O avião e o teco-teco

em 16 de maio de 2015

Quando eu era mais jovem eu trabalhei em uma fábrica de calçados que não existe mais; éramos uns 80 funcionários, o que quer dizer que a fábrica era grande para os padrões da minha cidade.
Muitas meninas, muitos rapazes, então era natural que rolasse muita paquera.

Entre as meninas que trabalhavam na fábrica haviam 2 que ficaram muito amigas, trabalhavam na mesma mesa, moravam perto.Chegavam juntas, iam almoçar juntas, iam embora juntas e saíam juntas no final de semana.

Uma delas era bem bonita: longo cabelo castanho, até à cintura, com luzes e bem tratado. Pele bronzeada, cintura fina, olhos azuis, bunda bem feita, aquele jeito de andar que as meninas bonitas têm.
Charmosa, sabia flertar, paquerava e era paquerada por muitos dos meninos.
A outra menina era branquinha, cabelo louro liso, escorridinho, bem magrinha, parecia muito mais nova do que era, quase sem peito e bunda, sabe?
E tímida, daquele tipo que anda de olhos baixos, fala baixo, tentando passar despercebida. Bonitinha, mas comum.

A amizade entre ambas floresceu apesar das diferenças, ou talvez por causa delas já que é muito comum uma menina muito bonita ter uma melhor amiga mais comum.
Já percebeu que 2 mulheres extremamente bonitas raramente são melhores amigas uma da outra?
Há exceções, óbvio...

Pois bem...
Um dia vinham ambas chegando juntas do almoço e um engraçadinho tascou:
"Lá vem o avião e o teco-teco".
Eu não sabia mas era assim que os meninos se referiam à dupla.
Na hora todo mundo que estava perto riu. E francamente ainda hoje me lembro e acho graça.
A morena bonita riu com gosto. Achara engraçado. Lisonjeada, claro.
Mas menina loirinha não gostou nadinha, lembro que chegou a chorar...
A comparação, o apelido, o fato dela gostar de um menino que babava pela morena... tudo isso era doído, imagino...

O tempo passou. A fábrica entrou em crise em meados dos anos 90, e foram demitidos mais de 70% dos empregados. Cada uma seguiu seu rumo.

A morena bonita casou com um dos rapazes que trabalhava conosco, engravidara aos 16 anos, aos 19 tinha dois filhos. Separaram-se alguns anos depois. Ela acho que casou de novo, ou só juntou, não lembro ao certo.
Separou de novo e quando soube dela pela última vez tinha ao todo 6 filhos, a menina mais velha já com mais de 20 anos, linda. Lembra muito a mãe na mesma idade.
Que aliás continua bonita, daquela beleza bem atraente, que faz os homens virarem para olhar. Está mais cansada, menos vistosa, chegar aos 40 nem sempre é assim uma coisa fácil... Agora é caixa em um supermercado, acho.

Um dia, no mercado,  ela me disse que deveria ter estudado, mas com filhos pequenos nunca deu... e a vida não é fácil sem estudo... dinheiro curto, mora de aluguel, e com filhos pra criar...
Eu brinquei com ela, disse que ela levou à sério o lance do "crescei-vos e multiplicai-vos".
Ela riu, disse que a vida não foi bem como ela achou que seria.
Quase nunca é, não é?

A menina loirinha, tímida e quieta, é psicóloga. Estudou, casou perto dos 30 e tem um menininho, coisa mais fofa.

Por que estou falando da vida de pessoas que você nem conhece?
Porque me faz pensar.

Quando a gente é muito jovem parece que tudo é mais intenso.
Lembro o quanto a menina loirinha chorou no dia que soube que era chamada de teco-teco.
Tinha 15 anos, como não sofrer?
Você se lembra dos sofrimentos dos 15 anos?
Eu lembro... meu Deus, como tudo era tão intenso, tudo doía mais, tudo parecia o fim do mundo...

Mas o tempo passou para elas, passou para todos.
Cada uma seguiu a vida, e a beleza e charme da morena não acabaram, mas também não a fizeram crescer. Porque nem sempre basta ter belas asas...

A loirinha, ao contrário, estudou, se dedicou, construiu a vida. Deixou para trás o apelido de teco-teco, superou a zombaria, cresceu, e continua bonitinha, daquele jeito quieto de quando era menina. Psicóloga.

Hoje, quando eu vejo meninas assim tão novinhas sofrerem por causa de apelidos, de comparações com outras meninas, sofrerem por namorados que não dão certo, de amores eternos que acabam em 1 mês eu sinto vontade de dizer que tudo isso vai passar, e que no fim das contas nem importa tanto assim.

Importa crescer, estudar, ter vontade de se firmar, de aprender. As outras coisas? Passam. Seja aos 15, seja aos 40, tudo passa.

Porque no final, não importa muito se você é o avião ou o teco-teco.
Importa para onde suas asas apontam.


Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

13 comentários , comente também!

  1. Lindo texto e moral dele! Importa mesmo isso, saber voar e ter a consciência de que pode voar...bjs, tudo de bom,chica

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  2. Adorei o comentário acho perfeito eu era o teco teco e hoje estou realizada com a família os netos e o trabalho beijos Eliane Lima

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  3. Um excelente texto que nos obriga a uma reflexão sobre a vida e como a encaramos.
    Um abraço e bom fim de semana

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  4. Uma grande leitura, uma grande lição. Agradeço por compartilhar.

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  5. Que texto belo! E que bom chegar à conclusão de que a beleza está no olhar e não nos olhos. No poder voar e não nas asas!
    Amei!
    Obrigada por mais esse momento de reflexão, amiga!
    Beijos,
    Cris

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  6. Uma boa reflexão .
    Um lindop final de semana para todos..

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  7. Que bonito texto, Elaine. E a frase final é fundamental e diz muito: importa voar! beijo grande

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  8. Oi Elaine! ^^
    Eu nunca tinha me dado conta de que duas amigas bonitas é difícil de ver kkkk. Com certeza me enquadro no teco-teco kkkk, mas fico feliz que tudo passe e realmente quando somos adolescentes tudo é muito mais sofrido e intenso. Estou muito feliz por minhas "asas" terem apontado para onde apontaram.

    Há quero agradecer pelo carinho em compartilhar o meu post da tulipa de tecido. :*
    Amei ler o seu post me fez refletir em um monte de coisas. ^^

    Uma semana maravilhosa! Bjim

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  9. Olá, Elaine!
    Muito interessante, nunca ouvi semelhante comparação! Agora analisando, chego a conclusão de que eu era um avião pensando ser teco-teco...rsrs. Hoje não sou Psicóloga, mas sou professora e bem sucedida em minha profissão, ensinei e aprendi muito na vida! Talvez pudesse voar mais alto, mas minhas asas me levaram à altura de minhas escolhas! Parabéns pelo post! Bjs

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  10. Olá Elaine, nunca me senti avião, mas tinha muitos sonhos,
    que os perdi, por me cortarem as asas.
    Graças a Deus que tudo passa, hoje, liberta, tento
    me refazer, retomando sonhos, aprendendo que para voar,
    depende apenas de acreditar que se é capaz...
    Obrigada Elaine, tudo, mas tudo passa...
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  11. Oi Elaine, seu texto me fez pensar em máquinas do tempo e coisas parecidas. Tudo (nossos passos) depende de circunstâncias e como agimos diante delas, de maturidade, loucura, coragem, medo....
    Pena que não tem máquina do tempo para retornarmos ao passado e revermos nossos passos em tempos que realmente tudo é mais intenso...Assim é a vida, a gente sabe do que aconteceu, o contrário é só suposição.
    Ótima semana, beijos!

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  12. Oi Elaine,
    Adorei a história, ainda mais pq sempre estive mais para teco-teco do que para avião, mas soube, e ainda sei, me virar com o que tenho. Acho que é até melhor não ser a bonitona do pedaço, pois o que veio sem esforço, a gente não valoriza.
    Bjs

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  13. Olá,

    que lindo texto. Também sofri um pouco nos tempos de escola:(

    Bjs
    São

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