Conto: A carta e a cruz

em 15 de maio de 2009

Meus contos são baseados em vidas.
Quase sempre dos outros.
Este é inspirado em Ana Regina, uma amiga do passado.



Deixou que o corpo escorregasse lentamente até o chão. Não por conta de um excesso de dramaticidade mas porque as pernas não a sustentaram. Sentiu os joelhos fraquejarem e percebeu a iminência da queda. Sentou-se. As mãos começaram a tremer tanto que as duas folhas de papel finas e brancas pareciam ter adquirido vida própria. Os olhos marejaram, e grossas lágrimas jorraram: quentes, fartas, sentidas. Vou desmaiar, pensou.

Mas ela nunca desmaiara em toda a vida, então não iria ser agora que começaria. Tentou ler novamente mas as lágrimas impediam. Respirou fundo, e à maneira das crianças, secou um pouco os olhos com o dorso da mão e fitou a carta novamente. Tão familiar aquela caligrafia, a forma como ele juntava os esses e como ele terminava cada frase com um círculo à guisa de ponto final. Ponto final. Agora ela era definitivamente um ponto final.
Há 2 anos esperava que ele enviasse esta carta, e agora desejava ardentemente que a carta nunca houvesse sequer sido escrita, muito menos enviada. Melhor seria continuar esperando que ele um belo dia simplesmente chegasse, tão súbito quanto partira. Preferia agora não saber, continuar desconhecendo a verdade. "Mejor lo mallo conocido que lo bueno por conocer" costumava dizer sua mãe quando ainda era capaz de acreditar em algo. Mas também a sua mãe estava enganada; bem melhor continuar vivendo de esperança, de sonho, do que enfrentar agora a verdade. E a verdade é que ele jamais voltaria. Encontrara sua chama, sua Terra prometida e não voltaria. "Você vai ser muito feliz" ele escreve. Não, não seria. Como ser feliz com parte de seu coração batendo fora do seu corpo, em outro peito? "Encontrará um homem que a mereça"ele diz. Não. Pois não amamos quem nos mereça, o amor é talhado fora de nós e parece independer de nossa decisão e vontade."Rezarei por você para sempre". Já fala como padre, não é justo! Ela ainda sentia o cheiro dele, sentia o gosto do último beijo; como ele pudera esquecer? "Encontrei um amor maior do que qualquer outro que houvesse esperimentado antes. Espero que compreenda." Compreender ela compreendia, mas o coração é burro e cego e teimoso ...e esse não compreederia jamais.
Então ela viu, pela primeira vez percebeu, a fina corrente presa entre as duas folhas brancas de papel. E a pequena e delicada cruz pendendo dos seu dedos encharcados de lágrimas."Para você não me odiar." Não há ódio no amor que ela sentia, nunca haveria.

Olhou novamente a corrente tão fina e a cruz delicada e frágil; símbolo do amor maior que ele escolhera. Como competir com algo que era-lhe tão superior? Não havia comparação possível. E a decisão dele fora amadurecida durante tanto tempo.
Ali, sentada no chão e olhando a cruz delicada, ela deixou-o enfim seguir a luz ofuscante que o chamava há tanto tempo. Libertou-o, enfim. Sobreviveria. Já o fizera antes e sobreviveria novamente. E ele estaria rezando por ela, afinal.

Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

8 comentários , comente também!

  1. teu conto lembra meus contos, se tiver vontade vá lá ler, são menores, mas lembram.
    Bj Laura
    procura tag: mini contos ao lado do meu blog.

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  2. Lindíssimo, comovente, bem escrito.Tem algo do meu sentir, esta sua escrita.

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  3. PARABENS PELA POSTAGEM ADOREI QUANDO DER VISITE MEU CANTINHO WWW.PALAVRASARTEBLABLABLA.BLOGSPOT.COM

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  4. Adorei o conto!
    Estou tentando escrever um por capítulos como você viu!!

    Realmente estou adorando! Mas estou longe de ser escritora!!

    Um belo Fim de semana!

    Beijocas
    Elaine Crespo

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  5. Que linguagem gostosa de ler, apesar da história triste. Parabéns, adorei!

    =*

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  6. Escreves muito bem, adorei!
    Parabéns!
    Bjsss e um ótimo fim de samana!!!

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