Em defesa da infância

em 18 de maio de 2009





Mesmo para quem não tem filhos como eu não é nada fácil falar em exploração e abuso infantil. Então decidi falar com o coração, e creio que com o coração a gente se entende...


Sexta-feira passada o Globo Repórter fez um programa inteiro sobre o tema. Nem preciso dizer o quanto a minha noite foi ruim; não dormi quase nada e quando dormia os rostos encobertos e as vozes das crianças entrevistadas ficavam ecoando em minha cabeça... E tendo assistido à reportagem eu posso dizer que ela até que foi branda, já que todo mundo sabe que a realidade pode ser ainda mais terrível. Se pensarmos que na maioria das vezes o agressor é justamente quem deveria proteger, então é ainda mais cruel.


Eu tenho 2 sobrinhos, uma menina de 9 anos e um garoto de 8. Fico pensando no que eu seria capaz de fazer com um desgraçado(ou desgraçada) que os molestasse...Lembro de um caso ocorrido numa cidade do interior paulista em que uma mãe matou com uma faca na jugular o menor de 16 anos que havia estuprado seu filhinho de 4 anos apenas. E ela fez isso dentro de uma delegacia...Penso que seria capaz de fazer a mesma coisa. Ainda que saiba tratar-se de uma doença ou distúrbio...


Vou contar duas coisas para você: a 1ª diz respeito a uma estória que eu vi acontecer :

Moravam o casal e a filhinha de 4 anos em frente à casa da minha mãe. Era o ano de 2003. Família pobre, ele cortador de cana, ela doméstica, e tudo parecia muito comum. Parecia. Um belo dia ela chega em casa mais cedo e flagra o marido com a filha nua, na cama. Ela grita, ele a espanca, ela o questiona e ele diz, tranquilamente, que a filha é dele e ele faz o que quiser com a menininha. Confessa que vem "fazendo carinho" nela há meses e diz que não vai parar. O que você acha que aconteceu? Nada.










A mulher engoliu o choro e foi fazer janta. Minha sobrinha estudou no jardim de infância(?) com a menininha em questão: ela era a coisinha mais triste do mundo, silenciosa, oprimida, nunca brincava e não conseguia aprender como as demais crianças. E viveram os 3, infelizes para sempre, já que quando os vizinhos denunciaram ao Conselho Tutelar a mãe negou veementemente tudo e no dia seguinte eles se mudaram. Nunca mais soube deles, me disseram que voltaram para o nordeste...Daí eu pergunto como é possível uma mãe ter este comportamento??? Parece coisa de novela mas a verdade louca e insana é que muitos homens acham que têm o direito de serem "os primeiros". E se não são os pais são irmãos, primos, padrastos, tios...


A 2ª coisa que eu quero contar diz respeito a mim.


Quando eu era criança fui vizinha de uma família por muitos e muitos anos. Inclusive a minha melhor amiga de infância era uma menina desta família. E a mãe dessa menina tinha um irmão que vivia sozinho, em outro bairro. Ele era muito bem de vida para os padrões aos quais estávamos acostumados e era também muito sedutor com todas as crianças. Gostava de trazer balas e doces quando vinha visitar a irmã e os sobrinhos eram doidos por ele. Consequentemente os amiguinhos dos sobrinhos viviam em torno dele. Ele nos convidava para passear, para lanchar, para ir à casa dele e ficar na piscina...Meus pais jamais deixaram. A criança que eu era achava os pais maus e cruéis, e queria de todo jeito ir com os coleguinhas. Nunca fui. O tempo passou e quando eu completei uns 12 anos fui escondido do meu pai à uma festa de aniversário na casa deste homem. Minha mãe deixou depois que a minha amiga implorara e eu fui. Era um domingo e a festa durou o dia todo. Muito churrasco, bebida e eu achando tudo muito estranho, tantas adolescentes, mulheres esquisitas, e minha amiga, apenas 1 ano mais velha que eu, se comportando de uma maneira que eu nunca vira antes. Em um certo momento eu entrei na casa e ouvi o seguinte: "Ih, essa daí é jogo duro, tio. Ela não vai querer, não." "Vai lá, fala prá ela assim: vai ser bom prá você, ele gosta de você. E se ela vier eu te dou o rádio que você quer." Pois é, para encurtar a estória a minha amiga era paga para convencer as demais meninas a fazerem sexo com o tio dela e eu era a "desejada" da vez. Como terminou a festa? Não sei pois fui embora sozinha, andei mais de 3 quilômetros e cheguei em casa muda. Meu pai quis saber onde eu estava, já que todo mundo ficou feito doido me procurando na tal festa e eu demorei muito para chegar em casa. Levei a melhor surra da minha vida. Nunca mais falei com o tal homem de novo e durante muito tempo eu tremia cada vez que o via. Nunca mais falei com a sobrinha dele e anos depois eu soube ter sido ela própria abusada por ele. E as 2 irmãs mais velhas também. E sabe Deus quantas meninas mais...Lamentavelmente ela hoje tem aids e eu não a vejo mais pois a doença a impede se sair de casa. Esta é a 1ª vez que toco neste assunto, e penso que este episódio me marcou muito. Mesmo sendo tão novinha eu comecei a relembrar todas as vezes em que o tal "tio" ficava sozinho com a sobrinha e ela insistia tanto comigo para ficar na casa dela, lembrava dos afagos dele e sentia nojo. Revia o olhar dele e me sentia muito mal, pois sabia que era algo que não deveria estar ali. Ele não chegou a me tocar de fato mas mesmo assim eu fiquei de certa forma marcada, e a minha meninice acabou mais cedo.


Então eu fico pensando no horror que estas crianças passam, no sentimento de medo e de inadequação que elas vivem. Sentem-se sujas e culpadas por causa de um pervertido.
Tenho uma amiga blogueira que diz que ela sempre pede ao marido para ficar de olho nela, enquanto ela faz o mesmo em relação à ele pois ambos têm uma bebezinha e, como a Laura diz, vai que um dos dois pira e faz algum mal para a Bebebedocinha deles...Mesmo que conscientemente eles jamais o fizessem. Então fica o pedido: olhe pela sua criança, mas olhe mesmo. Não confie demasiado em ninguém, seja pai, padrinho, tio, avô, amigo. E vigie o acesso da criança à Internet, pelo amor de Deus.











Pois o perigo está, muitas vezes, mais perto do que a gente pensa...

Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

12 comentários , comente também!

  1. Parabéns pela participação, também participo.
    Fiquei comovida com as duas histórias. Sabe tenho meu netinho de dois anos e cinco meses, é nosso maior tesouro, meu fiho e minha nora o educam muito bem e ficam de olho em tudo, largar com desconhecidos nem pensar, esse mundo tá de cabeça para baixo mesmo, confiar em quem???? O jeito é ficar alerta sempre.
    Parabéns mesmo pelo lindo e comovente texto.
    Aproveito para dizer muito obrigada por seu carinho e feliz te dou a notícia de estou plenamente curada. Muito obrigada mesmo do fundo de meu coração!
    Que Deus te abençoe!

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  2. Querida Elaine,

    Não tenho vergonha de dizer que estou com os olhos cheios de lágrimas!!!
    O seu post é muito sentido porque fala de coisas que viu e /ou viveu.
    Obrigada por as partilhar.
    Também participei pois este assunto é demasiadamente grave para que fiquemos calados, com filhos ou não, como diz!
    Todas as crianças são nossa responsabilidade!!!
    Beijos.

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  3. que bom amiga que também participaste,pois este é um tema muito importante que deve ser divulgado por muita gente,para se lutar por isso.Existem pedófilos por muitos sitios,e as crianças tem que estar protegidas.
    Gostei da tua postagem,um caso muito real o teu.
    beijinhos

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  4. Elaine, mt interessante esse seu texto, um grito de alerta p quem tem filhos realmente nao confiar em ninguem, e como dizia o Reagan,"confie mas verifique". Pelo menos nessa questao aqui dou gracas a Deus n ter tido filhos, mas sei q esse problema e um cancer q se propaga a cada dia pelas sociedades, seja ocidentais ou orientais.
    Vc contou sua estoria pessoal ai, foi bem candida conosco, quero tomar a liberdade de contar algo q se passou comigo na minha pre-adolescencia. Pois bem, eu era a unica menina nessa casa cheia de homens. Eu estava sendo criada por essa familia, meus padrinhos de batismo, eles tinham cinco filhos e uma filha, a filha em questao ja tinha se mandado p um convento. Eu me vi entao nessa casa com cinco rapazinhos com hormonios a mil por hora, o mais novo deles era 4 anos mais velho d q eu. De modo q qndo ele atingiu a adolescencia, nao me deixava em paz, vivia querendo me passar a mao, me pegar pelos cantos, queria por que queria ter sexo comigo. Me dizia q ficaria apenas entre nos, q seus pais jamais ficariam sabendo, q n era nada demais a gente 'brincar" de gente grande. Eu nunca abri a boca p os pais dele, primeiro pq eu nunca senti, nunca acreditei q eles tivessem qualquer amor por mim, q tivessem meus melhores interesses em mente, esse filho era o caculinha e mto protegido por eles. Eu sentia q sairia como uma grande mentirosa, uma fofoqueira, uma pessoa de fora trazendo inferno aquela familia. Engoli suas investidas por anos a fio, mas nunca deixei ele de fato passar das investidas. Eu saia correndo dele, me escondia, dormia com um olho aberto outro fechado, coisas desse tipo. Mais tarde qndo eu fiquei moca, seus outros irmaos, ja marmanjos, tbm tentaram me assediar, me aliciar, me passar as maos a noite qndo eu estava dormindo, cansei de acordar com um deles me passando a mao, levantando a minha roupa, tentando abaixar a minha calcinha. Era um inferno. Gracas a Deus q fui protegida pelos meus anjos da guarda q nunca durmo sem orar p eles, o certo e q nunca eles sucederam em me fazer mal de forma concreta, mas tentar eles tentaram demais. Mais tarde, ja quase no fim da minha adolescencia, dessa vez... agora pasmem, o assedio veio de meu padrinho, um homem ja velho, mais velho d q meu proprio pai! Vi mtas vezes seu olhar tipo babando p me por as maos, seus presentinhos p mim, e p sua esposa nada,, tinha qualquer coisa ali q n me cheirava bem. Mas por sorte q ele nunca teve o despudor de por as maos em mim, ou me forcar nada, mas ali o q n faltava era desejos, era intencoes nefastas. Gracas a Deus cresci passei pela minha adolescencia nessa casa cheia de testosterona, passando mil e um perigos, mas sai sa e salva, porem com uma grande falta de confianca em qualquer homem q se ve com uma menina em casa, seja pai, tio, irmao, amigo, vizinho, sei la, nao confio nao. A oportunidade faz o ladro, o bicho homem n se pode confiar, e quem tem filhos menos ainda. Vc ai cara leitora, q tem sua filhinha ainda peqna , ou adolescente, fique de olho naquele seu irmao, seu tio, seu marido, seu avo, fique atenta, vigie, mas vigie como uma raposa, absolutamente nao confie em homem algum. Claro q ha mulheres doentes q cometem esses crimes tm, mas elas acho q sao a excecao.

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  5. Amiga,
    Também participo dessa blogagem. Tenho um filho de 16 anos e sei bem o que é isso!!!
    Também passei por uma situação vexatória na minha adolescência, quase fui estuprada por um colega que se dizia meu "amigo". Ele me deu uma carona e depois queria me estuprar...
    A sorte é que eu consegui sair do carro. Fui embora para casa sozinha e no escuro, mas acompanhada por Deus. Durante tempo guardei essa história para mim... Mas agora resolvi expô-la aqui para vocês...
    Temos mesmo que tomar muito cuidado com nossas crianças, porque o perigo pode morar ao nosso lado e não vemos ele de modo algum...

    Muito comovente o seu texto!!! Senti um aperto no peito quando o li, pois apesar de ser um pouco diferente a sua história, a experiência é quase a mesma!

    http://ideiasdemilene.blogspot.com

    bjo grande

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  6. Graças a Deus fui livrada por todos os lados.
    Mas quando tinha apenas 10 anos (já sabia o que era estupro), achava um absurdo os homens mexendo comigo na rua.Só de ouvir a palavra gostosa eu já sentia asco.Agora imagine eu nessa situação!
    Meu pai não era uma pessoa muito estudada (ainda não é), mas da forma ignorante e bruta dele falava a verdade para gente.Tudo bem que para uma criança aos 5, 6, 9 anos de idade ouvir aquilo era uma certa violência.Eu só via brutalidade ali.Porém se há males que vem pra bem... hoje eu sei que isso era toda a nossa proteção.Erámos pobres mas muito bem cuidadas por nossos pais. As plavras do meu pai sobre sexo pra gente como essas: "Homem é mal.Eles dão presentes pra vocês, mas só quer é que você vai deitar com eles.Eles falam que gostam de vocês para pegar no seu peito, na sua bunda.." Ouvia esse discurso desde que me entendo por gente.Ele até proibia agente de brincar com menino (um exagero!.)Perdemos alguma coisas pois agente tinha medo de tudo, mas fomos livres de outras também.
    Minha mãe também era olho aberto e olha que quando ela casou só tinah 14 anos.Quando eu tinha 4 ou 5 anos minha mãe tinha 22 (a idade que tenho hoje)Teve a adolescência cortada por um casamento precoce, mas era bem esperta.
    Bem, essa é parte da minha história.

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  7. Pois é amiga!
    Esta questão é muito séria. Já tomou uma proporção muito grande em todo o Brasil. Cada a cada um de nós divulgar e sensibilizar as pessoas.
    Fiz um comentário também em meu blog, sobre isso. Li no jornal daqui que se os educadores souberam e não fizerem nada., correm o risco de serem multados pelo silêncio. Temos a grande responsabilidade de denunciar os abusos sexual. (fala do promotor), aqui de jaragua do sul.
    Com carinho
    Sandra

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  8. Olá,
    Estamos te visitando para agradecer sua participação na Blogagem Coletiva "Em Defesa da Infância 2009"
    Mas não se esqueça do Dia 25 de Maio - Dia Internacional da Criança Desaparecida - Segunda parte da blogagem - Alerta Amber Brasil! :)
    Obrigada!
    Editoras do Blog Diga Não À Erotização Infantil
    http://diganaoaerotizacaoinfantil.wordpress.com/
    PS: Excelente seu texto! É revoltante, mas infelizmente verdadeiro!

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  9. Pena, eu nao sabia dessa blogagem, esse tema mt me interessa, sempre que posso falo sobre isso no blog, repugnacao!!

    Elaine, se vc ficou assim tao traumatizada só por ter ouvido tal conversa e se decepcionado com sua amiga, imagina as milhares de criancas que passaram por tal negativa experiencia na vida... gracas a Deus, seus pais te protegeram. Gracas a Deus!

    Nao existe lugar seguro contra o abuso sexual infantil. nao existe!
    e eu acho a coisa mais triste alguem que rouba dessa forma tao cruel a infancia das criancas, porque isso, NUNCA é esquecido. Sua amiga foi aliciada a fazer tais coisas, foi usada por um mal feitor que sabia mt bem o que fazia, um cretino...

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  10. Sabe Elaine, é muito triste mesmo. Para seres "normais" como nós, imaginar que alguém tenha uma mente doentia a ponto de maltratar uma criança. Pior é que é uma bola de neve onde crianças violentadas podem virar agressores, outras se tracam num mundo de tristeza e amargura.
    O que podemos fazer? não vejo solução, apenas cuidar dos nossos filhos, sobrinhos e observar se os amiguinhos ou algum vizinho tem atitude suspeita. Denunciar sem medo.
    Em João Pessoa tinham placas espalhadas com o telefone de denúncia e adolescentes lindas embaixo das placas se vendendo, bem na orla para qualquer autoridade ver. Para que ligar?

    Da sua história posso chegar a uma conclusão: uma boa educação, onde pais olham por seus filhos, é mais difícil algo ruim acontecer, e se acontecer os pais saberão para tomar as providências.

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  11. Elaine estou arrepiada, parabéns pela postagem. Me emocionei com sua história.
    Como é triste isto tudo, as vezes me envergonho por ser deste mundo, embora eu saiba que ainda graças a deus existam muita gente boa e de bom coração, mas tenho a sensação de que os maus são em número infinitamente maior, certas acontecimentos me revoltam tanto que parece que foi comigo. E quando uma mãe permite que algo assim aconteça com seu bebê, seu maior bem precioso que ela carregou por nove meses em seu ventre, caramba fico com um ódio, eu seria capaz de matar se algo assim acontecesse a meu filho.
    Precisamos de mais e mais blogagens com temas como este, vejo como um grito de alerta e socorro, que estes posts tire a venda de olhos que permanecem fechados e solte a voz dos silenciosos, pq algo precisa mudar e com urgência.
    Bjsss querida

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  12. Nossa Elaine,

    nem sei o que dizer...

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