A guerra do acarajé

em 18 de junho de 2015

Créditos da foto
Acarajé...
Você gosta? Conhece? Já comeu? Ou nunca viu nem comeu, só ouve falar?

Comi 1 vez na vida, e nem chegou a ser o legítimo acarajé, era uma feira que teve aqui na minha cidade, e havia uma barraca vendendo. Tinha barraca de tudo que era coisa, mas a baiana era daqui mesmo, falsa baiana rsrs
Mas o legítimo, aquele vendido nas barracas da Bahia, pelas baianas de saia rodada, iguaria de origem africana, com raízes no Candomblé,  só conheço de ver pela televisão...

Imagem daqui

Patrimônio do Brasil


Você sabia que o famoso bolinho de feijão é um patrimônio cultural do Brasil? Desde 2005, o Iphan acatou o pedido da Associação das Baianas de Acarajé da Bahia, estado onde mais se vende a iguaria de origem africana.

Com o decreto, ficou estabelecido que para que o fabricante possa utilizar o nome “acarajé”, ele deve ser feito apenas de uma maneira tradicional.
É a mesma coisa – guardadas as devidas proporções, é claro – que acontece com o Champagne e com a pizza Marguerita.
A receita original é a que vale.
Champagne, só o vinho espumante produzido na região de Champagne, no nordeste da França. Todo o resto é espumante.

Assim é com o acarajé, patrimônio cultural do Brasil.
Pode-se variar a receita de mil maneiras, mas acarajé de verdade, patrimônio imaterial e cultural do Brasil é aquele vendido por mulheres de branco, feito de feijão fradinho, sal e cebola, como é feito desde que pessoas vindas da África aportaram no Brasil (contra suas vontades, vale ressaltar).
A receita é simples, mas para conseguir fazer seus complementos direitinho – caruru, vatapá e etc – precisa-se ter quase tanta sorte quanto o vencedor da quina de são joão terá.

Mas apesar desta proteção legal, que tem a intenção de preservar o quitute tradicional, está acontecendo uma disputa fora da grande mídia.

Em tempos de intolerância religiosa o que mais está causando controvérsia é a venda do bolinho por mulheres que não usam a tradicional roupa de baiana e até mesmo o nome do quitute modificam, por causa da origem do alimento, ligada às religiões africanas, em especial o Candomblé.
Nas pesquisas que fiz achei relatos que datam desde 2005 quando o acarajé foi declarado patrimônio cultural pelo Iphan.... a guerra é antiga.

Nas ruas de Salvador, se você vir alguém vender o “Bolinho de Jesus”, saiba que é o acarajé feito por uma evangélica.


Além da recusa em vestir os trajes típicos, as vendedoras recusam o nome secular do alimento e as obrigações religiosas realizadas pelas baianas, já que o acarajé seria um alimento oferecido à Iansã.
Retira-se todo o aspecto cultural da tradição e transforma-o apenas em um produto comercial.

Conheça a história


Boneca baiana do acarajé, não é linda?
Com respaldo da prefeitura de Salvador e apoiada no Decreto n° 12.175, de 1998, a Associação das Baianas de Acarajé e Mingau - responsável pela fiscalização dos tabuleiros - exige que as profissionais do acarajé se vistam como baianas. Isso implica adotar as vestimentas do candomblé, como a vistosa bata de cartão-postal. Na segunda-feira, as cores das batas são livres, pois é dia de todos os santos. Na terça, deve-se usar azul em homenagem a Xangô. Na quarta, dia de Iansã, usa-se vermelho. Dizem que as mais ortodoxas estendem a norma cromática até as roupas de baixo. Tudo isso é inaceitável para as quituteiras evangélicas.
Fonte: Revista Piauí


Será que vale a pena perder esta tradição?
As Baianas tradicionais reclamam e prometem levar esta briga até a justiça, se for necessário. Querem que igrejas evangélicas, ou pessoas evangélicas,  parem de vender acarajé como “bolinho de Jesus”.

O acarajé, como eu disse,  é uma das mais famosas comidas típicas da Bahia e é dedicado, tradicionalmente,  à Iansã, um dos orixás do Candomblé.
É bem provável que a nomeação do alimento como “bolinho de Jesus” por parte dos evangélicos tenha sido motivada por pregações de pastores, e fortalecida pela vontade e/ou necessidade de abrir o mercado do acarajé para o crescente público evangélico.

Mas será que mudar o nome muda a natureza do alimento?
O problema da consciência religiosa ou o desejo de entrar em um mercado claramente sólido e provavelmente lucrativo justifica alterar o nome e agir na ilegalidade, já que o decreto municipal (que aliás terá fiscalização apertada na semana que comemora os 10 anos de sua criação, confira aqui a matéria) decreta que só baianas de acarajé que respeitam tradição terão licença garantida e podem comercializar o bolinho?


Lembro de um texto de Romeu e Julieta:
"E Julieta disse a Romeu : De que vale um nome, se o que chamamos rosa, sob outra designação teria igual perfume?"

O que você acha?

Ah, e se quiser uma receita original, olha essa:
http://www.oquecomerhoje.net/2012/06/receita-de-acaraje-completo-original-da.html

Dá vontade, né?

Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

8 comentários , comente também!

  1. Amiga, como baiana "legítima" que come acarajé no mínimo duas vezes por semana, acho que posso falar "de cadeira" sobre o assunto. Até artigo científico já escrevi (só não publiquei). E a coisa não é bem assim como você colocou, não. Sei que vc pesquisou bastante, mas a real é bem outra. Estou caindo de sono aqui, e não vou conseguir escrever agora, mas só digo que NUNCA vi nem ouvi ninguém vendendo "bolinho de Jesus". E as baianas só se vestem com a vestimenta tradicional pra "posar", porque a grande maioria (se não a totalidade) não está "nem aí" pras "obrigações de santo". Juro que amanhã escrevo mais, com dados de minha pesquisa de campo e tudo.
    Beijo, amo você!

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    1. Bel, eu até pensei em te perguntar, mas como o texto estava programado faz tempo e eu meio morrendo acabei esquecendo.
      Em uma matéria que li o repórter nomeia a igreja e as quituteiras, é vendido no pátio da igreja que ele menciona, coloquei o link da matéria.
      Também imagino que muita baiana de saia rodada usa mesmo como uniforme, sem as obrigações do Candomblé.
      Afinal, no fim das contas, é comércio.
      Né? rsrsr
      beijosss

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  2. Eu não vejo problema em evangélicos venderem o bolinho dando o nome de Acarajé. O problema é que não há como vestir-se de modo a homenagear orixás se você não tem essa fé. Nisso eu concordo completamente com as evangélicas, pois fé é algo pessoal, não imposição.

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    1. Cris, também acho que mudar o nome não muda a essência, se a preocupação for essa.
      Mas a prefeitura pelo que li pensa diferente, e tem a pressão de ser patrimônio imaterial...
      Enfim, eu queria mesmo era provar rsrsrs deve ser bom, né?
      bjssss

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  3. Eu só conheço de nome... Mas não acho certo trocarem o nome do bolinho. Se é Acarajé, tem q ter esse nome. E pronto. Trocar não muda como foram feitos e nem de onde vieram. Deveriam sim era procurar outra coisa para vender. Pois se o problema é dinheiro, tem outros quitutes que vendem bem. E olha: acho uma falta de respeito com a cultura brasileira trocarem o nome do bolinho... O que Jesus tem a ver com isso?
    bjos

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  4. Vi poucas pessoas em Salvador vendendo acarajé, exceto, no centro histórico. Fiz de tudo para meus filhos provarem, mas eles não se sentiram atraídos devido a higiene precária na maioria das barraquinhas, infelizmente. Acarajé, apesar de ser super condimentado, é muito gostosa e a maioria das vendedoras se veste com traje típico. Vale a pensa, em Salvador, experimentar.

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    1. Por isso mesmo, pela postura de "aparentar higiene", a quase totalidade aqui vende com uniforme, (camiseta personalizada 'acarajé da fulana' ou jaleco, + touca e luvas) e minha pesquisa foi sobre isso: "você prefere comer acarajé numa baiana vestida com roupas típicas ou num tabuleiro com pessoas uniformizadas?"
      No geral, as respostas foram:
      1. De baianos/moradores da Bahia: "Onde for mais gostoso, independente de como esteja vestida"
      2. De turistas: Na baiana paramentada

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