Meu guri

em 28 de fevereiro de 2015


Dia 27 meu sobrinho Luís Henrick completou 14 anos de idade.
É um menino gente boa, amoroso, esquentadinho, sensível, sentimental, teimoso, da paz e da alegria.
Escreve no Facebook naquela língua que só a galera entende, um "internetês" incompreensível pra mim...
Menino lindo, guri que eu amei desde antes de nascer, que lutou pra viver desde a barriga da mãe...

Também é um menino que mora na periferia (na maior Cohab da cidade), é negro (ou pardo como diz o censo), pobre, todos os amigos são pobres como ele, moram na periferia como ele, e são quase todos negros como ele.

Você já parou para pensar em qual é a realidade de um menino assim, com essas características, no Brasil?
Eu penso nisso, penso todo dia porque meu sobrinho lindo, que eu carreguei quando era um bebezinho, que me pede bênção sempre que me vê, que andou abraçado comigo hoje quando fomos na loja comprar o tênis que ele quis de presente... meu sobrinho é um garoto em situação de risco.

Esse ano teve carnaval de rua aqui na cidade. A prefeitura montou um palco na avenida, fechou uns quarteirões, foram 5 noites de carnaval.
Eu não fui, claro, detesto gente demais junta, som alto, folia.
Mas passeei de carro pelas ruas próximas, e em diversas ocasiões vi a mesma cena: um grupo de garotos descendo da Cohab, uns 6 ou mais, uns na faixa de idade do meu sobrinho,outros mais velhos, nenhum com muito mais que 20 anos.
E a polícia, ao passar de viatura pelo grupo, fazia a abordagem.
Você já viu uma viatura abordando  5 ou 6 garotos na rua?


É bem como a gente vê nos filmes: a viatura para, os garotos param, os policiais descem, e aos meninos é mandado que coloquem a mão na cabeça. Numa das vezes eles foram encostados no muro de uma revenda de carros.
E aí começa a revista.
É chocante de ver, acredite. Principalmente quando a gente conhece os meninos e sabe que são gente boa...
Vi policiais sacando arma, vi e ouvi a dura, vi o olhar de terror dos meninos.
Todos negros, todos.

Também vi grupos vindos de outros lugares da cidade, grupos de garotos brancos. Passei por muitos grupos, a polícia passou também, e em alguns pontos eles é que passavam por nós ou pela viatura.
Eu não vi, em nenhuma das 5 noites, em momento algum, a viatura  parar um grupo de garotos brancos, bem vestidos com camisetas caras e bermudas de marca.
Pode ter acontecido, mas eu não vi.

Mas vi as revistas aos garotos que desciam da Cohab, os garotos de cabelo cortado à moda dos funkeiros, com desenhos, cheios de estilo. Garotos negros, pobres, que moram em um bairro pobre da periferia. Exatamente a descrição do meu sobrinho.

Não sou ingênua, à ponto de não saber que muitos meninos da periferia são envolvidos com drogas, muitos roubam, sei disso.
Mas o primeiro assaltante que vi agir na vida era branco. E vi negros entrarem pra vida do crime, e vi brancos. Gente muito pobre entra para o crime, gente bem de vida também. Meninos muito pobres se tornam pessoas trabalhadoras, meninos bem de vida, também.

Mas vejo que ser negro e pobre,  em um país racista como o nosso, já é meio caminho andado pra ser olhado com desconfiança, pra ser observado, avaliado, revistado.
Um amigo meu, negro, uma vez me disse isso, que eu, sendo branca, loura de olhos claros, jamais saberia qual é a sensação ao ser acompanhado com o olhar sempre que entra em uma loja, por exemplo. Jamais esqueci porque ele sabe o que estava falando. Ele vive na pele, literalmente, o que eu só observo e imagino como seja...

Sei muito bem que ser pobre, ser negro, morar na periferia e andar com uma galera é sinal de alerta para as pessoas e para a polícia. O tratamento dado à um garoto negro e pobre é sim diferente do tratamento dado a um garoto branco em situação semelhante.

Não, não estou exagerando, estou falando de algo que eu vejo, e que se você tiver olhos para ver vai enxergar em cada notícia de assassinato que a televisão mostra.
Observe os mortos em ação policial, observe as vítimas de extermínio, observe a idade, a cor da pele, a classe social, o lugar onde vive... Jovens, da periferia, negros, pobres...
E isso não é só aqui...
Veja essa charge feita por um ilustrador americano:

Origem da imagem
E aqui a versão em português:


Realidades parecidas, em lugares tão diferentes...
Tenho medo desse mundo, tenho um medo enorme pelo meu sobrinho, tenho um medo imenso pelos amigos dele que vi hoje na festa de aniversário.
Meninos como ele, crianças em risco...

Mas para não terminar o post assim, nesse tom preocupado, eu prefiro deixar algumas imagens do meu sobrinho lindo, menino que eu amo tanto e que mudou tão pouco, pra mim, desde quando era um bebê.
Feliz aniversário, meu amor!



Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

9 comentários , comente também!

  1. Mais uma vez você fala por mim...o que sinto, o que penso, o que vejo...o que me aflige, o que emociona, o que me entristece...
    Impossível não olhar para essa situação e se sentir como você está se sentindo agora...
    Impossível não se sentir impotente frente a essa realidade tão cruel, que auto alimenta os pré conceitos e induz à baixa estima, ao segregamento, à falta de crença no futuro...
    Não sei o que te dizer...mas tenha certeza de que todos os meninos, assim como meus filhos, estão em minhas preces...meu sentimento por todos eles é o mesmo...
    Beijos e obrigada,
    Cris

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  2. Seu post é muito bom, um dos primeiros que vejo abordar a questão do racismo dessa forma. Bom, mas também não quero relatar nada, rs. E sim desejar feliz aniversário para seu sobrinho. E que ele, eu e todos nos consigamos sobreviver a esse mundo!
    Beijos, bom fim de semana
    sabedorianaoseiescrever.blogspot.com.br

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  3. Parabéns para seu sobrinho.
    Que Deus o proteja sempre das maldades, que nos preocupa demais.
    Não é fácil viver assim, sempre com medo.
    Beijos.

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  4. Oi, Elaine!
    Concordo com você. Tenho duas filhas adultas e brancas e o medo continua independente do gênero e da cor. Porque a violência vem por todas as partes. Quem deveria nos proteger, nem sempre o faz.Me parece que a polícia está sempre procurando ação onde não irão encontrar.
    Por ser brasileira e carioca, normalmente não gosto de comentar sobre violência porque quando se escreve sobre isso fica parecendo que só aqui acontece. E nós sabemos que não é bem assim.
    Então, um feliz aniversário para o seu sobrinho lindo e que Deus proteja a todos nós!
    Beijão, ótima postagem (como sempre)!

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  5. Um post muito bom. Uma pedrada no charco da indiferença geral. A nossa constituição diz e suponho que a vossa também, que ninguém pode ser descriminado pelo sexo, cor de pele ou religião. Mas na prática não é isso que acontece.
    Que o Senhor abençoe seu sobrinho e o proteja de más influências.
    Um abraço e os parabéns para o menino.

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  6. Lindo ele e horrível essa REALIDADE

    Que ele drible, veja ela mudar, seja parte da mudança, que cada um além da cor, classe social, rereligião, seja, pelo coletivo, pela transparência, multicores, por um mundo melhor.

    Que as raízes negras sejam parte das aulas dos pequenos aos grandes nas escolas, espaços culturaia...Não como coadjuvantes, não as mazelas, o cultural, o humano, o igual, o sem igual.

    Felicidades ao seu sobrinho!
    Como diz uma canção aqui da Bahia, terra recheada e margeada de negros e de preconceitos velados, "um abraço negro, um sorriso negro, traz: felicidade, negra é a raiz da liberdade liberdade".
    Amém e axé o/

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  7. Olá Elaine, já reli várias vezes este texto lindo, sobre um assunto que já abordou de outras vezes. Numa de suas abordagens vc disse qualquer coisa como "ser negro é carregar um ônus permanente", foi uma frase que me marcou muito, sobre a qual nunca tinha refletido e que nunca esqueci. Parabéns para seu sobrinho. Tenho um filho da mesma idade, tão criança ainda e não consigo sequer imaginá-lo sendo abordado por policiais. Beijo grande!

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  8. Oi Elaine,
    Quando eu era estudante de Direito, tinha um rapaz negro na minha sala, o Mané, que era muito meu amigo e hj é delegado. Ele anda mega bem vestido, muito mais bem vestido do que qualquer um dos brancos. Um dia ele me falou que negro tinha que andar bem vestido, pois se um branco desmaia na rua, todo mundo acolhe, vai ajudar, se um negro mal vestido, desmaia na rua, todo mundo desvia pensando que ele está bêbado. a chance dele se ser tratado como um branco era sendo melhor do que qualquer um deles. É injusto, continua sendo injusto, mas as coisas estão mudando.
    Bjs

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  9. Eu acho que temos duas coisas a pensar aqui. A primeira é de ordem prática, já que todos sabemos que o preconceito existe e não vai mudar só porque queremos (isso exige mudanças profundas que o nosso povo ainda não está preparado para fazer). A segunda é como nós, que não vemos o mundo dividido em cores, sexos, e religiões, podemos proteger nossos amados? Sejam filhos, sobrinhos, amigos. Somente conversando, expondo a realidade, falando sobre causas e consequências, na vida do dia a dia. A polícia pára grupos de meninos negros e pobres, é verdade. Qual é a melhor solução então? Conversar com os meninos para que não andem em grupo? Para que conversem com a polícia da comunidade em bases frequentes para se tornarem conhecidos? Cabe aos adultos encontrarem a solução.

    E coloco o dedo na ferida: muitas pessoas se revoltam com a polícia - que exagera é verdade em muitas situações, mas só quem passou perigo de vida e foi ajudado por ela sabe o valor desses que também são negros, pobres, que também moram na periferia, ganham pouco e colocam a cara pra bandido todo dia. Eu pergunto: alguém já foi conhecer a polícia da sua comunidade? Já entrou em contato com os delegados? Sabe quem é o responsável pela segurança do seu bairro? As pessoas sempre esperam mas não contribuem, isso também é triste. Quando a comunidade está alinhada à polícia, as coisas melhoram e muito. Mas pra isso, tem que sair do mundinho e ir lá, se apresentar, conversar, ver no que é possível ajudar, falar sobre os jovens que moram, estudam e trabalham e tudo mais. Isso dá trabalho e todo mundo quer uma polícia igual à do Japão sem fazer nada para contribuir.

    A família é a segurança que temos. Nela devemos expor a realidade do nosso mundo, falar sobre tudo o que acontece com nossas crianças, elas podem entender e ajudar a mudar a realidade.

    E continuemos a sonhar, com um mundo melhor, mais pacífico, menos violento, mais coletivo e menos individual. É a minha esperança.

    beijosssssss

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