Professora...

em 15 de outubro de 2014



Durante toda a minha vida escolar eu estudei em apenas duas escolas. E a que mais contribuiu para a minha formação foi, sem dúvida, a escola onde eu estudei desde a 1ª série. Não tanto pela escola em si mas sim pela professora que eu tive a dádiva de ter. Digo dádiva pois essa mulher ímpar foi a responsável pela minha alfabetização, tendo sido minha professora da 1ª à 4ª série. E foi ela quem suscitou em mim o maior amor que eu experimentei naqueles anos durante os quais emergia a pessoa que eu seria: o amor aos livros.

Naquela época a escola onde eu estudava não possuía ainda biblioteca. Era uma escola pequena, erguida bem no meio de um bairro pobre, de periferia mesmo. E que era frequentada por filhos de boias-frias, domésticas e migrantes. O mais próximo que estas crianças haviam chegado de um livro era o contato com as antigas cartilhas. Mas a minha professora era uma mulher incomum, muito à frente de seu tempo. Ela foi, a seu próprio custo e empenho, constituindo uma biblioteca dentro da sala de aula.
Naquele tempo cada professora tinha uma sala fixa, e nesta sala ficavam os armários onde ela guardava todo o material usado pelos alunos. Não sei se ainda hoje é assim, mas naquele época esse armário era um mistério para os alunos. E para as crianças da minha sala era um mundo mágico, encantado, maravilhoso! Aquele armário abrigava livros!!!


Todos os dias, depois que as crianças acabavam os trabalhos do dia, ela abria para nós aquele mundo cheio de figuras, de palavras que nós não conhecíamos ainda o significado, de personagens que nós não acreditávamos que não fossem reais!
No começo só podíamos ler os livros durante aqueles breves momentos entre o fim das tarefas do dia e a hora de ir para casa mas com o passar do tempo, e penso que principalmente vendo ela o quanto nos era custoso deixar o amigo no armário, pudemos enfim levá-lo para casa, para passar uma semana!

Eu era a que mais lia, com certeza! Aprendi a ler antes de quase toda a turma e encontrava na leitura um mundo muito diferente do que eu estava acostumada. Minha professora viu isso, colaborou para que isso se fortalecesse, me instigava e me motivava. O primeiro livro que ganhei na vida veio dela, uma beleza: Rosinha, minha canoa.
Ela sempre promovia competições de leitura entre os alunos e o prêmio era sempre um livro. Sempre um mundo novo que se descortinava...

E ela sempre elogiava os alunos que apreciavam os livros. Era capaz de descrever em detalhes livros inteiros, fazendo com que a gente quisesse muito ler cada um deles. Às vezes ela nos contava apenas uma parte do livro, e dizia que o resto quem contaria seríamos nós. Falava de seus autores preferidos e muito do que eu gosto ainda hoje é fruto desta influência.

Quando eu passei à 5ª série tive outras professoras, boas cada uma à sua maneira. Mas nenhuma me marcou tão definitivamente quanto ela. Ela, que me convenceu que um livro é uma porta aberta para o mundo; que me mostrou com seu exemplo que uma pessoa pode ser maior que sua origem; ela, que me ensinou que tudo o que apreendemos da leitura de um bom livro entra pela nossa mente e ninguém pode nos tirar pois passa a ser parte definitiva de nós.

Por tudo isso, por ter sido ela quem primeiro me mostrou que "um país é feito de homens e livros" é que sinto, no fundo do coração, ter sido esta professora de uma pequena escola de periferia o meu Monteiro Lobato.


Para Nora Gley Fiorin Bombig, com gratidão.


*Este texto foi publicado originalmente em 2009 para participar da Blogagem Coletiva:Quem foi seu Monteiro Lobato? promovida pelo blog Fio de Ariadne , e rendeu inclusive um reencontro emocionante com minha antiga professora.
Confira aqui.

Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

31 comentários , comente também!

  1. Elaine, que historia linda. Me emocionei.
    beijos,
    Octavio

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  2. Se a professora Nora despertou em você esse encanto, deve ter feito o mesmo por dezenas de outras pessoas, o que já é feito digno de respeito, admiração e memória. Precisamos de professoras Nora tanto quanto de pais incentivadores.

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  3. As delicadezas nos marcam a alma! Bjo

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  4. Oi amiga,

    Sou professora e ler uma história dessas faz refletir bastante!

    Belo relato o seu, e lendo percebo que as coisas não são tão complicadas quanto parece, o que precisamos para transformar nossos alunos em leitores vorazes é darmos o nosso exemplo,

    palmas para vc que valoriza essa rica herança deixada,

    bjs!

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  5. Um professor pode transformar a nossa vida para sempre. É pena que cada vez mais desvalorizem o seu trabalho ( eu que diga...em tempos também fui professora). Parabéns é uma autêntica homenagem a todos os professores! Obrigada!
    bjs Susana

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  6. Rosinha minha canoa! Esta blogagem está sendo uma viagem! foi um livro marcante na minha infância também. Mas, além dessa identificação, o papel da professora nora também se aproxima de mestras (porque não utilizar esse termo?) . Maestras de uma formação que , depois de implementada, segue dando fruotos. é interminável. Tambpem estudei numa escola única durante 14/15 anos e aprendi a amar e reconhecer em meus mestres a importância delss em minha vontade de saber. Danadinhos instilaram a elixir , fortificante para que eu me tornasse uma leitora voraz.
    Qdo , hoje, se diz que a periferia está no centro é possível entender que numa escola assim simples brota "Um pouco (tanto0 de alguém como vc. Parabéns pelo post

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  7. Lendo sua linda crônica tive vontade de ser uma professora melhor. Linda mesmo!!!!

    beijos

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  8. Oi Elaine Querida!

    O seu jeito agradável de escrever me fez viajar na sua história, quanta magia e doçura. Eu tinha certeza que você postaria algum texto que me emocionasse é a sua marca!

    Belíssima participação.

    Grande beijo

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  9. Simplesmente,parabéns!!!
    Gostei muito,tb estou participando dessa fantastica
    iniciativa.
    Beijos
    Mari

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  10. Uma bela história que essa blogagem esta nos proporcionando.

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  11. Quem dera existisse uma professora dessas em cada escola.
    Abraços

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  12. Não se fazem mais professoras dedicadas como antes. Isto é o que mais escuto e espero que o nosso status quo mude em breve.
    A escola e a família representam muito na formação do caráter da pessoa e sinta-se orgulhosa de ter tido a oportunidade de conviver com uma pessoa tão nobre como sua professora primária.
    Boa blogagem! Beijus

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  13. Oi Elaine,

    que post maravilhoso, nos passou a exata sensação de o quão importante foi sua professora foi para você. Que belo Lobato você teve hein...

    Parabéns pelo post, abraços.

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  14. Elaine
    Parabéns pelo post, inspirador tanto quanto o que essa professora de curitiba está fazendo...

    http://www.bookess.com/profile/marilda/

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  15. Que lindo!!!
    Também lembro das minhas professoras e dos meus queridos livros...

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  16. Elaine, que lindo texto. Eu tb já fui professora de séries iniciais e tive meu " armário" fechado que despertava a curiosidade das crianças e dentro dele uma minibiblioteca em caixas de papelão. Que delícia.

    Obrigada por contribuir com a coletiva de forma tão encantadora.

    Abraço

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  17. Oi, já está no Fio a lista com os textos selecionados para a votação que premiará três blogueiros com um livro da Zahar. Conto com você para ajudar nesta tarefa. O link é http://tinyurl.com/dnlozq


    Abraço

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  18. Oi...olha eu aqui de novo...
    Meu Monteiro Lobato foi Clarice Lispector com um poema chamado " A bailarina".

    bjs

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  19. Monteiro Lobato é referência da minha infância.
    Adoro a Emília.
    Falei dela esses dias, aqui:

    http://diariodoamanha.blogspot.com/2009/05/sobre-mulheres-e-bonecas_19.html

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  20. Depois que fiz o comentário, vim aqui ler a história. Coisa linda de texto mesmo. Professora maravilhosa, como uma tia que eu tenho, uma mulher a frente do seu tempo e foi uma educadora de verdade, tenho certeza que os alunos dela nunca a esqueceram, assim como você não esqueceu a Nora. Eram mulheres com vocação e fieis ao dom. Amorosas e um sexto sentidop muito bem trabalhado não é?! bjs

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  21. ola nossa amei de coração quem me dera que os professore de hoje tivessem tanta sabedoria porque as escolas de hoje a alunos de 4 ano que ainda mal sabem ler amei muito adoraria que a professora do meus filhos podecem ler este poste beijinhos

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  22. MUITO LEGAL ESSE POST,EU TAMBÉM TIVE UMA PROFESSORA ASSIM,FOI ELA QUEM ME ALFABETIZOU,EM UMA ESCOLINHA,BEM PEQUENININHA,CUJO NOME,ME LEMBRO ATÉ HOJE"ANÍSO TEIXEIRA"(UM GRANDE EDUCADOR,BAIANO)E ESSA PROFESSORA,HOJE JÁ FALECIDA,ERA MINHA PRÓPRIA IRMÃ

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  23. Estudei num Colégio famoso eu Niterói, na parte da tarde e depois manhã, da Alfabetização até o 2º ano do Ensino Médio (depois perdi meu pai aos 14 anos) e fui estudar à noite para terminar meus estudos.
    Tive muitas professoras (Nora) inesquecíveis neste primeiro Colégio.
    E a leitura de livros foi sempre prioridade em minha casa, exemplo que meu pai nos deu.
    Tem horas que quero voltar no tempo ...........
    Leio muito até hoje.
    Beijos.

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  24. Meus professores foram maravilhosos....

    e meu aprendizado inesquecível, do tempo em que cantávamos o hino nacional e o da bandeira!
    Alunos e professores se respeitavam.
    Hoje está tudo muito mudado.

    Acabei de receber meu coração, amei!!

    vou postar!

    obrigada!

    bjsss

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  25. OI, Elaine!

    Também fui do tempo das bibliotecas, do incentivo às boas leituras... Hoje é tudo tão rápido e aparentemente tão fácil... O livro fica, muitas vezes desvalorizado. Ainda que existam campanhas em favor da leitura desde cedo, o tempo que nossas crianças e adolescentes ficam ligados ao computador atrapalha bastante no mundo dos livros.
    Mas, foi muito boa a sua partilha em relação ao seu primeiro livro. Eu também o li, muito cedo e gostei bastante... chorei também com toda a história... história linda!
    Hoje, luto para fazer meu filho ler mais, nem sempre é possível convencê-los da importância da leitura para nossa vida futura. E quando eles lêem, as obras giram em torno de vampiros e histórias mirabolantes e de bruxos. Mas, de qualquer forma tudo é leitura e tudo é muito válido! O importante é que a gente possa plantar nos nossos filhos o bom hábito de ler!

    Abraços, querida!
    Drica.

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  26. Que coisa linda, esta historia sem duvida é uma maravilha, eu que estudei em 4 escola, classifico 2 como as melhores que estudei, lembro e tenho saudade, inclusive dos colegas que para mim é inesquecível.

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  27. Elaine à medida que conhecemos você, entendemos como pode desenvolver seu talento, de forma tão maravilhosa. A sua 1ª professora, Nora, foi estimulando sua imaginação e criatividade, ao perceber a sua curiosidade e paixão pela leitura. Embora não tenha tido oportunidades, a sementinha adubada corretamente, permitiu aflorar um talento próprio de auto didata. O que você sabe, não tem escola que ensine. Parabéns à Nora, Parabéns à você que tão generosamente nos ensina. Obrigada e abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  28. Elaine você contando algo de bom pra nos leitores adorei !
    http://www.nadaincomum.com.br/

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  29. Amei o texto, principalmente por que é um reconhecimento à alguém, e tal atitude está cada vez mais invisível em nosso tempo!!! Parabéns, Elaine!!!

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  30. Bonita e merecida homenagem. Pena que nem todas as professoras sejam como a nora. Não tenho boas recordações da minha professora, mas ainda assim estou-lhe grata, pois foi ela quem me ensinou tudo desde a primeira à 4ª classe. Aprendíamos por medo das palmatórias com que nos deixava as mãos em sangue, não por gosto ou amor. Daí que não seja boa a recordação.
    Um abraço e uma boa semana

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