Canto na madrugada (e um pouco do meu avô)

em 19 de agosto de 2009


Na casa que faz fundos com a minha tem um passarinho que canta todos os dias às 3 horas da tarde e todas as madrugadas às 3 horas, pontualmente. Sei disso porque passei as três últimas noites ouvindo sem conseguir conciliar o sono de tanta dor na coluna, tanta dor que eu só consigo ficar sentada já que deitar é uma tortura.
Mas voltando ao passarinho... Não faço ideia de que passarinho seja pois se tem uma coisa nesta vida que eu jamais farei essa coisa é ter passarinho engaiolado. Ele canta de um modo tão triste que me corta o coração. Só quem nunca ouviu um canto livre de um pássaro livre para acreditar que não tem diferença... Vou te contar uma estória:

Meu avô, pai de minha mãe, criou um neto que viria a ser meu padrinho de batismo. Foi ele que me fez esse relato. Quando meu primo/padrinho era um menino e vivia na fazenda onde nosso avô era colono ele amava caçar. 

E vivia trazendo pássaros em alçapões de madeira para colocar em gaiolas. Meu avô sempre o fazia soltar mas o menino não desistia e toda semana ele aparecia com um passarinho novo. Então um dia meu avô disse para minha mãe preparar um dos quartos vazios da casa, disse a ela que pusesse água e comida lá dentro e fechasse o quarto. Ela assim o fez e meu avô esperou. 

Lá pelo fim da tarde de domingo meu primo/padrinho retornou da caçada com o costumeiro passarinho preso no alçapão. Desta vez meu avô nada disse. Observou o neto preparar a gaiola e depositar o bichinho lá dentro. Quando terminou o menino se sentou para a janta. Meu avô pegou o neto pelo braço e fez com que ele se dirigisse ao quarto que havia sido preparado. Meu avô disse:

"Carlo, de hoje em diante você vai viver neste quarto. E nunca mais vai sair daqui."
O menino ficou pasmo:
"Mas eu não fiz nada, vô. Eu não posso ficar preso."
"Eu sei que você não fez nada mas eu decidi que quero você só prá mim e então você vai ficar aqui. Todo dia eu venho colocar água e comida prá você e vou deixar que veja o quintal da colônia onde os meninos brincam depois do serviço."


Meu primo tinha então uns 12 anos. Viu que meu avô não estava de brincadeira. Começou a chorar:
"Mas eu preciso andar! E eu gosto de ser livre! Se me prender eu vou morrer!"
Meu avô Antônio olhou para ele e disse:
" Pois cada passarinho que você prende também quer ser livre. E o canto que você quer só para si será a coisa mais triste do mundo pois será um canto de morte. É isso que você quer?"

Meu primo tem hoje mais de 60 anos. Mas guardou as palavras para sempre e jamais prendeu outro pássaro em toda a vida. Ele me contou que até o cavalo dele andava livre...

É deste homem que eu herdei esse amor à liberdade e aos animais. Meu avô nunca bateu em um cachorro e nem em um cavalo. Castigava as 7 filhas mas jamais castigou um animal pois dizia que as pessoas sabem o que fazem quando estão errando mas os animais não.

Meu avô...Morreu quando eu tinha 4 anos mas tenho uma vaga lembrança de seu rosto. Mas sinto que sua herança ficou em mim...Além do sobrenome, já que eu sou um dos dois netos que foram registrados tendo Gaspareto no nome... Apenas 2 netos numa multidão de mais de 100. Todos os demais levam apenas o nome dos pais.
E na noite fria o canto a
inda me parece mais triste...

Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

21 comentários , comente também!

  1. Nossa amiga, que triste! O Tio do meu marido cria pássaros em viveiro, diz que alguns não sobrevivem livres, e etc.
    Eu confesso que não tenho uma opinião formada, mas aqui em casa passarinho não entra, afinal a Psiquê é uma gatinha quieta, mas já vi a loucura dela quando entrou uma borboleta aqui, rs!
    Beijos

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  2. Ain que triste tambem não gosto de passaros presos, meu irmão tem bastante confesso que por varias vezes brigamos por conta disso mas ele não muda de ideia...

    Beijos

    Boa noite

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  3. Chorei lendo sua história. Hoje, quero chorar com tudo.
    Cuidado com as costas....cuidado mesmo, vá atrás, faça fisioterapia, dê um tempo dos afazeres domésticos, pq este é um problema difícil de curar. Me arrasto com dores há anos...
    Bj :)

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  4. Chorei lendo sua história. Hoje, quero chorar com tudo.
    Cuidado com as costas....cuidado mesmo, vá atrás, faça fisioterapia, dê um tempo dos afazeres domésticos, pq este é um problema difícil de curar. Me arrasto com dores há anos...
    Bj :)

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  5. Como sempre muito, interessante sua história.
    Tb acho um absurdo aprisionar qualquer tipo de animal.
    Tenho muitas referências, em minha vida, dos meus avós tb.
    Bjs querida.

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  6. Olá,
    Pessoa sábia teu avô. Me fez até lembrar meu avô paterno que também perdi bem cedo.

    Melhoras para ti.
    Abraço!

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  7. os avós sabem sempre tudo!
    que história aqui trazes... como eram (e são!) certas e tantas coisas...
    a tristeza nas lágrimas que deixo correr, solidariamente
    beijinhos

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  8. Muito triste mesmo! :(

    Beijos e ótima quinta!

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  9. Histórias de pásaros sempre me fascinam. ainda mais verdadeiras.
    Com carinho Monica

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  10. Linda história!
    Como há pessoas sábias e bondosas nesse mundo!
    O passarinho realmente deve soar mais triste,
    Beijos,
    Talita.

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  11. Belíssimo ensinamento!!!!

    Obrigada!

    Bj
    da Li

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  12. Elaine, querida
    Seu texto me fez lembrar de uma certa história. Minha sobre mora em Bertioga. E lá por ser uma cidade praiana quase não se vê animal de pena, mas nos fundos d esua casa tem terro baldio onde existem galinhas e um galo que canta sempre em horários impróprios.
    Quando comecei a ir na casa dela, o canto do galo me incomodava, pois ele cantava a noite toda. De uns tempos pra cá, tenho notado que seu canto me parece um pedido de socorro (não ria, por favor). Entendo perfeitamente a palavra socorro em seu canto, meio desespero. Sempre que ouço, dá uma tristeza.
    Um abraço

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  13. Lindo texto, como sempre!

    Ando sem tempo para escrever como gosto no blog e visitar com mais atenção os blogs amigos, mas sempre dou uma espiadinha aqui, que é um cantinho que eu adoro.

    Beijos!

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  14. Oi, Elaine!!
    Sabe que concordo com você COM-PLE-TA-MEN-TE?
    Quando eu era pequena, meu pai tinha um curió na gaiola. Ele cantava bastante e bonito. Mas quem garante que não era canto de tristeza?

    Hoje em dia ele não faz mais isso. Ainda bem!
    Eu acho “uó” quem cria passarinho preso. E tem os que cortam uma asa do passarinho que é para ele não voar. É de um egoísmo sem tamanho...

    A mim basta e me faz feliz acordar com o canto dos passarinhos daqui. Sou privilegiada por isso. Esse, sim, é um canto de liberdade. ;)

    Beijos!!!

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  15. olá Elaine,

    como sempre distribuindo sabedorias....sensibilidades ....para boas reflexões.
    Tb não gosto de animais presos....não gosto de ver passaros engaiolados...um dia estava com um dos meus gatinhos na rua de minha casa (ele gosta de ficar olhando tudo e do sol..), tinha uns pombos na rua e ele só de olho nos pombos...passou um senhor e disse p q eu soltasse o gato p ele pegar o pombo...pensei qta maldade, pois o gato iria atacar o pombo, pois é seu instinto...está na sua natureza caçar...eu disse p o senhor: do mesmo modo q não qero e não deixo ninguém maltratar meus gatos, não quero q ele maltrate o pombo...meu gato iria atras o pombo por instinto e não p caçar p comer...ele é bem tratado e alimentado. O ser humano gosta de sarcasmo e acha que todos somos assim ....mas seu primo não era malvado..não agia por sarcasmo e aprendeu a lição muito generosa e sábia que seu avô passou p ele. Nosso dever é esse: conscientizar...

    bjus minha querida perfumada e obrigada por seu comentario, é muito prazeroso ler tudo que vc escreve.

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  16. olá Elaine,

    como sempre distribuindo sabedorias....sensibilidades ....para boas reflexões.
    Tb não gosto de animais presos....não gosto de ver passaros engaiolados...um dia estava com um dos meus gatinhos na rua de minha casa (ele gosta de ficar olhando tudo e do sol..), tinha uns pombos na rua e ele só de olho nos pombos...passou um senhor e disse p q eu soltasse o gato p ele pegar o pombo...pensei qta maldade, pois o gato iria atacar o pombo, pois é seu instinto...está na sua natureza caçar...eu disse p o senhor: do mesmo modo q não qero e não deixo ninguém maltratar meus gatos, não quero q ele maltrate o pombo...meu gato iria atras o pombo por instinto e não p caçar p comer...ele é bem tratado e alimentado. O ser humano gosta de sarcasmo e acha que todos somos assim ....mas seu primo não era malvado..não agia por sarcasmo e aprendeu a lição muito generosa e sábia que seu avô passou p ele. Nosso dever é esse: conscientizar...

    bjus minha querida perfumada e obrigada por seu comentario, é muito prazeroso ler tudo que vc escreve.

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  17. Elaine, não tive avós, pois quando nasci todos já haviam falecido, mas minha mãe jamais nos deixou prender o que quer que fosse. Foi com ela que aprendi a amar e respeitar os animais e me corta o coração quando vejo passarinho em gaiolas. Beijos.

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  18. Nossa, que texto lindo. Toda vez que leio sobre avós e avôs lembro dos meus.
    Saudade do caramba.
    Legal que tu ficou com o sobrenome dele, tbém tenho o do meu.
    E, nossa, tu tem mais de 100 primos????
    bjos

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  19. Lindo, lindo...

    Incrível como esses ensinamentos a gente leva, pelo resto da vida... é porque eles vêm seguidos de exemplos!

    ^^

    Beijos bem grande!!

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  20. Chorei com seu relato. Sou assim mesmo e me envolvo e emociono demais, principalmente com histórias de pessoas lindas como o seu avô. Você já deve ter reparado que resolvi ler teu blog inteiro. Sabe porque. porque você é uma pessoa tocante e de uma sensibilidade rara. Seu amor pelos animais e a forma como fala de seu marido denotam isso. Só posso te dizer que a admiro muito.

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