A filha pródiga

em 3 de dezembro de 2010

"Realmente reuniões de família não são o meu forte", pensava Estela enquanto subia os degraus de pedra da casa de sua infância.

O jardim estava ainda mais bonito do que ela se lembrava, e os degraus um pouco mais gastos do que seria de se esperar. Quantos anos fazia que subira por eles pela última vez? Uns 15, ela calculou, Não, 18. Isso mesmo, 18 anos, desde...afastou o pensamento. Não serviria para nada, apenas deixariam seus nervos mais abalados. Era passado, então que ficasse no passado.


Mas o passado é uma porta de vaivém, nem abre nem fecha de vez. Sentou no penúltimo degrau. Quase 20 anos, e ela ainda sentia o gosto das lágrimas. Ainda sentia a dor dos tapas. Ainda ouvia as últimas palavras que o pai dirigira a ela: " Sua puta! É isso que você é, uma puta. Saia da minha vida!" Duro e cruel como ele bem sabia ser.

Veja bem, ele não dissera "saia da minha casa" mas sim "saia da minha vida"! Uma menina. Eu era uma menina! Sentiu a mágoa antiga e tão sua conhecida queimar dentro do coração. Jamais passaria, ela agora tinha certeza. Quase 20 anos e ela ainda sentia.


Não, não posso entrar aí. Tem rastros dele em cada palmo dessa casa... Não quero mais passar pela dor que esta casa me trás...
Quase 6 meses que ele morrera. Durante esses meses a mãe e os irmãos fazendo uma acirrada marcação: você está no testamento do seu pai, sem você estar presente o testamento não pode ser executado... Por isso cedera e viera.

Acreditou que fosse mesmo capaz de entrar de novo naquela casa sem ouvir o eco das palavras ditas há tanto tempo...Mas não podia. Levantou-se de um salto, decidida a ir embora e jamais tentar outra vez. Percebeu as lágrimas queimando seu rosto, tão abundantes que a sufocavam. Quase correu para alcançar o portão maciço de ferro, tão pesado quanto antigo.


-Estela!
Sua mãe estava ainda mais velha do que ela imaginara. Ela meneou a cabeça:
-Sinto muito. Não dá, não posso entrar aí.
-Ele deixou metade da casa para você. E o Cheba.


Cheba...o velho Chevrolet restaurado que havia sido talvez o maior amor do pai.
-Não! Não quero nada dele. Nunca quis. Arrume os papéis e eu assino. Deixe tudo para os meninos. Dele eu não quero nada.


Sentiu as lágrimas secarem subitamente. Aprumou o corpo, ergueu a cabeça. Respirou.
-Não quero nada dele. Nada. Quando tudo estiver resolvido, vem me visitar, mãe. A Clarinha vai gostar de ver a senhora.
A mulher mais velha sorriu tristemente:
-Eu vou, Estela. Não vai mesmo entrar?
-Sabe que não.
-Ele está morto, minha filha. É tempo de deixá-lo ir.


Avançou uns poucos passos e estendeu os braços. Estela a apertou bem forte.
-Fique bem, mãe.
Mas a mãe não a soltou de imediato:
-Ele está morto, Estela. É tempo de esquecer. Ele teve muitos anos de arrependimento.
-E nunca deu um passo em minha direção. Mudou de calçada quando me viu pela última vez, e jamais quis falar comigo. Para mim acabou faz 18 anos...
-Estela...
-Enterrei meu pai há 18 anos, mãe. Acredite: não estou de luto. E não quero nada dele. Jamais.


Caminhou decidida para fora. Sentou no carro. Tremia tanto que sequer conseguiu girar a chave.Ele estava morto para ela há 18 anos. E ela para ele...
Não estava de luto...
Estava?

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Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

18 comentários , comente também!

  1. Sim, estava. Sempre ficamos, quando não somos capazes de perdoar.
    Ainda bem que eu e você estamos bem vivas!
    Beijo.

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  2. kkkk eu ainda não li o texto ... mas o que é fivecon?????
    Agoa vou ler o texto ....

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  3. Pronto ... agora eu li, é muito intenso, mas não consigo entender alguém sem o pai, apesar de ela não ter tanta certeza disso né ?? Eu amo meu pai, acabei de fazer um post deles ....
    Beijokas

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  4. Enquanto ela não o perdoar, não conseguirá sair do luto.
    O perdão acaba com a mágoa, e quando ela conseguir voltará, com certeza.
    Parabéns pelo conto Elaine. Muito profundo e realista.

    Bjs no coração!

    Nilce

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  5. Oi Elaine!
    Essa estória me fez pensar nos meus pais...os dois já estão no céu. Graças a Deus nunca houve uma situação tão forte entre nós. Eles me criaram com desprendimento, tentando me preparar para o mundo e muitas vezes eu não entendi, achei que era falta de amor. Isso ,na adolescência, foi difícil. Só muito tempo depois da morte da minha mãe é que fui entender. Mas ainda pude retribuir todo amor ao meu pai, aí já mais madura, sem me deixar levar por ciuminhos bobos.
    Hoje agradeço por eles terem me preparado desde cedo a enfrentar certas situações. Principalmente a ausência das pessoas que amamos.
    Beijos, Renata
    palpitandoemtudo

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  6. Talvez ela tenha passado os últimos 18 anos de luto. Porque a mágoa escraviza. A mágoa aprisiona... E pelo visto a Estela passou 18 anos aprisionada pela mágoa, e ainda continua.
    Esse perdão é o mais difícil de dar. O perdão libertador.

    Lindo texto, Elaine!

    Beijos

    Carla

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  7. Concordo com a Lúcia, o luto persiste até o dia do perdão.
    Menina, adoro seus contos. Se eu tivesse dinheiro ( que sonho!) juro que publicaria um livro com seus contos, faria muito sucesso. Vc já pensou nisso?
    Tenha um lindo sábado.
    Beijos doces e perfumados

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  8. Ah..esta sim Elaine.... a magoa, ressentimento e a dificuldade em perdoar nao deixa de ser um luto...
    Agora voce ve o quanto 'e dificil ouvir palavras duras vindas de pessoas que amamos ne? O pai foi duro, talvez devido a criacao que teve, aprendeu somente a agir dessa forma, e ai eu lembrei daquela frase que diz:" palavras proferidas nao tem como voltar atras". As consequencias podem durar uma vida inteira para aqueles que nao conseguem perdoar.
    Eu ja tinha lido esse lindo conto la no seu outro blog e confesso que amei pois retrata uma realidade ainda vivida por muitos, infelizmente...
    Desculpa a minha ausencia, mas ando um pouco fora do ar esses tempos...mas continuo amando voce e este cantinho viu!!!
    Bjs carinhosos
    Marcia

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  9. Dramas familiares são sempre doloridos, com certeza o pai não estava morto há 18 anos, se realmente estivesse ela não teria sentido o fato dele nunca a ter procurado para demonstrar arrependimento, posso ter entendido errado, mas foi isso que o conto me passou.
    Beijos

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  10. Lindo,muito lindo.Na verdade eu vivo a procura de uma certa Elaine que ama artesanato.Talvez um dia eu a encontre.Parabéns pelo Blog.

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  11. Tem gente que vive na Terra mas não é humano....Afff!
    Muito bom este texto, embora algumas pessoas não entendam é mais comum e real do que se imagina

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  12. Elaine, que conto maravilhoso e tocante.
    Acho que ela estará sempre de luto se não perdoar.
    Beijos amiga

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  13. ELAINE QUERIDA...
    ótimo conto...
    sinceramente acho que ele só estara verdadeiramente morto pra ela quando ela conseguir perdoar...
    é tão duro...
    eu ainda estou em processo de perdão com minha mãe e já faz dez anos que ela se foi....perdoei, mas ainda não consegui esquecer...entaõ é algo muito doloroso, é um processo interior que é lento e desgastante...
    acho que ESTELA deverá perdoar, mas esquecer talvez nunca consiga...
    adorei, me identifiquei um pouco com o conto..
    bjuivos no coração.

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  14. ELAINE.

    Putas não ficam , nem vestem luto, apenas trocam de lingerie para o próximo cliente.

    Teria sido o caso!

    Tenho conhecido, nestas minhas andanças mundo afora, muitos pais autoritários que desgraçam e transformam diversas filhas e filhos em putas de amos os gêneros.

    E que , nos matam de desgosto mais despressa do que a genética permitiria.

    Quer pai mais autoritário que o poder organizado do Estado que me cobra IPTU sobre a minha casa, comprada com o meu dinheiro?

    Quer pai mais autoritário do que este do poder organizado do Estado que me cobra IPVA, sobre o meu carro, comprado com o meu dinheiro?

    Quer pai mais autoritário do poder organizado do Estado que me cobra IMPOSTO DE RENDA sobre o meu salário, pensando que eu seja tecelão ou artesão que trabalha fazendo rendas de Bilro?

    Não me comoveu a história desta puta, pois tenho me sentido , por anos seguidos como um, autêntico puto a serviço do poder organizado do Estado.

    Como este poder organizado do Estado sistemáticamente, insiste em me tratar como uma puta, chegamos a óbvia conclusaão que somos todos :Estela.

    Quer que eu minta?

    Um abração carioca.

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  15. Perdão é o ato mais sublime, e o mais difícil.

    Tantas feridas que juramos estar cicatrizadas, de repente se mostram tão abertas e ainda sangrando, como se tivesse acabado de acontecer.

    E carregamos a vida inteira.

    Beijos.

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  16. Estava de luto sim. E o que é pior o maior de todos os lutos. O da incapacidade (?) de perdoar.


    Bjs
    Mah

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  17. Infelizmente pais autoritários e despontas são atualíssimos. Meu pai se separou da minha mãe e de 4 filhas ao mesmo tempo. Certa vez ao ir em sua casa, ele jogou meu óculos ao chão com a brutalidade de um soco, somente porque eu defendia minhas 2 irmãs menores de sua crueldade. Havia tirado tudo delas, de repente... chegamos a tomar nome de "ladras" por pegar um picolé, ou uma bala, na mercearia "dele"... que um dia fora também nossa... até hoje não sei se perdoei meu pai, não esqueci e jamais esquecerei as coisas que me fez passar... sozinha e meio que perdida em BH, quase cega... Alguém poderia esquecer isso? Só de uma coisa tenho certeza: Tenho muita pena dele, pois está pagando caro o mal que fez a mim e a minhas irmãs. Eu acho que perdoei, mas não esqueci e nem esquecerei. Amei seu conto, maravilhoso Elaine, parabéns. Bjs

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  18. Elaine, tudo bem?

    História doida e muitas das vezes muita gente nos diz que devemos perdoar, mas muita gente diz isso da boca prá fora, porque qdo se trata dela mesma, ela nao consegue.

    Sei que a figura de um pai é muito importante na vida de todo filho e filha, mas tb entendo que qdo algo muito grave na vida da gente acontece e que ou o pai ou mae nos viram as costas no momento em que mais se precisou deles, fica difícil apagar as cenas dessa época.

    Eu acredito até que com o tempo o acontecimento em si vai perdendo a importância. Dói, a lembranca, dói imagina que a historia poderia ter sido outra, mas com o tempo a gente enterra muita coisa.

    Se ela estava de luto??? Nao sei. Talvez quem sabe aliviada, pois sabia ela agora que nao iria mais encontrá-lo pelas esquinas e vê-lo trocar de lado. Isso dói muito mais. Eu acho que eu tb agiria como ela: Nao iria querer nada dele. Nem mesmo entrar na casa. Nao por ódio, mas porque o pai foi tao duro de nao ter dado o primeiro passo e qdo podia fazê-lo trocou de lado, e porque eu deveria receber presentes de alguém que em vida nao quis me levar flores?

    Um bjao

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