Trata-se do meu pai...

em 3 de abril de 2009







Quase nunca falo do meu pai. Não só aqui no blog, mas na vida eu quase nunca falo dele. Mas esta semana meu irmão passou dois dias comigo, colocando umas coisinhas em ordem aqui em casa e daí eu acabei ouvindo-o falar muito no José de Melo. Faz já quase 20 anos que nós não nos falamos. Eu não pergunto dele, ele não pergunta por mim, e assim vamos seguindo a vida fazendo como se um não existisse para o outro. Vou tentar explicar.



Quando eu tinha uns 15 anos ele me bateu. Claro que não foi a primeira vez e com certeza não seria motivo para deixar de falar com ele "para sempre". Acontece que conforme a gente vai crescendo, vamos deixando de aceitar certas coisas e mais importante, vamos aprendendo a reagir. Eu era uma menina quieta, muito retraída, quase não saía de dentro de casa. Trabalhava e todo o meu salário era religiosamente entregue nas mãos dele. Não desobedecia. Não teimava. Apenas lia. Mas ele era alcoólatra e profundamente frustado com o rumo que a vida dele seguiu. Meu pai era, e ainda é, muito inteligente, muito ambicioso e deve ter sido muito duro ver a vida passar sem que ele tivesse tudo o que quis, tudo o que 3 filhos e uma esposa atrapalhavam-no de conseguir. Daí que um homem assim, tendo sido ele próprio vítima de muita violência por parte do pai, só podia mesmo ser violento. Junte frustação+álcool+traumas+personalidade "forte" e o caldo não será brando, pode apostar. Mas como eu ia dizendo, a gente vai crescendo e vai deixando de aceitar muitas coisas. E eu decidi que bastava de surras. Quando ele tentou de novo eu reagi. Ele ficou furioso, claro. E ao sair de casa, indo embora de vez, suas últimas palavras dirigidas a mim foram: "Esta casa vai se transformar em uma casa de putas. Ainda vou entrar aqui e ver você como puta." Tá, é forte, é duro, é cruel. Ainda ouço as palavras ecoando em minha cabeça, 20 anos depois. Mas é isso aí.



Pois bem, ele se enganou muito à meu respeito, me criou mas nunca soube nada de mim. Aliás, o motivo da última tentativa de surra é que eu havia pedido permissão para namorar. Ele deixou mas se arrependeu ao saber que o garoto em questão era negro. Muitos anos mais tarde ele foi armado à casa da minha irmã, bêbado, dizendo que ia matar o então marido dela e os meus dois sobrinhos, "aqueles macacos". Por que? Por serem negros. Então, racista ao extremo. E do pior tipo.



Mas daí que depois de dizer que ainda me veria como puta, nunca mais nos falamos. Ele me ignora, eu o ignoro. Meus irmãos até tentaram uma aproximação mas no caso da minha irmã, deu na ameaça com um revólver. Meu irmão ele tentou agredir há pouco mais de 1 ano.



Hoje ele está morando em Guará (será que tem alguém de Guará por aqui???) com um senhora. A 4ª em 15 anos. Quero mal a ele? Jamais. Sinto 3 coisas por ele: gratidão pelo fato de que ele me criou e me alimentou até os 16 anos; pena por tudo o que ele já fez a si próprio; e misericórdia por todo o mal que ele me causou, por tudo o que ele me disse e por tudo o que ele fez aos meus irmãos e à minha avó, mãe dele. Ela morreu quando ele havia voltado por uns tempos a viver na casa dela. Até bater nela ele bateu.



Então é isso. Não tenho mais raiva dele, mas também ele não me faz falta. Sem amor, sem ódio, sem nada. E como se trata do meu pai, isso é muito triste.

Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

9 comentários , comente também!

  1. eu consegui perdoar um familiar com um perfil parecido e tenho uns familiares q tb conseguiram. não é fácil. mas eu aprendi que perdoar não é aceitar. aí eu consegui. entender que a pessoa é doente e ter pena dela. concordo que não é o melhor sentimento de termos por alguém. mas é melhor do que a dor, a raiva e o rancor. adorei as flores do blog. beijos, pedrita

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  2. Muito triste esse seu relato, mas sei como é passar por isso (mais ou menos).
    Não quero te dizer o que fazer, mas eu procuro (a cada dia) entender.

    Bjuhhhh e fica com Deus!

    OBS.: Gostei muito do blog!

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  3. Não sei o que dizer, Elaine...
    Vou rezar por ele!
    bjs e fica com Deus

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  4. Lindona, eu não tenho comentado, mas leio TUDO (que dá) pelo reader. Estou sempre por aqui, viu?

    beijo enorme!

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  5. e mais bonito ainda é uma filha que soube analisar a situação sem criar uma raiva ou ódio da situação.... beijos

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  6. Oi Elaine

    Entendo perfeitamente o que passa contigo só que ao contrario o problema é com minha mãe ela me faz coisas da qual jamais vou conseguir perdoa-la o pior é que convivo com ela pois moramos juntas ela não me bateu mas me fez coisas que era como se tivesse batido não sou de pedir visitas mas gostaria de tu visse minha ultima postagem não precisa comentar só ler.

    Bjs

    Lu

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  7. Puxa, a gente fica triste com pessoas que tem sua oportunidade perdida né? Uma vez ouvi o Gasparetto dizendo e explicando na TV,que nem um pai é obrigado a amar um filho e tão pouco um filho amar o pai.Isso bateu em mim de uma forma tão positiva que acabei entendendo de vez o meu paie assim como você também sou grata por ter me dado a vida, me alimentado até os 14 anos e escolhido as filhas da minha madrasta para se doar e amar. O fato dele não ter me ajudado foi ótimo, pois,consegui sobreviver sem o amor e cuidado dele até aqui.Acreditei em mim. Me alivia muito saber que não é preciso conviver com quem se perdoa.Sua história é triste demais,porém,você também chegou até aqui,sendo essa pessoa maravilhosa sem ele. O meu Pai também falou a mesma coisa aos meus quatorze anos,que eu ia ser puta,mas, estava com raiva da minha mãe. Hoje nos falamos ao tel nas datas comemorativas,mas, ele nem sabe aonde moro,rs...O importante é que hoje não me dói mais. Entendi. Você também. Eles perderam a oportunidade de conviverem com mulheres de índole e caráter como nós. fazer o quê? rs.. bjs

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  8. Nossa Elaine, que história comovente!
    Meu avô materno largou os 5 filhos e minha vó, por causa de álcool, é duro!
    Hoje, meus olhos voltam para ti e peço à Deus que continue na sua vida e que você seja sempre essa pessoa rica de amor!

    beijos

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  9. ELAINE...
    É..............................
    ESTOU SEM PALAVRAS...
    QUANTA DUREZA NA ALMA DESSE HOMEM...
    QUANTA SOBRIEDADE, VIRTUDE E INTEGRIDADE NA SUA..
    ENTENDO VC E SEI QUE DOEU, DOÍA E HOJE CALEJOU...
    PERDOAR É DIVINO, ESQUECER É UMA OBRIGAÇÃO PARA QUE POSSAMOS VIVER NOSSA VIDA NA MELHOR FORMA E FELICIDADES POSSÍVEIS.
    AINDA BEM QUE VC SE FEZ FELIZ.
    QUANDO DIGO QUE VC É RARA, NÃO É ÁTOA!!!!
    TE ADMIRO CADA DIA MAIS.
    BJUIVOS NO CORAÇÃO.

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