Antes que ele volte...

em 9 de agosto de 2015



Ela olhou pela fresta da janela. Deserta. Graças a Deus.
O frio que fazia lá fora com certeza desestimulara os vizinhos que gostavam tanto de papear na calçada quando a noitinha caía.
Ela olhou de novo a pequena sala, seus poucos móveis, quase todos com alguma parte quebrada.
As surras não deixavam marcas apenas nela...

No quarto ainda menor ela junta as coisas em movimentos lentos, doloridos.
Todo o corpo dói, mas isso quase nem é nada.
Doer realmente dói o coração.
Neste pequeno quarto ela pensara ser feliz. Nesta cama.
Mas aqui fora cenário de sua derrota.

Ela pega a foto presa no pequeno espelho: ela, aos 6 anos e a irmã, aos 4.
Olha para o seu próprio rosto inocente e sorridente: menininha, menininha, se você soubesse tudo o que estava reservado para você!

Mas agora não é hora de deixar tantas lágrimas cegarem e atrasarem a mulher que sucedeu à menininha. Ele em breve estará de volta.
Um tremor a percorre. Ele.

Recolhe uns poucos objetos, a foto, umas poucas roupas e enfia tudo na sacola azul.
O filhinho ainda dorme, sossegado depois de toda a gritaria da tarde.
Ela fita a criança: será mesmo melhor levá-lo? Sem destino, sozinhos no mundo, sem saber ao certo para onde ir...
Será mesmo que devo leva-lo comigo, meu menininho?

Que pergunta!
Ainda que vivesse na rua, jamais deixaria seu filho, seria como deixar sua alma. Pega a criança com toda a delicadeza.
Ele se aninha. ainda dormindo.
Graças a Deus. Olha o quarto pela última vez.

Na sala ela pára outra vez: como é difícil renunciar a um sonho!
Sonhara com uma casinha assim, pequenina, com um filhinho, com ele.
Sonhara tanto com ele, com esse amor...
Meu Deus, como tudo dera tão errado? Quando começou a dar errado?
Quando esse horror tomou o lugar do homem tão amado?

É tempo de ir, ela pensa.
Dá passos lentos, sente-se presa àquele lugar.
Tantas vezes imaginara ser feliz aqui. Tantas vezes estivera perto de ser morta. O filho se remexe em seu colo, é tempo de ir. Antes que ele volte. Ele...

O pequeno portão enferrujado range dolorosamente quando ela o abre.
Parece gemer de dor, como eu....
Vai, menina, deixe para trás tudo o que viveu aqui, vá!

Ela olha a casa pela última vez.
Um longo olhar de despedida.
Antes que ele volte...

*Créditos da imagem: http://amandacass.vc.net.nz/


Um conto extraído do meu blog de contos desativado.
Espero que você goste, querido leitor...
É uma faceta minha que deixei de lado mas que, assim como tudo no blog, é um pouco de mim...

Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

8 comentários , comente também!

  1. Pois é D.Elaine!
    Eu e tenho certeza outras amigas suas, sentem falta desse seu lado...mas tudo que vai, volta né?
    Saudades viu? Saudades de suas histórias...
    Um conto tão atual r verdadeiro!
    bjos

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  2. Lindo, sentimento refletido, sofrido .......
    Muito bom amiga.
    joturquezzamundial
    Beijos.

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  3. Lindo! Me emocionei ao ler: Eu vivi esta dor e só me libertei, quando tive coragem de gritar para o mundo! Você conseguiu descrever o drama de milhares de mulheres que sonharam em ter um lar, uma família linda e feliz e o que tiveram foi um grande pesadelo. Bom FDS e escreva um livro!

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  4. Lindo conto e tão bom quando os colocas aqui! Belo e profundo! bjs, chica

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  5. Eu adorei Elaine. O conto é uma denúncia que se torna cada dia mais pertinente, pelo menos em Portugal, ode todas as semanas há o relato de um homem que matou sua mulher.
    Um abraço e um feliz dia para vós.

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  6. É Elaine, situação de tantas mães, que conseguem sair. Outras tantas que perdem as forças e, se entregam ao triste final. Enquanto são de colo nós os levamos, quando crescem, nos limitam à sua vontade.
    Lindo, triste e infelizmente, muito real.
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  7. Oi Elaine, adorei o conto, sua personagem conseguiu sair do inferno, literalmente...Poucas conseguem...
    Escreva mais, você é boa nisso!
    Beijos!

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  8. TIRE A ALMA DA GAVETA E RETOME A VEIA DA IMAGINAÇÃO...VC ALIMENTA A NOSSA, SE ASSIM O FIZER...PARABÉNS...

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