela faleceu eu sofri imensamente porque não sabia o quanto ela iria me fazer falta e sempre me lembro dela como uma amiga...então sua mãe com seu afilhado são assim, tem afinidades que não são explicados, apenas sentidos...bjossss

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  8. Postagem linda Elaine...O tempo nos transforma, as experiências vividas determinam nossos sentimentos em relação às pessoas e olha que a ingenuidade da infância faz esses sentimentos serem tão importantes como do seu sobrinho por ela. Ele não conheceu aquela que ela era, hoje ela é outra. Para essa vovó maravilhosa é muito mais fácil conseguir expressar amor por ele que é puro, não tem conhecimento das coisas não tão bacanas de como ela possa ter sido no passado...Antes tarde do que nunca para expressar afeto, mesmo que seja somente para uma criança, é uma forma de resgatar o afeto não vivido, não demonstrado em outros tempos. Bom que você percebe e fica feliz por ele e por ela também.
    E aproveite estes tempos de companheirismo entre você e ele, serão inesquecíveis para os dois, sempre!
    Beijos!

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