Apaixonado

em 23 de julho de 2011

Ele a conheceu em uma linda manhã de setembro.

Ela já havia estado no ateliê, chegada através de um anuncio gratis nos classificados do pequeno jornal semanal da cidadezinha interiorana. Mas ele então era apenas um lindo pedaço de tafetá branco.

Na segunda vez que se viram algo nele já sugeria o que ele seria, a forma que teria. Quando a costureira deslizou-o pelo corpo dela ele sentiu o calor que emanava da pele sedosa. Ela, sentindo talvez o quanto este primeiro contato era importante para ele, deslizou as mãos suavemente pelo tecido macio. “Vai ficar bom, não vai?'” Claro que vou, ele quis responder. “Claro, minha querida” repondeu a costureira. Quando ela se foi ele sentiu-se sozinho e abandonado. Deixaram-no na caixa, apagaram as luzes, era noite. E ele sonhou com ela, com o toque de sua pele quente e macia, o contato dos seus dedos longos.

Quando se viram pela terceira vez ele estava ainda mais ansioso: agora ele já tinha forma, tinha lindos bordados, trabalharam nele por muitos dias, furaram-no e alisaram-no tanto que chegara a doer. Mas valia cada sensação ruim, afinal ele era dela, e por ela faria tudo. Ao vesti-lo ela ficou feliz, radiante de tão feliz! “Ah, que lindo!” Ele sentiu-se realizado. “Aperta mais um pouquinho aqui?” ela pedia…

E os dias foram se sucedendo… até que uma tarde vieram buscá-lo com um cuidado maior. Última prova, ele ouviu. Seu coração disparou: como assim? última? Nunca mais? Quis gritar, pedir a ela que não o deixasse, que viesse mais vezes, que  não o abandonasse…quis gritar que morreria sem o toque da pele dela. Ela o vestiu, ou melhor, vestiram-na com ele. Ela estava nervosa, será que sentia a última vez? “Tem certeza que não precisa apertar?” parecia pedir por mais um encontro. Ela sentia o mesmo que ele!!! Será que não viam? “Não, está certinho. Apenas não emagreça ainda mais”. E ele teve certeza que ela sofria por ser a última prova, a derradeira vez dos dois.

Então o pegaram e o puseram em uma linda caixa. Fecharam. Ele foi levado. Sentiu-se chacoalhar, depois sentiu-se acomodar. Abriram a caixa: era ela! Ela o levara consigo! Ah, como ele estava feliz! Feliz! Então, dois dias depois ela reapareceu. Ainda mais linda do nunca, a pele macia com cores e brilhos novos, os lábios pintados e os cabelos arrumados. Uma mulher mais velha, parecida com ela, o pegou e o vestiu nela. Ah, ela nunca estivera tão linda… Entraram juntos em um carro. Depois desceram. Um homem a ajudou a sair, o mesmo que a ajudara a entrar. Cuidadoso: “Olha o vestido, filha!” Sim, todo o cuidado com ele, gostavam dele… que felicidade!

Então o homem a segurou pelo braço e caminhou com ela por um enorme corredor ladeado  por muitas pessoas que ele nunca vira. E que nunca o viram: “Que lindo!”, “Que vestido maravilhoso!”. Ele estava feliz. Então pararam, um outro homem sorriu para ela, alguém disse muitas palavras, nenhuma sobre ele. E o homem que sorriu para ela caminhou com ela de volta pelo mesmo corredor imenso. Entraram no carro, ele a beijou. Quem era ele?

Então houve uma festa. Todos diziam que ele, o vestido, era lindo. Algumas pessoas até o alisaram, tocaram. Ele se encolhia, com receio de ficar sujo e desgostar à ela. Depois foram embora, a noite já ia alta. Chegaram a um quarto estranho. E o moço sorridente a segurou nos braços. Que bom, o vestido pensou… ela está cansada, eu acho… E o moço sorridente a levou até a cama no meio do quarto. Começou a desabotoar o vestido, entre beijos. Ele, o vestido, estremeceu ao sentir-se afastado da pele dela. Foi tirado e colocado em uma poltrona. As luzes apagaram.

Na manhã seguinte ela acordou tarde. Olhou para ele com amor, o mesmo amor de antes, talvez mais. Pegou-o, encostou nele o rosto. Uma lágrima rolou, uma lágrima de amor. Ele, o vestido, também chorou. Tivera tanto medo de perdê-la, mas ela estava de novo com a atenção nele. Caminhou com ele até um enorme armário e lá o pendurou. Fechou as portas, e ele ficou sozinho, no escuro. Roupas estranhas o olhavam do outro lado do armário.

Nunca mais ela o vestiu. Os anos passaram, e ele sempre esperou. De vez em quando ela o tirava de lá, de seu lugar de solidão. Olhava, com afeto até, mas jamais ele sentiu sua pele outra vez. Só os dedos frios e longos. De tanta solidão ele perdeu a cor tão bonita. Nunca mais ela o vestira… e ele sempre a esperar…

 

Este é um dos meus contos mais queridos…

Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

35 comentários , comente também!

  1. Tenho meu vestido de noiva até hoje!
    Não me serve mais, mas está lá, amarelado, amassado, nem um saco velho o contém. Fica dobradinho, num canto do armário, em casa de minha mãe...
    Nunca pensei que ele pudesse sofrer com minha indiferença... Amanhã vou lá...Abrí-lo, desamassá-lo...
    Adorei o conto!
    Beijo!

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  2. Elaine,
    Que suavidade, que doçura. Belo conto!
    beijos

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  3. Elaine querida! Que saudade estava sentindo de ler seus textos maravilhosos.
    Vestido mais emotivo e lindo hem!
    Estive tanto tempo ausente por tantos motivos e perdi tanta coisa e postagens lindas de amigos maravilhosos.
    Espero recuperar o tempo e agora virei aqui novamente todos os dias.
    Beijo carinhoso .
    Ah, seu blog está lindo.
    Teca

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  4. Eu ainda tenho o meu.
    O casamento acabou mas ele ficou.
    Lindo esse conto!
    Ele deve se sentir agoniado mesmo, porque só veste uma pessoa e tem que abandoná-la.... tenso!!!
    Beijos.

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  5. Olá Elaine querida,
    Passando para te deixar um abraço e para dizer que tem selinho para você lá no meu blog.
    Um grande beijo.
    Maria Paraguassu.

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  6. Só pode ser mesmo um dos seus mais queridos. Conto lindo demais.

    Meu vestido foi alugado, ainda bem, não serviu de testemunha do que viria ser meu casamento...


    Bjs
    Mah

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  7. Que suavidade vc nos leva a curiosidade...de quem será que tá falando com tanto amor? Ah, o vestido de noiva, tão desejado por todas, ou quase todas as mulheres. Cada um com seu significado, mas todos com imensa emoção armazenada. Parabéns, Elaine. Bjs

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  8. Que lindo Elaine!!! Cheguei a sentir a solidão vestido.
    Vou compartilhar esse texto no FB.
    Tenha um excelente final de semana. Bons ventos te acompanhem. Beijos doces e perfumados!!!

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  9. Oi Elaine!
    Seu blog é muito bom!
    Amei o conto!
    Quanta sensibilidade! Fiquei com dó do vestido, tadinho ainda bem que não tive um para deixar sofrer por solidão.rsss

    Bjo!

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  10. Elaine,que belo conto,minha amiga!E a vida é assim:usamos o vestido de noiva e depois ele fica lá guardado como lembrança!Comovente e criativo!Bjs,

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  11. Ah Elaine, que lindo!
    Fui lá no passado um pouco distante e lembrei como meu vestido deve ter sentido tudo isso.
    Ele ficou comigo ...... depois desmontei, a blusa era de renda "guipure" francesa que aproveitei para outra roupa. Como será que "ele" sentiu-se? Triste por ter sido desmontado ou alegre por continuar no meu corpo?
    Bom finde. Beijos.

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  12. Lindo, poético, emocionante! Vesti o personagem e pude sentir a intensidade de seu amor incondicional pela dona e sua solidão. Parabéns Elaine!
    Bjs

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  13. Ahhh Elaine
    que lindo... Que sensível. Eu, que trabalho com casamentos, sou completamente apaixonada por vestidos de noiva, queria casar mais vezes, com o mesmo marido, só para vestir de noiva outras vezes.Vou indicar a leitura desse texto para as minhas noivinhas
    Beijinhos

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  14. Elaine
    A mamae teve seu vestido de noiva e minha irmã Elisa também. Mamae como era costume doava para a Igreja. O dela foi em Araxá.
    Elisa emprestou para todas as noivas que quisesse casar em Santo antonio do ampro. Virou um trapo, mas continua lá em casa dentro de um enorme armario.

    Vestidos de noiva dão histórias fantasticas assim como a sua.
    com carinho Monica

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  15. Que lindo adorei!!Qualquer hora dessa posto la no meu cantinho ,claro com creditos de quem pertence,posso???beijocas

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  16. Elaine...
    Que delícia de conto.
    Em uma das brigas de meus pais, minha mãe rasgou todo o seu vestido de noiva. Senti por ela acredita?
    Não sonho tanto com casamento, como sonho com o vestido.

    Adorei demais o conto.

    Beijos

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  17. @Paty Chuchu, querida, eu autorizo postagem do link, mas do texto completo não.
    Certo?
    Beijosssss

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  18. Boa noite Elaine,
    que conto lindo, gostoso de ler, me lembra que sempre achei que as coisas sentiam. Uma vez escrevi (não lembro onde foi parar), sobre a solidão da escola quando todos saem de férias.
    Agora com os projetos de férias elas não sentem mais solidão. É muito ver
    que pessoas que amamos sentem como sentimos.
    Abençoado fim de semana para você e sua família.Bjs.

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  19. Um texto cheio de sentimento! Meu vestido doei para uma moça que não tinha vestido p casar e meu casamento existe a 23 qanos de felicidades.

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  20. Lindo conto apaixonante, não casei de noiva... mas quem sabe... nunca é tarde pra sonhar
    Bjos
    Bom fim de semana
    Lilian

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  21. Oi querida obrigada,vou indicar o link..heheh e ja ja vou la conhecer a autora ..beijocas

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  22. Ola querida,agora que vi que vc nao colocou o nome da autora,ou sera que to cega??kkkk vou indica seu link com esse post maravilhoso,sem o texto claro pra que minhas Chuchus tenham o prazer de ler essa delicia!!beijocas

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  23. oi sou sua seguidora e amei seu cantinho maus parabens e vo ama sua visita no meu cantinho ta bom bjs

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  24. Oi tem selinho para vc lá no meu blog.
    Bjinhosssss
    www.decoracaoeoutrascoisitasmais.blogspot.com

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  25. Oi
    Vim te desejar uma noite de sono tranquila e de bons sonhos.
    Ótima semana querida.

    Bjs
    Mah

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  26. Liinndddooo esse conto!!!!!
    Meus olhos se encheram de lágrimas...

    Beijos!

    http://pathyarteira.blogspot.com

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  27. Elaine que lindo conto. Tem que ser um dos seus preferidos, pois ele é maravilhoso.
    Estou apaixonada pelo vestido e tão triste porque ele e ninguém mais o vestiu...
    Elaine você tem tantos contos lindos e porque não coloca num livro? Quero um livro dos seus contos !!!!

    Beijos no seu coração.

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  28. Nossa eu reamente viagei em suas palavras eu ameiiiiiiiiiiii,e ja estou seguindo

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  29. Oi Elaine,
    Estava aqui fuçando pelo seu blog quando de repente me deparo com este seu conto maravilhosamente repleto de sentimentos e completamente apaixonante. A riqueza de detalhes, a leveza e doçura do jeito como escreve e da vida ao tecido me fazem sonhar acordado com o dia que há de ser o mais importante em minha vida.
    Fico pensando em como será moldado o lindo pedaço de tafetá, que há de cobrir de ternura e emoldurar a mais bela obra de arte da natureza. Minha linda noiva Jailene!

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  30. oii elaine, eu simplesmente ameiiiiiiii esre conto muito lindoo.

    bjinhos

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  31. amei esse conto muito lindo.
    gente agora vão da uma olhada no meu blog
    tinnablack.blogspot.com e comentem tá bjos povo lindo

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  32. Fiquei encantada com a leveza de suas palavras.
    Simplesmente amei!!!!

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  33. Olá Elaine!

    Já tinha visitado o seu blog antes, mas só hoje reparei que nos contos. Gostei! O seu jeito de escrever é simples, elegante e harmonioso. Vou voltar de certeza. Obrigada.

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