Sobre fazer justiça com as próprias mãos

em 10 de fevereiro de 2014

Há alguns anos aconteceu um crime na cidade de São Carlos: uma mulher matou o adolescente de 15 anos que havia acabado de estuprar o filho dela, de apenas 3 anos de idade.
Na época a polícia prendeu o adolescente em flagrante e o encaminhou para a  delegacia, e num caso absurdo de descuido o deixou sozinho por alguns minutos, na sala com a mãe da vítima.
Ela disse à polícia que assim que ficaram a sós o adolescente riu e murmurou: "num vai dar nada, eu sou de menor".
Ela avançou sobre ele e passou-lhe uma faca na garganta.
Foi socorrido mas morreu.
Ela foi presa,  acusada de homício qualificado.
Foi levada à juri popular e absolvida em 2 instâncias.
Está livre.
Leia sobre o caso.

Há alguns dias, no México, uma jovem foi abordada na rua por 2 homens armados com facas e obrigada a entrar em um quarto com ambos.
Lá foi estuprada por um dos homens, enquanto o outro saía para dar retaguarda.
Num momento de distração do estuprador ela pegou a faca com a qual ele a ameçara e o esfaqueou até mata-lo.
Está presa, acusada de assassinato.
Há uma grande mobilização pela libertação da moça.
A campanha se chama "Eu teria feito o mesmo".
Leia aqui sobre o caso.

Recentemente tem sido mostrada na televisão o caso dos 'justiceiros' que amarraram a um poste um suspeito de ser assaltante. Amarraram-no nu, bateram, havia corte de faca na orelha. O rapaz tem 15 anos.
Leia aqui sobre o caso.

Eu poderia fazer uma lista imensa só com casos assim.
Poderia falar do absurdo que é pessoas cercarem uma delegacia tentando linchar um suspeito.
Poderia falar dos casos de policiais que despem a farda e vestem a armadura de milicianos para punir suspeitos.
Poderia falar de jornalistas que dão voz a uma parcela muito significativa da sociedade, aquela parcela que vive aterrorizada porque não há lei que garanta a segurança de ninguém.
Poderia falar sobre o que as pessoas sentem quando a televisão noticia que presos estão matando presos em presídios.
Uma parcela da sociedade que repete o mantra "bandido bom é bandido morto"...

Francamente?
Eu não tenho opinião definitiva sobre o assunto. Sinto meu coração muito dividido...

Eu entendo e acredito que punições devam ser aplicadas pelo Estado de direito e não por milicianos, cidadão enfurecidos, jovens ricos em suas motos ou grupos de extermínio.
Mas percebo também que quando o Estado está ausente o espaço sobra. E se está sobrando logo pode ser preenchido por um grupo que se julga no direito de punir.
E logo a punição vira vingança.

No caso da mãe que matou o estuprador do filho pequeno: se o filho fosse meu, e no calor do momento, eu faria igual.Talvez fizesse pior.
Mas assim como estou, distante, sentada em uma casa tranquila, escrevendo esse texto, sem filho estuprado, eu raciocino e penso que se há vingança não há justiça; penso que a pessoa precisa acreditar na justiça.
Mas repito: estou aqui, calma e tranquilamente escrevendo sobre o assunto, e não vivendo a dor.

No caso da moça estuprada que matou o estuprador: penso que se fosse eu, faria igual. Ou faria muito pior se tivesse chance.
Mas não fui eu, não era eu que estava nas mãos de um estuprador, e não era eu que tive a chance de me defender com uma faca.

Então eu penso que ela poderia ter confiado na justiça, no Estado de direito, a quem de fato cabe prender, julgar e punir...
Mas eu estou aqui, sentada, apenas escrevendo... e não toda ferida, no corpo, na alma e na dignidade de mulher.

No caso do rapaz espancado e amarrado ao poste: quem já passou por um assalto, ou por um sequestro, quem já teve a família na mira de uma arma, quem vive todo dia o medo e a insegurança, e o terror... ah... quem vive isso pode pensar: 'bem feito'...

Talvez se fosse eu a assaltada inúmeras vezes, a sequestrada, a ferida, ou aquela que teve pessoas queridas assassinadas em casos de assalto com vítimas... talvez eu pensasse a mesma coisa, e sentisse por um momento que sim, é merecido, é justo. E que bandido morto não rouba, nem mata.

Mas eu estou aqui, apenas escrevendo sobre isso, sem nunca ter passado por assaltou ou sequestro, ou ter tido alguém querido vítima de assassinato.
Então eu digo com convicção que não, que não se pode fazer isso com uma pessoa, não importa se ele matou, assaltou, aterrorizou.
Ao Estado cabe a função de prender, julgar e punir.

Mas veja bem: eu estou aqui, sem nunca ter sido aterrorizada assim.
Apenas uma vez na vida fui furtada em um circulador de ar...
Então realmente não sei dizer como agiria.
De cabeça fria, em relativa segurança, sem a dor e sem o terror, eu digo que justiça e vingança são coisas quase que opostas.
Penso que a sociedade caminha para a tragédia quando o Estado é ineficaz em punir e o cidadão se sente no direito (e até no dever) de fazer justiça com as próprias mãos.
Aqui, pensando sobre o assunto eu digo que jamais iria para a porta de uma delegacia gritar e tentar linchar um suspeito.
Digo que jamais seria capaz de ferir um adolescente, ferir uma pessoa... seja ele bandidinho ou bandidão.

Mas tudo isso eu acredito e digo aqui, sem estar vivenciando a dor dessas coisas todas.
São apenas conjecturas.
E desejo, do fundo do coração, que nunca passem de conjecturas.
Porque eu não sei até onde minhas convicções me sustentariam.

Penso que a justiça deveria ser feita sempre.
Mas não é isso que acontece.
E onde não há justiça começam a surgir sentimentos de vingança. E todos nós sabemos que justiça e vingança são coisas muito distintas...

Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

22 comentários , comente também!

  1. Elaine, que texto maravilhoso!!
    Amei várias partes do texto. Realmente é muito difícil saber o que faríamos sem estar passando por aquele momento. Mas penso que se todo mundo resolver fazer "justiça" com as próprias mãos, vamos ficar numa situação pior do que já estamos.
    Vamos viver uma barbárie.
    Eu também acredito que não faria essas coisas, pois sou escrivã e quando o preso chega machucado (o que acontece na maioria das vezes quando é preso por populares), independente do que tenha feito, eu sempre fico com dó. Não acho certo. Coisa minha.
    Mas como você bem ponderou, é complicado julgar, porque só estando na situação pra saber o que faria.
    Bjoka e ótima semana!!

    ResponderExcluir
  2. Amiga, aplaudo teu texto. É isso mesmo: no calor da raiva, a gente vira bicho. Quem não souber se defender ou quem não quiser defender seus afetos, não tem sentimento. Isso é uma coisa, uma explosão ou implosão na hora da dor. Outra coisa bem diferente é aceitar que a sociedade se organize para aplicar a lei do olho por olho,dente por dente. Nunca se pode ser a favor de linchamentos, porque na hora em que a gente quer fazer isso contra um bandido, significa que a gente está fora dos eixos, cega de raiva.

    O risco de se se matar um inocente é tremendamente grande. Ou se confundem os rostos, ou se compram testemunhas para dizerem que viram o que nunca presenciaram, e um inocente morre. Não dá para ser a favor da justiça com as próprias mãos, embora a gente saiba que o nosso lado animal fala alto na hora do desespero.

    um beijoooo

    ResponderExcluir
  3. Elaine. Eu estava me preparando para falar também sobre a insegurança que estamos vivendo. Enquanto os políticos se embriagam com o poder, nós nos sentimos impotentes, assustados e acuados como animais no corredor de execução num abatedouro de um frigorífico. Até os parentes do governador do estado já sentiram na pele, o lado negro da força que invadiu o país inteiro! Até quando, viveremos esse caos? Abraços.

    ResponderExcluir
  4. Oi Elaine,

    Eu não gosto de sentimentos de vingança, graças a deus não presenciei por momentos assim, mas abomino violencia de qualquer espécie.

    bjs

    ResponderExcluir
  5. Elaine, seu texto é de muita reflexão.
    Como sempre, muito bom.
    Uma coisa sou eu viver a situação e a outra, sou eu julgar sem nunca ter passado por nada igual.
    Bem diferente as opiniões.
    Xerossss

    ResponderExcluir
  6. Oi Elaine !!
    Menina, realmente é uma questão muita polêmica , eu particularmente não sei qual seria a minha reação, pois as vezes falamos e na hora H não temos a reação que esperávamos , mas esquecendo o lado da reação , o caso é que estamos a merce dos bandidos , dificil opiniar em uma situação dessa, de um lado um sistema de segurança cada vez mais caotico e por outro a sociedade cansada de ver todos os dias as mesmas notícias , é como uma panela de pressão , chega uma hora ou você abre ou ela acaba explodindo ...Infelizmente é a maneira que a população está achando de fazer justiça !
    Bjkas!!

    ResponderExcluir
  7. É polêmico mesmo esse assunto.
    Ficar com dó de bandido machucado?? Eu tenho dó da vítima!
    E se a vítima for meu filho, estuprado?? E ainda o maldito vem fazer gozação?
    Mesmo vendo a cena dessa distância não consigo pensar nessa sensatez toda...

    ResponderExcluir
  8. Oi Elaine! Esse é um daqueles assuntos que cada um tem a sua opinião. Eu tb nunca passei por um terror destes, mas tenho certeza absoluta de que se a minha filha fosse estuprada, e eu tivesse a chance de matar o bandido, mataria. Se invadissem a minha casa para barbarizar, me defenderia do jeito que desse.

    Eu acho que a população é hipócrita: de um lado se diz cansada desse tipo de ausência da justiça, de outro comete suas corrupções. De um lado, mete a boca no governo, de outro, continua votando nas mesmas pessoas.

    O problema é maior do que aparenta. Eu acho que é um problema moral do país inteiro. Enquanto os bons não forem maioria e se manifestarem, vamos continuar no cada um por si.

    bjs

    ResponderExcluir
  9. Olá Elaine,
    Ainda ontem à noite falava sobre isto com meu marido. Ele ainda não tinha ouvido falar sobre esses grupos "milicianos", que fazem justiça com as próprias mãos. Felizmente ainda vivemos num país seguro, onde se pode viver a cidade, como eu digo, sair a pé para qualquer lado, sem ter que estar constantemente a olhar por cima do ombro. Concluímos que se nos deixarmos ir pelo caminho dos "milicianos", o Brasil qq dia estará numa guerra civil. Mas é dificil se posicionar, pois como vc disse, e bem, uma coisa é julgarmos, outra é passarmos por uma situação de violência extrema, que geralmente acarreta traumas para o resto da vida, e destrói famílias. Bj, belo texto que vai abrir debate.

    ResponderExcluir
  10. Oi Elaine, complexo esse assunto, realmente o não sabemos de onde vem essas "flechas" é o que mais me assusta, se vem de crime organizado, do povão enfurecido, de grupos políticos...
    Só sei que se não olharmos para a raiz social dos problemas a coisa vai ficar cada vez mais feia, não acredito em salvadores da pátria, o ser humano é altamente corruptível e política não é feita sem mazelas, não se governa por decreto a não ser no militarismo, só que aí a tortura acontece nos porões.

    Um abração, espero que esteja mais descansada e animada!!

    ResponderExcluir
  11. Oi Elaine, é a Vi, você falou muito bem, somos indiferentes a dor alheia, até sentir ela no nosso coração, na nossa alma..
    Me lembro quando pegava a Lia na escola, e um dia ela demorou muito para sair e quando saiu estava aos prantos, o sangue subiu, e na hora só pensei em estrangular a professora, e com certeza faria isso, se a Lia não tivesse falado que ela ficou presa na classe por descuido dela mesma..
    A verdade é uma só, quando acuados, agredidos, violentados, é que passamos a nos conhecer melhor, saber do que somos capazes, dizer que não faria algo, quando nunca sentiu a água bater no traseiro, é muito facil.
    Um Estado inoperante, com leis frouxas, geram mais violência ainda, porque as pessoas não acreditando na existência de uma justiça, passam fazer justiça com as próprias mãos.
    Mas tudo que estamos vivendo era previsível..
    Muitos beijos,Vi

    ResponderExcluir
  12. Elaine como sempre, sua colocação e postura muito sábia, só se pode avaliar um sentimento ou emoção, quando se está vivenciando a situação. Acho providencial seus comentários, nos faz repensar as nossas ações. Abraços carinhosos

    ResponderExcluir
  13. Um texto para se pensar, refletir! Eu, tbm aqui no aconchego do meu lar, sem sofrer as dores de quem já passou por tal situação, penso que a justiça cabe aos governantes que tem o poder para tal, mas se esses não resolvem sobra para os cidadãos enraivecidos fazer justiça com as próprias mãos, mas não posso me esquecer da justiça divina, essa não falha nunca e por isso, penso que se o Estado não resolver não cabe a mim ferir ou tirar a vida de ninguém por pior que ela seja, eu acredito que Deus tomará conta dela e de mim tbm!
    Bjs e boa semana!
    www.viveraprendendo.com

    ResponderExcluir
  14. A revolta é com a violência, mas principalmente com a omissão dos governantes que poderiam mudar essa situação, e pelo que temos acompanhado, parece que estão tão imobilizados quanto nós. Aí eu pergunto: quais interesses poderiam estar envolvidos nessa reação?(Porque nunca se pode prever do que eles são capazes, não é?) Parabéns pelo texto. Bjs.

    ResponderExcluir
  15. Maravilhoso esse texto. É muito difícil julgar uma situação dessas, só quem viveu sabe. Mas penso como você, se a coisa chega a esse ponto é porque as pessoas já não se sentem protegidas pela lei e isso é muito triste.
    Beijo
    Lory

    ResponderExcluir
  16. Oi Elaine, no caso da mãe do garotinha eu teria feito a mesma coisa que ela, assim como da moça violentada. Ainda falo mais, não teria nenhum tipo de arrependimento.
    Na minha opinião, a justiça com as próprias mãos pode não ser o correto, mas do jeito que a nossa justiça está, onde só os bandidos tem direito, este é o sentimento e o resultado da população cada dia mais encurralada vendo seus entes queridos morrendo e sabendo que ninguém será penalizado.
    Se tivéssemos lei, onde os marginais realmente pagassem por seus crimes, não teríamos atitudes desta. Mas como explicar que o monstro que violentou seu filho vai ficar livre pois o mesmo é menor? Ou que o homem que violentou a moça vai ficar apenas 5 anos, ou quem sabe em liberdade mesmo, enquanto a moça teve a vida destruída? Isso não tem explicação, e quando a justiça não protege estes cidadãos, a razão acaba indo embora.
    Bjs, Rose.

    ResponderExcluir
  17. Elaine,
    Eu como espírita q sou, não acredito nessa frase: "bandido bom, bandido morto". Acredito que todos têm um lado bom e um lado mal. Deus nos deu o livre-arbítrio para seguirmos o caminho que escolhemos para nós mesmos... Falo por mim, pois quase fui "estuprada"... Graças a Deus, consegui saltar do carro em movimento e me ralei toda, mas saí ilesa... Mas em minha vida, fiz coisa pior, por necessidades que hj sei, não seriam tão "necessárias" assim... Hj estou pagando por tudo aquilo que vivi; no caso, lei de ação-reação, mto pregada pelo espiritismo. Seu texto amiga, é de uma sensibilidade e tanto... Eu concordo com vc, que é preciso viver o momento, para se ter uma reação... E que a justiça precisa ser feita... Mas isso no Brasil é uma coisa muito lenta e complicada. O que vale em outros países, não vale a aqui e vice-versa...
    Mas essa história de vingança, de justiça com as próprias mãos - não acho correto; mesmo pq o que o Mundo está necessitando ultimamente é de AMOR. E não de ódio, vingança e afins...

    bjos da amiga :)

    ResponderExcluir
  18. Vingança e Justiça sao bem distintas,mas razao e emoção,as vezes no calor da emoção se perde a razão,as vezes cansamos da cegueira da justiça ou da inercia da policia,quando o Estado nao cumpre a sua parte ,para o que ela e´paga com o meu o seu com o nosso dinheiro ,voce se ve na frente do perigo,ou a frente de alguem fragil,seu instinto vai fazer se certo ou errado,quem vai julgar,você,eu a justiça.

    ResponderExcluir
  19. Bom dia, Elaine! Puxa, vc conseguiu colocar muito bem. Justiça, vingança, ineficiência do Estado em garantir segurança. Compartilhei, merece ser lido! Bjs e boa semana!

    ResponderExcluir
  20. PQP!!! Desculpe começar o comentário com um palavrão... mas você disse TUDO, pra variar! Penso exatamente como você, porque cá entre nós é bem mais fácil quando estamos sentadas, sem ter passado por aquela dor, dizer que o outro fez errado, ou quis tomar o lugar do Estado! =/ Quem não faria o mesmo passando pela situação de verdade???? Aff.. confesso que tenho muito medo... peço proteção a Deus para minha família, para os filhotes, os amiguinhos... Não consigo pensar em situações desse tipo. E também não tenho uma opinião tão "definida" assim, exceto a de que eu NUNCA imaginei algo assim... e não sei que reação teria! Mas acho que faria o mesmo sim... =/

    ResponderExcluir
  21. Perfeito, parabéns. Belas palavras, acredito que muita gente ao ler se identificará ou se identificou nem que seja com algum paragrafo escrito. Aprecio muito, textos que nos remete a imaginar, que toca a alma e que acima de tudo incentiva-nos a opinar . E o seu se enquadra nesses quesitos.

    ResponderExcluir

Olá! Muito obrigada por ler meu blog e obrigada também por se dispor a comentar meus posts. Seja muito bem-vindo(a)!

Importante!
Devido à falta de tempo hábil eu não me comprometo a responder perguntas referentes aos tutoriais postados neste blog.
Pedidos de ajuda individual serão respondidos conforme o meu tempo e disponibilidade permitirem.
Por favor, entenda: comentários sem relação alguma com o post não serão liberados e nem respondidos.

Para saber mais sobre a melhor forma de utilizar este blog leia Termos de uso do blog.



Muito obrigada, fique à vontade para interagir.
Mas lembre-se:
Gentileza, educação e boas maneiras servem também para a vida nos blogs…