Quando a Literatura infantil nos ajuda a combater o racismo!

em 7 de outubro de 2014


Como educadora infantil, literatura infantil e contação de histórias são duas de minhas maiores paixões.
Há poucas coisas no mundo capazes de me dar tanta satisfação quanto o processo de escolher um livro, montar uma estratégia de leitura, sentar com as crianças no acolhimento de minha sala, iniciar uma contação de história e observar como cada criança vai absorvendo e dialogando com ela.

Por esses dias o Brasil foi palco de um espetáculo lamentável de racismo e intolerância protagonizado pela torcida do Grêmio.
E eu acredito que não basta perceber o preconceito, é preciso denunciar e lutar contra ele.
Por isso a atitude do Aranha se tornou louvável, ficar calado NUNCA resolve nada.
Preconceitos e intolerâncias são frutos maduros e bem cultivados da falta de conhecimento e de uma educação deficiente responsável por não dar visibilidade à diversidade étnica e cultural que compõe aquilo que chamamos de humanidade.

Como educadora reafirmo todo dia meu comprometimento em lutar contra essa ignorância e a contação de história se tornou, além de uma pequena dose de prazer no difícil mundo da educação, um instrumento de luta e combate as opressões que massacram a mim e aos meus.
E não é um acaso do destino que ao longo dos anos tenho tomado o cuidado de buscar e utilizar na minha vida de "Tia" livros nos quais personagens negros e negras estão bem visíveis e são protagonistas.

Bem, resolvi compartilhar aqui meu Top 4 de livros infantis mais fofos, queridos e amados de todos os tempos. Aqueles que me ajudam a combater o racismo no meu dia-a-dia e talvez ajude também a quem é mãe, pai, tio, tia, professor, professora a fazer o mesmo.



"A cama da mamãe", escrito pela canadense Joi Carlin e ilustrado pela venezuelana Morella Fuenmayor, é um livro no qual se conta como uma adolescente, um menino peralta e uma menina travessa se relacionam com a cama de sua amorosa mãe.

Gente, cama de mãe é o mais maravilhoso e encantador "melhor lugar do mundo" e o livro da Joi Carlin faz jus ao tema. O livro exala ternura, e apesar das autoras não serem brasileiras, tem a cara da família brasileira: um tanto mestiça, longe dos padrões europeus, afetuosa e centrada na figura materna.

Aliás, um ponto chave desse livro é a ausência de uma figura paterna. A família retratada nele sofre de uma ausência de pai gritante. Sempre que leio esse livro me pergunto: "Cadê o pai dessas crianças? Onde ele foi parar?". Aliás, também faço essa pergunta quando olho para as minhas crianças, me ocorre sempre que mães não colhem filhos nos repolhos da horta e nem são as cegonhas que os trazem. Afinal, onde os pais se escondem?



"Tanto, tanto!", da americana Trish Cooke ,e ilustrado por Helen Oxenbury, é um  tesouro!
Nele é contada a história de como uma família se reúne para festejar o aniversário do Papai, mas ele não é a estrela da festa, o pop star festejado por todos é o filhinho. Cada familiar que chega - tia, tio, primos, avós e etc. - cumprimenta o bebê brincando, dançando, colocando ele no colo e dando todas as formas de amor possíveis e imaginárias.

Todos os personagens de "Tanto, tanto!", são negros e não é raro que uma das minhas crianças identifique seus parentes nesse livro; aliás acho esse momento da identificação mágico. Em todos os meus dias de criança nunca li um livro no qual eu pudesse identificar meu pai em um personagem! Meu pai e sua cor estavam ausentes dos meus livros, mas os pais de minhas crianças não estão. Sim, as coisas mudaram e jamais serão as mesmas!



"Eu não sei de qual África veio o meu bisavô!" do mineiro Tadeu Costa reflete a situação dos brasileiros em geral em relação a nossas origens africanas. Nós sabemos a quantidade de sangue africano que percorre nossas veias, mas quantos de nós seria capaz de responder a pergunta titulo do livro?

Não sei, porém suspeito que "poucos e menos ainda" seriam capazes de falar a respeito da parte da África da qual vieram nossos ancestrais.

A personagem principal de "Eu não sei de qual África veio o meu bisavô!"é a menina Clara, através dela o Tadeu conta um pouco da história de como e porque africanos atravessaram o Atlântico e se fixaram no Brasil. A narrativa vai em linhas gerais do Brasil Colônia até os dias atuais com graça e sem cansaço e o  livro vem com as referencias bibliográficas que ajudaram o autor a escrever o livro. #MuitoAmor



E por fim, um dos meus maiores xodós de todos os tempos, o lindo "Madiba: o menino africano" de Rogério Andrade Barbosa, ilustrado por Alarcão.

Nelson Mandela foi o orgulhoso detentor de uma história de vida das mais marcantes e significativas do planeta Terra no século XX. Ele enfrentou um dos mais severos regimes de segregação racial do mundo, o apartheid, saiu disso sem ódio, se tornou presidente de seu país, a África do Sul e se tornou amado.

Honestamente, acho essencial contar sua história em sala de aula já na primeira infância; cada criança deve crescer sabendo que dificuldades não são limites e sim desafios a serem superados.

Esses são apenas os meus "Top 4", um pequeno pedaço de uma vida chamada "Colecionar livros, contar histórias, lecionar, amar a educação infantil, a literatura infantil!

Ah, a respeito do racismo e das desigualdades, só para concluir sem concluir: "com alaridos, voz de arcanjo e a trombeta de Deus" e silenciosamente; em meio a multidões e com uma duzia de crianças; correndo como a lebre e caminhando lentamente como a tartaruga, nós, os que desejam um mundo mais justo, apesar dos pesares, estamos na luta! Um mundo mais justo virá, isso para mim não é promessa é profecia!

Estou em minha Telemaquia, ou seja: "Em busca da Taça de Ouro trabalhada a Fogo"

7 comentários , comente também!

  1. Que delícia ler esse post, adoro ler para meus filhos desde sempre!!! Com isso eles têm o hábito saudável da leitura, adoravam ir a livraria comigo, é uma verdadeira festa!

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  2. Olá Pandora!
    Como educadora da EJA uso muitos deses livros (mostrados na postagens e sintetizado por vc) que estão disponíveis na escola. Foi assim que surgiu o Momento de Ouvir: faço a leitura de algum texto, conto, reportagem...e deixo os alunos expressar suas opiniões e conhecimentos sobre o tema.
    Leitura é fundamental em qualquer idade.
    Abraços!

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  3. Parabéns pelo texto, porém devo confessar que ler o termo 'tia' em destaque é para mim sinal de descaso e exprime amadorismo a uma profissão que está entre as mais importantes para a emancipação de um povo. Um médico não se forma para ser chamado de 'tio' lá na frente, uma economista não se forma para ser chamada de 'tia' no futuro, tão pouco um advogado. Do mesmo modo, não investi e invisto na minha formação para ser chamada de 'tia', sou professora, especialista em educação, o meu trabalho não é qualquer pessoa que faz, e o termo 'tia' infelizmente desvaloriza o papel do profissional. Uma pena.

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    1. Olá Sofia!

      Em primeiro lugar eu agradeço por sua colaboração em forma de comentário. Devo dizer que compreendo que você ache o termo "tia" incomodo e agradeço por sua problematização, você verbalizou as questões que as aspas, o negrito e o itálico com os quais cobrir o termo no meu texto quando me referir a mim estão assinalando, eu deveria ter colocado uma nota de rodapé explicativa foi realmente um lapso de minha parte.

      Mas, já que você confessou/desabafou o seu incomodo com o termo “tia”, me sinto também à vontade para confessar o meu incomodo com o termo "Professor", honestamente não me sinto a vontade com essa identidade. Como você deve saber, a palavra professor vem do latim “profiteri” e significa "professar". Como disse no inicio do texto, eu prefiro falar/escrever como EDUCADORA. Não sou uma “proferidora” de qualquer coisa que seja, não passei quatro anos e meio em uma graduação e mais dois em um mestrado e estou lutando com um projeto de doutorado para professar verdades por ai. Aprendi no meu processo de graduação e pós-graduação que fazer ciência não é proferir verdades e sim buscar o conhecimento e é assim que procedo em minhas salas de aula. Gosto de pensar em mim como uma pessoa preocupada em viabilizar o processo de ensino e auxiliar as crianças/adolescente no seu processo de aprendizagem. Eu gosto de compartilhar conhecimentos e não de professar verdades, se com essa postura pareço amadora, o que se pode fazer além de assumir o ônus?!?


      Uma vez mais obrigada por sua atenção, cheros, Pandora!

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  4. Dicas anotadas, obrigada. Não tenho filhos, mas tenho uma sobrinha de 5 aninhos que adora um livro!

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  5. Bom saber que tem pessoas que se interessam em desde cedo ajudar a combater esse mal que é o preconceito. Muito legal você escolher esses tipos de leituras!

    Blog do Sofá

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  6. Oi Elaine! Excelentes dicas de leitura e li muito dois desses livros com meus alunos e filha quando pequena: Tanto,tanto e Não sei de qual Africa...maravilhosos instrumentos de reflexão e debate em sala de aula! bjs,

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