Blogagem Coletiva: Inclusão Social

em 9 de março de 2009


Em 2002 minha irmã se cadastrou no Serviço de assistência Social em nossa cidade para ser beneficiária do Bolsa Família. Por ter 2 filhos bem pequenos e uma renda ainda menor que os filhos ela foi aprovada sem maiores problemas. Desde então ela recebe o benefício religiosamente, desde que mantenha os filhos na escola e a caderneta de vacinação em dia. Ah, e que a renda declarada não ultrapasse 1/2 salário mínimo por pessoa na família. O valor do benefício é de R$36,00 pelas duas crianças. Ela começou a receber o benefício quando se viu sozinha com dois filhos para criar, sem marido e sem emprego.

Enquanto você lê este texto deve estar pensando no que significa isso de bolsa família e caso já saiba do que se trata deve ter um conceito já formado: é favorável, é contra, acha desperdício de verba pública, acha um instrumento eficaz de distribuição de renda e portanto de inclusão social e mil outros pontos de vista.

Sei bem como é isso pois eu também tenho opiniões ambivalentes em relação ao assunto. Vamos a elas:

Em primeiro lugar eu sempre fiquei muito incomodada em ver o governo fazer propaganda desses benefícios sociais como se fosse a salvação da lavoura; é ridículo supor que R$36,00 seja efetivamente distribuição de renda ou que realmente seja instrumento de inclusão social. Além do que existem inúmeras falhas no processo de seleção, que deixa de fora quem mais precisa e premia até o cachorrinho de um deputado...Só que essa visão é própria de alguém que vive no que se convensionou chamar de Califórnia brasileira, a região uma das mais ricas e prósperas do estado mais desenvolvido do Brasil. Moro bem perto de Ribeirão Preto, que é uma das cidades mais "ricas" de São Paulo.

Agora pense no que significa esse auxílio para quem não tem renda alguma; não tem emprego ; vive numa região em que a renda per capta não chega a R$100,00; onde os homens partem de casa e deixam mulher e filhos entrgues à própria sorte, na mais absoluta miséria.Mulheres que de repente se veem sozinhas com 6, 8, 10 filhos pequenos...O benefício do governo federal pode significar a diferença entre viver ou morrer...Viver mal, com muito menos do que o necessário ou morrer de fome.

Sei perfeitamente que em alguns lugares o Bolsa família já se tornou uma malandragem sem fim; mulheres que vendem seu cartão do benefício para comprar drogas e álcool, que deixam de trabalhar em empregos que elas consideram mal pagos ( e muitas vezes são mesmo) para sobreviver apenas do benefício dos filhos. E é sobreviver mesmo pois não me entra na cabeça que alguém viva com tão pouco...

Mas em contra-partida eu penso naquela mulher perdida no mais profundo do Brasil, que nunca abandonou um emprego porque simplesmente nunca teve um emprego para abandonar, naquela mulher que vive à margem de tudo, analfabeta ou quase, que vive uma situação de fragilidade social tal que é inimaginável para quem está habituada a ter a geladeira e a despensa cheias.

Sei que ações assistencialistas não solucionam um problema que é muito profundo e que tem várias vertentes como é este da distribuição de renda, mas sei também que quem tem fome tem pressa e não dá para esperar reformas que demoram, se é que chegarão algum dia...É pouco? Muito pouco, uma quantia ridícula. Mas sobretudo se medido por quem paga R$200,00 numa calça jeans. Ou R$50,00 em um baton legal. E você ficaria surpresa com o que se compra de comida, arroz, farinha, feijão com esse dinheiro. E talvez ficasse ainda mais surpresa com a alegria que 5 quilos de arroz causa em uma criança que come feijão com farinha há 1 mês seguido...E é indiscutível que o Bolsa Família faz a diferença para essas pessoas tão desprotegidas, tão desamparadas. Repito: diferença entre comer ou não.
Quando eu era bem pequena o governo estadual tinha um projeto que dava leite em pó para bebês recém-nascidos e meus irmãos foram criados com leite em pó do governo. Quer dizer, o leite era de vaca mas quem dava era o governo. E foi muito bom pois venho de uma família de trabalhadores rurais; e isso antes dos movimentos sindicais que sacudiram o Brasil nos anos 80, portanto era quase que viver na miséria mesmo. E a ajuda do governo fez a diferença para nós.
Mas claro que acões sociais, ainda que válidas, não solucionam o problema da pobreza e da má distribuição de renda no Brasil. Para uma efetiva política de Inclusão Social via distribuição de renda é preciso que hajam reformas profundas, desde a Fiscal, a Tributária, a Agrária. Bolsa Família, cotas nas universidades, e tudo o mais que se faz são apenas paliativos que não atacam a raíz do problema.
E quero lembrar aqui que o Bolsa Família nasceu da junção de vários outros projetos como o Bolsa Escola, o Bolsa Gás, o Bolsa Creche. Todos idealizados pela mais ativa, competente e preparada das Primeiras-damas(título que aliás ela não gostava) que o Brasil já teve, D. Ruth Cardoso. E o D. é de Doutora. No projeto dela essas ações viriam necessáriamente acompanhadas de capacitação profissional e reinserção no mercado de trabalho, sendo portanto temporárias. Hoje o que era para ser temporário dura até que a criança complete 18 anos!!!
Quanto à minha irmã ela segue recebendo esse dinheiro, que mesmo no caso dela, que trabalha e vive no sudeste do Brasil, já fez a diferença entre ter leite para as crianças ou elas irem para a escola com fome... E faz a diferença pois ela e o marido estão ambos desempregados, vivendo de "bicos". Pagando aluguel. Faz a diferença, digo novamente, entre ter leite e pão ou não...Mas nada tão drástico quanto viver ou morrer...


Esta postagem faz parte da Blogagem Coletiva proposta pela Ester.

Alguém que escreve. Especialista em si mesma. Leitora que lê muito menos do que gostaria. Blogueira por paixão e profissão. Propriedade da Princesa e da Menininha, e de um cachorrinho muito levado chamado Bloguinho. Tentando viver. Sempre.

13 comentários , comente também!

  1. Acho que por pouco que seja ajuda, não resolve mais é uma ajuda!
    Mas particularmente sou contra a este tipo de ação! Deveria sim ser uma coisa mais efetiva , como criar mais empregos ou facilitar a vida de quem quer abrir seu próprio negócio com incentivos financeiros"

    "Ensinar a pescar e não da um pequeno peixe!

    Uma bela semana!

    Beijos
    Elaine

    ResponderExcluir
  2. Nós aqui em Portugal temos o Rendimento de Inserção Social. Penso que deve ser idêntico. Pode haver malandrices, mas isso não significa que não ajude alguém.

    Ainda bem que há estas ajudas. Mas, também concordo que temos de "Ensinar a pescar e não dar um pequeno peixe!".



    beijos e obrigada pela tua visita.

    ResponderExcluir
  3. Em um país onde grande parte dos homens não estão nem ai, beneficios como o Bolsa familia, e outros deveria serem entregues somente as mulheres e crianças. Crianças coitadas pagam pelos erros de adultos, não tem culpa, e a mulher, muitas das vezes cai no golpe do homem...Alias a severidade de lei deveria ser mais severa nesses casos a eles.
    Não cito se é isso oque ocorre com vcs, mas oque sinto em relação ao bolsa familia, algo mais justo, desde que dado e entregue a mulher.
    Acho que em alguns casos ate a compra de um imovel deveria ficar no nome das mulheres, caso nao se caesem em separação total de bens, algo q deveria so ter esse sistema.
    Espero que ela, como tantas outras saibam aproveitar o benefio e educar as crianças a serem exemplos;)
    Belo post.

    Besos

    ResponderExcluir
  4. Oi Elaine,

    moro numa das regiões mais pobres do estado de São Paulo, o Pontal do Paranapanema, e sei bem como ações como o Bolsa Família fazem a diferença por aqui na vida de algumas famílias, apesar de ser a maior moeda eleitoral do atual governo, é necessário para que muitas pessoas tenham muito menos que o básico para viver. É triste, mas é assim que é.

    Parabéns, abraços.

    ResponderExcluir
  5. Tem selinho para vc no meu blog. Bjs

    ResponderExcluir
  6. Muitas vezes pergunto como que simples atos de verdade como foi desempenhado pela Ester, nos faz entrar nesse mundo magico de verdade; esse mundo que ao mesmo tempo falamos de algo serio, encontramos novos amigos, novos conteudos. Isso se chama mudança, isso é incluir na sociedade, mostrando o que somos capaz. E hoje ao ler seu conteudo deparo com varias suspresas como essa, que faz eu parabenizar a vc.. pelo excelente trabalho...

    Continuemos....abraços

    "A gente nao faz amigos, reconhece- os"
    Vinicius de MOrais

    ResponderExcluir
  7. Olá Elaine! Fico feliz que tenha gostado do post! =) Acredito que se colocar no lugar do outro é a maior de todas as formas de caridade. =) É o que nos impede de julgar e apenas assim somos livres para dar e receber amor! Ainda não tive tempo de ler os posts da blogagem coletiva, estou começando agora... Fica com Deus também!

    ResponderExcluir
  8. lindo seu texto, parabens pela bela participação nesta gde idea, a blogagem coletiva.


    abraços

    ResponderExcluir
  9. Ola Elaine,
    Muito obrigada pela visita! Primeiro nao estava conseguindo visualisar seu blog, ele abria e ficava em branco. Agora ele abre e mostra so o começo do seu texto. Mas vou continuar tentando. Tenho certeza pelos comentarios acima de que vale a pena.

    Deixei uma taça de café lá no blog, para voce e todos os participantes desse momento de troca tao especial.
    Fiquei feliz com sua visita!

    Abraços,

    ResponderExcluir
  10. Ótimas considerações sobre o assunto.
    Assunto delicado que não pode ser generalizado, já que como vc mesma disse, é um pouco que faz a diferença entre viver mal ou morrer de fome.
    É ter esperança de que algum dia teremos políticas públicas que ataquem a raiz do problema e não apenas camuflem o caos sócio-econômico que nos aflige.

    Beijokas!

    :o)

    ResponderExcluir
  11. Elaine, vc fez uma belíssima reflexão sobre assistencialismo ! Consegue ver com clareza o lado ruim, as maracutaias que existem nesse tipo de programa como tb consegue ver o lado de quem de fato precisa e utiliza isso como um auxílio e não como um meio de vida, caso da sua irmã. Compartilho com vc a admiração por Ruth Cardoso.
    Fiquei extremamente satisfeita e feliz em ler seu texto. Obrigada !
    Se quiser dê uma passadinha no meu blog, tb participante da blogagem.
    Abraços !

    ResponderExcluir
  12. Elaine!

    Parabéns pela sua excelente explanação sobre o assunto!
    Coragem é uma característica marcante sua! boata a boca no trombone e fala mesmo o que pensa, isso é ser forte e ter personalidade!
    bjokas

    ResponderExcluir

Olá! Muito obrigada por ler meu blog e obrigada também por se dispor a comentar meus posts. Seja muito bem-vindo(a)!

Importante!
Devido à falta de tempo hábil eu não me comprometo a responder perguntas referentes aos tutoriais postados neste blog.
Pedidos de ajuda individual serão respondidos conforme o meu tempo e disponibilidade permitirem.
Por favor, entenda: comentários sem relação alguma com o post não serão liberados e nem respondidos.

Para saber mais sobre a melhor forma de utilizar este blog leia Termos de uso do blog.



Muito obrigada, fique à vontade para interagir.
Mas lembre-se:
Gentileza, educação e boas maneiras servem também para a vida nos blogs…