Azul e vermelho

em 30 de outubro de 2010

Àquela hora a prefeitura estava quase vazia. A moça vestida com sobretudo azul-escuro sobe calmamente as escadas gastas da entrada e segue decidida pelo enorme corredor de acesso.

Ninguém a intercepta, ninguém a questiona. Não precisa; todos sabem quem é ela e o que está fazendo ali àquela hora. Na porta envernizada de mogno antigo ela nem bate.

-Boa tarde, prefeito.

O homem alto e bem apessoado está de costas para a porta. Ansioso, agoniado pela demora dela.

-Venha cá.

Ela não se move. Alguns segundos, é tudo o que ele consegue esperar no jogo de gato-e-rato que ela sempre faz com ele. Quando finalmente ele se vira o sobretudo azul está aos pés da moça.

-AH!

Lá fora a tarde avança. Uma mulher vestida de vermelho segue decidida pela escada de pedras gastas que leva ao hall de entrada da prefeitura.

Àquela hora ela não deveria estar ali. O porteiro tenta:

-Vou avisar o prefeito que...

-Não precisa. E não adiantará mais.

Ela segue, rápida e decididamente.

“Lascou”, pensa o porteiro, enquanto interfona para a sala da secretária do prefeito. Mas é claro que ninguém atende. Ele então arrisca o número do gabinete do prefeito. Nada. “Lascou”, pensa outra vez, enquanto sobe correndo os degraus dos fundos.

No gabinete do prefeito o telefone interno toca. Uma mão masculina é estendida para tentar alcançar o aparelho mas a delicada mão feminina, de unhas longas e bem feitas, o impede:

-Não. O expediente acabou. Seu trabalho agora é comigo.

E inclina o corpo flexível sobre a mesa de mogno brilhante. Ele se inclina sobre ela:

-AH!!!

No corredor longo a mulher de vermelho pára diante da pesada porta de mogno envernizado. Respira fundo. Seus dedos tocam a maçaneta fria que gira com facilidade, em silêncio. Bem azeitada, a mulher pensa com um laivo de sarcasmo. Empurra a porta mansamente.

O sobretudo azul jogado no chão. Sobre a mesa antiga de mogno a moça é a primeira a vê-la. Olha a mulher nos olhos por uma fração de segundo antes de enrigecer o corpo flexível sob o toque do prefeito. A súbita mudança na moça custa a alcançá-lo. Ele segue a direção do olhar dela.

-Não se incomode. Podem continuar, eu espero.

O que ele pode dizer? Ocorre-lhe que qualquer coisa será um desastre, mas o silêncio é pior.

-Não posso explicar.

-Nem precisa. Mas pelo amor de Deus, se quer conversar, desça daí.

A moça recolhe as peças de roupa, e pensa: “Vou ter de vestir o sobretudo com esse calor!”

-Vá- diz o prefeito que até minutos atrás só queria que ela ficasse.

-Fique. Não me demoro- diz a primeira-dama.

A moça senta-se na cadeira de canto. Uma vez, nesse canto, nós...ela pensa.

-Sônia, eu sei que sou um ordinário...

-Pois saber disso faz de você um homem mais sábio do que a maioria dos homens desta cidade. Eles não sabem que você é um ordinário.

-Sônia, as eleições serão em três semanas...

-E você está com uma vantagem apertada nas pesquisas...

-Sônia...

-Vantagem esta que pode ruir se um fato novo aparecer.

-Sônia...

-E sua campanha toda baseada no homem impoluto, pai de família, bom católico.

-O que você quer? Sei que quer alguma coisa, senão não viria aqui. Flagrante nunca foi seu interesse. Diga logo.

Ele já estava de novo vestido e isso o tornava um pouco mais senhor de si. Conhecia a esposa. E temia o que viria.

-Simples. Você vai me nomear chefe de gabinete. E vai colocar meu nome no bairro de casas populares que vai inaugurar.

-O nome do bairro já está decidido, é uma homenagem ao meu pai.

-Seria, mas você, tocado pelo profundo amor que sente pela sua primeira-dama decidiu dar o nome dela ao bairro. Na verdade, aos dois. Vila Sônia I e Vila Sônia II.

-Não posso nomear parente.

-Pode sim. E vai.

E para a moça:

-Sabe datilografia, meu bem?

-Um pouco. Por que?

-Porque você acaba de ser contratada como a nova secretária do prefeito.

Ele olha desolado para a primeira-dama.

-Espero você para o jantar, querido.

Três meses depois a cidade assistiu entusiasmada a entrega das 1000 casas populares pelo prefeito recém-reeleito.

Ao seu lado a primeira-dama sorria, tão plácida em seu vestido azul discreto. Descerrou a placa onde se lia:

"Vila Sônia I"
Na ponta oposta do palanque a moça de vermelho sorriu discretamente. “Quem diria: secretária do prefeito!”
 
Nunca mais o sobretudo azul-marinho. E os finais de expediente aconteciam cada vez mais animados.
 
Embaixo, entre a multidão, o porteiro pensa:
-Vai um pobre como eu entender essa gente...
 

Mais um doa meus contos importados do Conto vidas

Parece real, né? Mas imagina… isso é coisa que non ecxistebarrinhas23_thumb1

Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

27 comentários , comente também!

  1. Existe sim, querida!!!
    Excelente conto, prende a atenção até o final, justamente por a gente saber que coisas assim existem e acontecem a todo momento!

    Elaine, que magia a tua escrita!

    Beijo

    Carla

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  2. ELAINE QUERIDA...
    ISSO SÓ ACONTECE EM LUGARES MUITO, MUITO LONGE DAQUI...
    EM CIDADES MUITO LONGE DAQUI...
    COM POLITICOS MUITO, MUITO LONGE DAQUI...
    KKKKK
    AMEI O CONTO, PERFEITO.
    NÃO SEI QUEM É MAIS OPORTUNISTA E CAFAJESTE NA HISTÓRIA..
    TE LEMBRA ALGO????
    BJUIVOS NO CORAÇÃO.

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  3. Oi Elaine,
    Imagina! Jogo de interesses na política? Isso não acontece... hehehehe..
    A primeira frase do conto poderia ser: "Baseado em fatos reais"
    Abraços!!

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  4. Hahahahahah
    Não sei porque, mas esse conto, tão bem escrito, me parece tão familiar.........
    Parece que tenho visto coisas parecidas pelos jornais, na TV.
    Acho que copiaram de você heim?
    beijos

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  5. Oi Elaine!
    Maravilhoso esse conto!
    Obrigada pelas palavras de carinho!
    Tenha uma ótima noite.
    Carinhosamente
    Lady
    Bj

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  6. Muito bom, frô... Tão bom que a gente pensa:é uma pena que isso aconteça de verdade e muito mais do que realmente deveria.
    Parabéns por mais este! ;oD

    Xerinhos
    Paty

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  7. Sem rasgação de seda. Sério mesmo.
    MA-RA-VI-LHO-SO.
    Que dia publicará o próximo conto?

    Sobre seu último comentário em meu blog:

    Oh Elaine meu anjo da blogosfera, muito obrigado por suas palavras, isso muito me conforta. Tentei disfarçar de todo jeito sabe, mas no fundo, no fundo esse episódio (ser convidada para retirar um post) me magoou, fiquei meio sem chão... Mais já passou.
    Saiba que suas palavras são como poemas para mim, és minha poetisa mesmo que nunca tenha feito um poetrix.


    Bjs
    Mahria

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  8. Elaine. Vc colocou camera escondida em algum gabinete de prefeito por ai rs. ou de alguns. ou de todos?

    perfeito esse post, por tudo o que vivemos no mês, com as eleições.

    ao mesmo tempo que fiquei feliz com o aniversário, o carinho dos amigos, eu fiquei é preocupado.

    Recentemente vi pessoas amadas, queridas mesmo, caindo num golpe manjado, via blogosfera.
    O caso da moça feia que "consegue" seu príncipe encantado... cria um castelo de fadas, coloca toda a roda de amigos nos sonhos...
    e a história descamba para a tragédia, e lá vem o estelionato, pq arrecadar dinheiro com mentira é triste demais.
    eita... isso é triste. na grande esfera do poder, na pequena esfera da blogosfera a corrupção tá a solta, o que fazemos, rezar?

    bjs Elaine. amo seus contos!

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  9. Adorei esse conto. Consegui ver claramente a situação, até o gabinete com a mesa escura e grande. A visa como ela é...
    Tenha um lindo sábado.
    Beijos doces e perfumados.

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  10. Achei engraçado a profissão que vc colocou no home, Elaine: pespontadeira.

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  11. Oi Elaine!
    Bela estória! Pena que seja tão dificil acreditar que coisas assim possam acontecer! rsrsrs
    Tenha um ótimo feriado, beijos, Renata
    palpitandoemtudo

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  12. Isso é beeeeeeeeeeeem real,meeeeeeeeeesmo!!!

    Lindo conto real...beijos,chica e lindo fds!

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  13. Gente, mas isso acontece por aí?
    Não é só em novelas e filmes?
    Caramba!! heheheh...

    Maravilha, gostei muito, parabéns!

    Beijos!!

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  14. Que nada, isso é coisa de novela, não existe, bem capaz que na política possa ter algo parecido com isso, hehehe, acordei, estava era sonhando mesmo,kkk
    Ótimo conto, me prendeu até o final, louca para saber qual deles era o mais sacana!!!

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  15. E como acontece por ai...

    Qto aos comentários Elaine, o seu normalizou agora, ou ainda desaparece alguns?

    Obrigada pela sua visita.

    Bom feriado.

    beijooo.

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  16. Elaine,teu blog é ótimo! Eu tenho acompanhado a um bom tempo, e a leitura é sempre muito interessante. Este teu conto em especial,me chamou muito a atenção e por isto não poderia deixar de comentá-lo. Principalmente porque essas personagens do teu conto, existem e eu conheço intimamente uma delas, a secretária. E sei bem como ela se sente, como as coisas acontecem e que nem sempre é o que parece ser. Eu, vivo na vida real o pepel da secretária de teu conto!
    Quem sabe um dia mando para ti a minha historia...mas isto só será possivel depois que as pessoas envolvidas não mais estivem em foco.
    Abraço!
    Aimée

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  17. Bárbaro. A narração foi tão perfeita, era como eu estivesse na frente da tela assistindo a um filme. Beijão!

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  18. Já tinha lido no seu blog de contos, e fico admirada com a fluidez que consegue colocar nas palavras. Consigo ver a cena facilmente. Não esqueça que o meu livro quero autografado, rs. Beijos Elaine, fiquem com Deus, beijos nos sobrinhos!

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  19. Seria cômico se não fosse trágico, né?
    Mentiras, traições, enganos, má fé, tretas, e tantas mazelas mais.
    Como sempre, um conto irrepreensível.
    Cadê o livro? Já publicou? Falta muito para fazê-lo?
    Agilize-se, menina!
    Beijos.

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  20. Mentir é ruim, mas não é o pior. Pior é mentir sucessivamente, uma mentira maior para embasar a anterior e assim sucessivamente.

    Triste é quando as pessoas compram mentiras sem refletir e sem pesquisar, sem usar o seu senso crítico.

    beijooooooo

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  21. Adoro seus contos!!!!! Esse é genial, bbeijos

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  22. Elaine,

    Tudo é possível, nada é impossível!!!
    Adorei.
    Abraços e um excelente feriadão.

    Abraços,
    Marise.

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  23. rsrs non existe ? rsrs adorei , muito bom esse seu conto , estou indo conhecer conto vidas
    bjs

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  24. Elaine

    Adoro ler seus contos e que história comseu lado cômico e também poucas verdades.

    Já estive no seu Conto vidas e se deixar não sao de lá.

    Assino embaixo quando falam do seu livro e com certeza já está na hora de publicar um. Material é o que não falta.

    Beijos

    Beijos

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  25. Ah... Ela pediu pouco demais...
    Eu teria exigido o mundo dele...
    E depois das eleições... pé na b. dele!

    Adorei o conto!

    bjo

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  26. Mas que maravilha este texto, parece que conheço casos assim, onde será???
    Bjus.

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